Bempostinha

Sou bastante mutável, é o que diz o meu signo. Para quem não liga um chavo aos signos é uma piada, para quem liga é só mais uma das milhões de características que os clubes do Zodíaco têm. Mas eu sou mutável e gosto disso, sinto que nunca me vou cansar de mim, todos os dias posso aprender comigo, como se fosse possível existirem várias minis “mim”s aqui dentro. Admiro tanto quanto me assusto com a mutabilidade das pessoas, das coisas. Mas é um susto bom para quem tem medo do aborrecimento e da monotonia da vida.

Lembro-me de detestar chá, sabia a coisa de adulto, uma água choca cheia de tonalidades em chávenas bonitas. Os adultos nunca me fizeram sentido e o chá era só mais um detalhe que me ultrapassava. Há uns anos, numa noite de inverno, na casa de uma das muitas famílias que já me acolheram cheias de amor, ofereceram-me um chá.

Gosto de dar várias oportunidades à vida, tenho sempre esperança que o desfecho um dia seja bom. E claro que não é preciso ser um génio para adivinhar que isto já me causou muitas nódoas negras na pele e na alma. Mas nessa noite fria aceitei a água escaldada que todos bebiam com cara de quem lhes aquecia mais do que o dia. Aquilo fervia, mas sabia bem, como quase todas as coisas que fervem. Foi um dia bonito esse, o dia em que me apercebi do quanto adorava água choca com cor. Lembro-me de me rir, a chávena nem era assim tão bonita,mas estava-me a aperceber que era possível estar a tornar-me em mais um desses adultos que não fazem muito sentido e são difíceis de entender.

No ano passado, detestei Lisboa. Não a compreendi, olhava para ela com os olhos de quem não via lá muito bem. Tinha frio. A zona em que morava não me fazia sentir em casa, os trabalhos que fazia não me enchiam o peito, as pessoas por muito boas que pudessem ser não me tiravam o ar. Então decidi que Lisboa era o sítio perfeito para ser triste, para me perder, para me massacrar com dores que já nem me lembrava magoarem tanto. Os dias só eram dias quando apanhava comboio para casa, a luz de Lisboa não me dizia olá. Havia uma senhora simpática a trabalhar no café da esquina mas era tudo muito pouco pessoal, faltava-me o jeito bonito das pessoas simples, humildes, que sabem como é difícil mastigar as amarguras da vida com poucos dentes bons.

Fui embora aliviada e pensei que não voltaria tão cedo àquela que é tão desejada pelos que não são de cá, tão difícil de adaptar aos que são do meu Norte querido.
Mas este ano não estou na mesma Lisboa. Estou na rua da Bempostinha, que é um nome por si só bem postinho. Estou numa rua cheia de prédios sem gosto, com marquises de quem não tem muito dinheiro para luxos, onde há cafés podres, velhinhos, cheios de amor. Não estou na zona empresarial, não estou na zona da arquitectura bonita, não me cruzo com senhores de barba feita e pescoço engravatado.

Os meus vizinhos são gentes de todo mundo, de todas as cores, de todo o tipo de dificuldades que só uma vida dura traz. Há amor naqueles paralelos pisados. E é na esquina da minha rua que está o meu sítio preferido da cidade. É minúsculo, é velho, é podre, é lindo.O Frangueiros não tem sequer espaço para mais de quatro mesas. Há pouco mais do que muita cerveja, mas tem o sorriso da Dona Teresa, que é de Chaves e cá está há muitos anos, todos os dias. Quando lá fui viu-me logo o sangue do norte, diz ela que se nota à distância, que bom que é ouvir disto por cá.

Eu nem sou de pequenos almoços fora de casa, mas a Dona Teresa prepara-me tão bem o pão com queijo das minhas manhãs lisboetas, sempre com o mesmo ritmo vagaroso, mas com um carinho de estranhar numa cidade que me doía tanto há um ano atrás. A Dona Teresa dá-me a alegria de um bom dia em família e não há nada que o pague. Todos os dias há personagens diferentes que partilham, em pé, aquele meu pão com queijo, e eu vou lhes conhecendo as palavras, as vozes e as histórias que me trazem com o Correio da Manhã na mão e as tragédias de mais um dia que passou.

À noite a rua está parada, eu chego muito cansada, embora a vizinhança possa ser de desconfiar, já que o Intendente não tem fama de grande espingarda, eu nunca me sinto insegura.
No outro dia, chegava à Bempostinha a pé e já estava a ver um casal de vizinhos meus, lá ao longe. Éramos as únicas três pessoas ao fim do dia na nossa rua. Ele era daqueles magricelas com cara de maus, um piercing de mau gosto na sobrancelha, um cabelo que não precisava daquela massa de gel, um fato de treino digno de um rótulo menos simpático. Ela trazia o cabelo apanhado, um casaco de couro vermelho, um ar exausto, um joelho à mostra. Mesmo quando tentamos eliminar os preconceitos ao máximo, a verdade é que é difícil fugirmos aos clichés de quem vê caras antes de ver corações.

Iam os dois com cara de quem não tem muitos amigos, ele rezingão, voz grossa.
– Ouve lá, o que é que almoçaste hoje?
– Oh pah estou cansada…
-Anda lá, diz-me o que almoçaste.
Pensei logo para mim “mais um bruto”. Mas que raio.
– Bebi um chá e comi um bolo de arroz.
Estavam a entrar no prédio ao lado do meu, passei por eles nesse preciso momento. Ela abria a porta e ele estava encostado à parede das campainhas.
– Isso não pode ser percebes?
-Oh. Já é tarde, deixa-te de coisas.
-Não pode ser. Isto não é vida, tu vais só ver. Agora em casa tu vais ver.
-Vou ver o que pah?

Eu também queria saber o que é que ela ia ter de ver em casa. O tom de voz dele era de quem me dava razão, a imagem dele não ajudava e não é que eu pudesse fazer alguma coisa extremamente especial por ela, mas pelo menos estava lá. Então abrandei, como quem vai ao telemóvel distraído, de mão no bolso, a enrugar a cara como quem teme um estalo na cara. Temi pela resposta dele.

Mas daí que ouvi e parei. De repente, já não me interessava disfarçar o meu ouvido,já não ia em pés de lã. Cá dentro quis que se soubesse que ouvi e ouvi bem. Ouvi e gostei, porque foi inesperado e foi bonito. E as minhas armas caíram e as dela também. Cruzámos os três o olhar e ambas sorrimos ao ouvi-lo dizer:

-Tu vais só ver miúda. Vais chegar a casa, vais para o sofá e eu vou fazer-te uns ovinhos mexidos com fiambre, miúda. Isto não é vida.

Fui de coração cheio para casa, a imaginar os ovos mexidos da mesa dos meus vizinhos e quando cheguei a casa, a Di já lá estava. A Di que é já quase um membro de mim, porque além de irmã de amor, é colega no trabalho e partilhamos a casa mais bonita da cidade, já tinha feito o jantar. Lá comemos, sentámo-nos na sala de canecas quentes na mão e, enquanto bebíamos água choca para adultos que agora amo, perguntou-me:
– Esta casa sabe mesmo a casa, não é?
– É, sabe mesmo. Adoro esta rua e é estranho sentir-me em casa em Lisboa. É bom isto.
– É nossa. E é diferente.
– É… É diferente. Olha… Sabes o que é?
– O que?
-É bempostinha.

Vento na cara

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Fotos: Joana Jorge

Dois dias antes de viajar para a Alemanha apanhei um grande susto e, pela primeira vez em muito tempo de partilhas na internet, ponderei se haveria de escrever este texto; porém, por respeito e admiração a todas as pessoas que passam por situações semelhantes e infelizmente sem a minha sorte, decidi escrevê-lo.

Sempre tive muitas dores de cabeça, desde miúda. Mais tarde vieram as enxaquecas com tudo a que dão direito. Aos 17 anos, na época dos exames nacionais de décimo primeiro ano, as características das minhas dores mudaram e eu deixei de conseguir dormir, tive mesmo um episódio em que deixei de ver por uns segundos, vários momentos que mais tarde descobri serem ataques de pânico e, pronto, estava mais que visto que devia ir ao médico.

Marcada a consulta no hospital de S.João, eu e a minha mãe fomos juntas de comboio de Resende para o Porto, na maior tranquilidade, lembro-me que nem carteira levei comigo. O plano era irmos ao hospital, depois passearmos pela baixa onde compraria o habitual bilhete para o Paredes de Coura e lá voltaríamos felizes da vida para Resende.

A neurologista que me viu era conhecida da minha mãe, fez-me os exames clínicos todos, mas por via das dúvidas achou por bem mandar-me fazer uma TAC. Quando tive de repetir o exame, agora com contraste, lembro-me de dizer à minha mãe que aquilo não me parecia ter sido bom sinal.

Passados uns 40 minutos de espera, numa sala para onde me tinham encaminhado, uma médica de cabelos aos caracóis (que mais tarde se veio a revelar uma das melhores médicas e pessoas do mundo) e um médico magrinho de olhos claros dirigiram-se a nós com a notícia que me tinham encontrado um vaso dilatado no cérebro, que não sabiam o que era, nem se o sangue que circulava era venoso ou arterial, podendo ser um aneurisma e que por isso eu teria de ficar internada para fazerem mais exames, sem haver a hipótese de sair dali sem que tudo fosse esclarecido.

Eu acho que todos os dias, quando acordo, me lembro da sensação que aquele momento me trouxe. São precisos apenas microssegundos para vermos toda a nossa vida passar-nos em frente dos olhos, como quando acelerava o “rewind” do VHS lá da sala de jantar. O chão foge-nos, lembramo-nos de todas as pessoas a quem queremos o melhor do mundo e, de repente, o que nos atormentava e as comichões de ontem são imperceptíveis. A relatividade das coisas passa a ser monstruosa.

Eu reajo sempre muito calma a situações que prometem o caos, talvez por guardá-lo dentro de mim desde que me conheço,  mas a minha mãe estava em pânico e ainda teve de voltar para Resende, lá haveria de me preparar um saco, já que nem carregador do telemóvel tinha e, entretanto, a minha tia Mena cheia de carinho levou-me um pijama ao fim do dia. Eu lembro-me de assistir àquilo tudo sem grande alarido, embora por dentro gritasse.

Eu não sabia sequer se tinha de ir à segunda fase dos exames, havia tantos planos para as férias, que ridículas me pareciam todas essas preocupações agora que estava deitada naquela cama de hospital. A ala de internamento de neuro estava lotada e por isso fiquei internada no piso de gastro. Eu era a mais saudável de todas aquelas pessoas embrenhadas em lençóis brancos, com famílias a chorar, máquinas a apitar, noites inteiras a vómitos e gemidos.

Estive internada 15 dias e talvez, se um dia escrever um livro, possa dedicar as páginas merecidas aos dias extraordinários que lá vivi, assim como explicar a mudança que trouxeram na minha vida tanto as pessoas que vi morrer, as lições das histórias que partilharam comigo doentes que lá estavam há meses, as visitas inesperadas que me fizeram pessoas que eu não esperava, o amor que senti de tanta gente, ou até mesmo o episódio em que fugi às escondidas, a meio da madrugada, com outras duas raparigas pelos corredores do hospital, porque uma delas tinha ouvido falar de uma janela aberta no piso de traumatologia e nenhuma de nós sabia o que era sentir o vento na cara há muito tempo.

Felizmente, no final das contas, o tal vaso dilatado era a minha veia de Galeno, o sangue que lá circulava era venoso como era suposto e parece que este tamanho estúpido teria já sido defeito de fabrico, tendo sido a pressão compensada pela Mãe Natureza.

Eu era uma miúda a crescer em Resende, no meio do verde, do rio, só queria jogar voleibol e divertir-me com os meus amigos. Nunca tinha apanhado uma bebedeira, nunca tinha feito grandes maluquices, gostava de dançar descalça e de correr no meio das árvores das terras do meu avô. Era péssima a expressar sentimentos, era pudica, pensava demasiado em  vez de arriscar, guardava tudo cá dentro e era bastante responsável e prudente. Escusado será dizer que a  minha percepção em relação à vida mudou drasticamente. Se desde criança a vontade de me mexer, de conhecer e de viver era já de uma imensa força, a partir do episódio desse verão, a minha dedicação a saber aproveitar o facto de estar viva e a demonstrar o bem que queria aos que me rodeavam quadruplicou.

Era uma larva, saí daquele hospital borboleta e deixei de guardar os sentimentos para mim, evitei ser bruta como de costume, transformei toda a confusão que estava guardada em mim em amor e energia para ser alguém melhor.

A minha insignificância sempre me fascinou, a nossa pequenez nesta imensidão de matéria e espaço, a volubilidade com que passamos de vivos a mortos, a falta de sentido em todo este processo de existir, mas eu ainda não tinha sentido o respeito que estar vivo merece, precisamente por ser fruto de uma aleatoriedade tão fortuita.

Saí daquele lago de água fria a sentir-me abençoada pela sorte, como quem se safou por um triz de levar com uma cacetada e a primeira coisa que fiz quando entrei no carro do meu pai foi meter a cabeça de fora da janela e sentir o vento na cara pela primeira vez na vida. De olhos fechados pensei nas minhas companheiras da fuga nocturna, elas não teriam a mesma sorte que eu tão cedo.

Depois deste incidente, a cada unha encravada que me aparecesse eu não hesitava em ir ao médico. Claro que estou a exagerar, mas basicamente nunca mais adiei uma ida ao médico, acho que é normal depois de apanharmos um susto e admito que acabo por ter pouca paciência com pessoas que se recusam a ir ao médico, quando há coisas graves que podem ser tratadas a tempo se as pessoas tiverem cuidado.

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Felizmente de todas as maleitas que vou tendo, desde operações aos pés, a hérnias numa coluna que me dá muito que fazer, a verdade é que são sempre coisas menores, nada comparáveis aos centenas de carcinomas que já vimos aparecerem em familiares, amigos, mães e pais de amigos, vizinhos, conhecidos.
Cresci com uma mãe que acompanha tudo que é gente ao IPO, ouvi sempre falar da Rosa Maria, uma das melhores amigas da minha mãe, com quem partilhava quarto na Universidade, que faleceu com cancro, vi muitas pessoas que me são queridas morrer cedo demais com cancros pesadíssimos, o meu avô foi um sobrevivente que vinte anos depois viu o pesadelo voltar com toda a força, por isso cá em casa sempre tivemos um enorme respeito por este monstro que assombra tantas famílias.

Dois dias antes da minha viagem, estava já com as malas a meio, decidi ir deitar-me. Já sei que mesmo que esteja com muito sono, quando chego à cama há sempre um processo delicado de me fazer desligar da realidade. À noite a minha mente acelera e tudo que é possibilidade remota, decisão mal tomada no passado ou preocupação surge nesse instante.
Aprendi com o tempo a amar dormir sozinha e por isso tenho o hábito de, para relaxar, fazer festas em mim. Acho que é muito saudável sabermos tocar no nosso corpo, sentirmos os nossos pés, os joelhos, os ossos das ancas, sentir-me a barriga, o umbigo, o recorte do meu peito. 

Foi precisamente quando cheguei ao meu peito que o meu coração parou. A exata sensação daquela tarde em frente a dois médicos desconhecidos com uma novidade que me fez rever cada pedacinho do meu passado, mas agora ali sozinha, no quarto da casa que ia deixar dali a duas semanas.
Dei conta que por baixo da minha mama esquerda estava um nódulo, um dos que apesar de invisível aos olhos, metem respeito e nos mandam ir a correr ao médico.

Se fosse uma situação normal eu jamais teria esperado um minuto que fosse até ligar para a minha mãe, no entanto, eu tinha a viagem para a Alemanha daí a um dia e achei que o melhor era guardar o segredo comigo. A verdade é que sendo o nódulo benigno ou maligno, não fazia sentido eu perder aqueles 8 dias só para mim, tão merecidos, porque nada iria mudar. Ele estava ali, eu sabia agora da presença dele e restava-me encarar a realidade sem deixar a minha família em agonia durante tanto tempo.
Nessa noite dormi muito pouco, aliás eram sete e meia da manhã quando fechei os olhos. Fiz uma enorme meditação sobre tudo, acabei de fazer as malas e concentrei-me em tudo que de melhor tenho na vida.

No dia seguinte fui almoçar com um amigo, ele estava absolutamente longe de imaginar o que me ia pela cabeça, sabia apenas que ao outro dia eu ia viajar. Ele faz parte do clube que não acha piada ao que escrevinho e estávamos a falar nisso quando ele me disse:

-Não é por mal sabes, mas irrita-me a tua forma positiva de encarar a vida. És demasiado optimista. 

Eu sorri, a olhar para a cerveja que tinha em frente, peguei nela, dei um gole como quem tem bastante sede e respondi-lhe:

-Não é por mal sabes, mas é demasiado bom poder sentir-me viva, só gostava que os outros pudessem sentir-se assim também.

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Quando voltei de Berlim, depois de uma viagem intensamente introspectiva, com muita maluquice, festa, tempo para estar sozinha, depois de muita meditação e tempo para organizar todos os pensamentos que me passavam pela cabeça, mostrei à minha mãe o nódulo já sabendo que lhe iria tirar o sono essa noite.
Por milagre, a médica que só vem uma vez por mês a Resende estava cá no dia seguinte e viu-me.  Felizmente foi mais um susto, o nódulo é benigno e tem apenas de ser vigiado. 

Quando saímos do hospital de mãos dadas, as duas, como naquela tarde em que fomos para o Hospital de S.João, estávamos em silêncio com um grande sorriso de alívio.
A minha mãe apertou-me a mão com mais força e disse :
– Naná, é mesmo bom sentirmos o vento na cara outra vez, não é?

Mais sorte que juízo

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Hamburgo – Dia 1 e 2

Quando comprei o bilhete para esta viagem, estava acampada no pseudo escritório de minha casa, com um lindo casal de brasileiros a passar o fim-de-semana no meu quarto, através do Airbnb.
Sentia-me presa, cansada. Bem, na verdade, exausta é a melhor palavra.
Soa a cliche, mas as viagens fazem-me bem, fazem-me sentir viva, seja pelo bem ou pelo mal, embora por algum motivo especial, o universo tenda a que seja sempre pelos melhores motivos.
Ontem meti-me no avião para uma viagem de oito dias, dois em Hamburgo e seis em Berlim. Viajar sozinha é, para mim, das melhores opções para quem quer sentir o que é a liberdade em pleno. Pelo menos parece-me a possibilidade mais próxima de a atingir. Não há nada que se assemelhe a chegar a um país com língua e culturas diferentes, só de mala na mão e com um friozinho na barriga por não fazermos ideia do que vem a seguir.
Meti-me no avião, estava cheio de emigrantes que regressavam a casa depois de uma estadia de longa duração para matar saudades dos seus. Ouvia-se uma mistura engraçada de palavras em português e alemão, soavam a Agosto, ainda que de luvas e cachecol  vestidos.
A primeira vez que viajei sem adultos tinha 14 anos e fui para Cambridge, durante 15 dias, para um curso de verão de inglês. Éramos quatro ganapas, o meu inglês era péssimo e o que me fascinava era a ideia de estarmos sozinhas, ainda que não imaginássemos que íamos mesmo ter a liberdade total de fazer o que bem nos apetecesse.
No meio de imensas histórias e peripécias, conheci o Kiko. Demo-nos especialmente bem, o sentido de humor dele era hilariante, eu acabei por me aproximar imenso mas tudo mudou quando ele declarou a sua paixoneta.
Ora, a última coisa com que eu sabia lidar aos 14 anos era com um rapaz a declarar-se, pelo que o Kiko não podia ter feito coisa pior que demonstrar afecto romantizado por mim.
Com o tempo aprendi a lidar com esse tipo de situações e o Kiko passou a ser um bom amigo, a quem pedi desculpa pela falta de jeito em gerir sentimentos, ainda que só tivesse 14 anos.

Crescer é um processo extraordinário.
De repente vais à farmácia pedir socorro e quem te atende é o Rui, teu amigo de infância com quem jogavas às escondidas, estás na fila do médico e vês o teu primo de bata vestida a falar com doentes, na televisão em directo está o Ruica com quem fazias vídeos estúpidos no Erasmus em Roma e enfim, ainda ontem estava em Cambridge, sem saber como lidar com a paixoneta do Kiko e agora estava a ouvir a hospedeira do avião a anunciar que era esse mesmo Kiko a pilotar o avião que me levava às minhas suplicadas férias.
A viagem podia ter começado melhor? Claro que não.

A meio do voo, caí na tentação de comprar uma raspadinha da Ryanair. Óbvio que não me saiu nada, mas valeu pelo facto de fazer com que a senhora que estava ao meu lado começasse a falar comigo. Ela nunca tinha jogado e tentou ali a sorte dela, também não lhe saiu nada.
Era professora universitária, especializada nas matérias das nossas complicadas cabeças e a viagem passou sem nos darmos conta, sendo que ela tinha as melhores respostas para as minhas mais que muitas perguntas. Nasceu em África, os caracóis dela impunham-se sobre os olhos esverdeados e sobre o sorriso de orelha a orelha.
Às tantas um Holandês enorme, careca, alegadamente alcoolizado, começou uma enorme confusão, quis bater (chegando a bater) num rapaz novo, e às tantas já queria agredir toda gente que aparecesse à frente. A tripulação do avião com a maior classe e profissionalismo lidou com todo aquele stress até à chegada da polícia, assim que aterrámos.

Estava à espera da minha companheira de viagem para me despedir dela, já que me esperava cerca de uma hora de viagem em metros e autocarros até ao Hostel onde ia ficar hospedada, quando ela chega e me oferece a boleia do amigo que a ia buscar ao Aeroporto.

Eu sei que é mesmo puxado lidar com tudo o que a vida nos traz, mas há uma magia e uma ligação entre nós humanos que realmente não tem tradução.
Eis que saímos da zona das chegadas e ali está ele: um homem lindo, Persa, alto de casaco comprido a condizer com a cor da barba cinza, de rosa vermelha na mão à espera daquele que, passo a saber minutos depois, foi o seu primeiro amor, amor esse que já não via há 23 anos e que conseguiu reencontrar graças ao facebook de um familiar.
Pronto e ali estou eu, parada, petrificada vá, a assistir a um reencontro digno de ecrã de cinema, com uma intensidade capaz de tirar a respiração até aos mais resistentes, com energia e amor suficiente para que no meio daquilo tudo, por acaso, ainda me ofereçam boleia até à porta do hostel, mesmo sabendo que fica a uma valente pedaço do aeroporto e da rota que iam seguir.

Cheguei ao Instant Sleep Backpackers Hostel (onde paguei 23€ por duas noites), ainda meia atarantada com o que tinha acabado de acontecer e com as histórias e fotografias que me tinham acabado de mostrar durante a viagem, e fiz check in.
O ambiente estava super calmo, fui guardar as coisas, fazer a cama e  descer à rua para comprar cerveja e jantar. Fui a um restaurante asiático, onde ninguém falava inglês e cujo  menu estava todo em Alemão. Uau. Estava um pouco tramada, não fosse a filha mais nova da dona do restaurante chegar e arranhar algumas palavras em inglês, suficiente para me arranjar uma bela refeição sem carne por 5 euros.
Quando cheguei ao hostel ouvi um brasileiro dizer que não estava a achar grande piada ao Porto, porque era demasiado provinciano e ele vinha de São Paulo, ora está claro que pediu a minha intervenção. Ele conversava com um rapaz de Guimarães, que vim a descobrir ser espetacular e que, por acaso, veio no mesmo avião que eu, sem a sorte de ter boleia directa para o hostel, mas com direito a vista privilegiada para a confusão do avião, com a oferta um murro no braço incluída.

Às tantas já estávamos todos a beber cerveja na varanda, a curtir os dois graus negativos e a perceber que estava gente de todas as partes do mundo naquele cantinho de Altona North.
Entre eles estava o Mango, um sueco que quer ir viver para uma aldeia no norte de Portugal e criar a sua própria quinta, talvez a pessoa com a melhor capacidade de unir pessoas que já conheci em toda a minha vida.

Porque o mundo é lindo, conheci um Colombiano que tem contactos na selva amazónica e me vai poder proporcionar a estadia com tribos de indígenas específicas incluídas na investigação da minha tese de mestrado, a minha mãe repete constantemente que tenho mais sorte que juízo e eu não posso negar, não é?
Depois de irmos renovar a quantidade de cerveja disponível, descobrindo que no meio de centenas de qualidades diferentes de cerveja lá para o meio da loja de conveniência estava a autêntica Super Bock, a conversa passou por vários estágios e o último deles foi a história sobre pessoas que alegadamente fazem sexo com patos (?) e sobre golfinhos que já violaram humanos depois de snifarem um químico que um determinado peixe liberta (?).
A noite terminou com um dos Colombianos a proporcionar aulas de salsa e a dar alto espetáculo com uma Californiana bailarina profissional que apanhou os truques todos em segundos, os Brasileiros a contarem a viagem pela Europa em 27 dias e mais umas quantas conversas cujos temas se tornaram um bocado suspeitos.

Hoje de manhã acordei e estava tudo branco. Achei por bem ir visitar a irmã do meu avô, que está em Hamburgo há mais de 40 anos, com o marido, e que não estão habituados a receber muitas visitas de Portugal por cá.
Senti que estava mais que nunca ligada ao meu avô, que se despediu de mim há já tanto tempo, com todo o amor que as mãos da minha tia me transmitiam sempre que me apertavam enquanto esboçava um sorriso demasiado doce para ser descrito num blog sobre viagens de um joelho esfolado.
Levaram-me a almoçar a um restaurante Português, do senhor Celso, onde matei as saudades do que é um verdadeiro bife de atum e, depois, fui passear de braço dado com a minha tia, pelas ruas bonitas do centro de Hamburgo.
Uma senhora amiga deles deu-me boleia para o hostel, depois de me contarem as aventuras e desventuras de quem deixou tudo para trás à procura de uma vida melhor .há décadas atrás, e onde a promessa de voltar é assunto diário de planeamento familiar.

Não é incrível como podemos sentir-nos em casa, mesmo estando num sítio onde não percebemos patavina do que nos dizem, do que as tabuletas têm escrito, do que os sinais da rua indicam?

Está a nevar outra vez.
Tenho mais sorte que juízo mãe, tens toda a razão.
Como sempre.

 

Olá Lisboa, outra vez

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Estas semanas tenho recebido uma imensa quantidade de demonstrações de amor por parte dos meus amigos e conhecidos, desde telefonemas a mails e conversas em cafés, recebi uma imensa quantidade de links, propostas, endereços e projectos pra me candidatar pra que pudesse encontrar emprego. As redes sociais são mesmo um mundo e eu estou eternamente grata a todos pelo carinho
Agora estou à espera que alguém me dê um beliscão dos grandes e me diga para acordar.
Eu queria muito que 2017 começasse a partir tudo, não contava era que fosse logo na primeira semana do ano.

Parece que vou ter que voltar para Lisboa, mudar as tralhas outra vez todas comigo, parece que vou poder dar uso ao teclado e aproveitar com tudo a primeira grande oportunidade que me dão de fazer jornalismo no meu país, mesmo quando eu já tinha quase perdido a esperança que alguém ma desse.
É oficial amigos

Um 2016 confuso

 

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Photo: Diana Tinoco
Isto não é um post como os que costumo fazer, mas sim alguns factos sobre o meu ano de 2016 que para uns serão um aborrecimento sem fim de ler (sorry!) para outros talvez a oportunidade de fazer chegar um bocadinho deste sentir que cá vai dentro.
Um sentir bom.
As minhas partilhas fazem confusão a muita gente, mas eu acho que é quando partilhamos que nos ajudamos verdadeiramente uns aos outros. E eu não tenho nada a esconder.
2016 é um ano sinistro para mim, mas quando acho que não pode atrever-se a mais… eis alguns factos que não poderia deixar de notar:
-Em Janeiro de 2016, Ainda na minha odisseia em Lisboa, fui convidada para fazer parte da equipa principal da tal startup que já estão fartos de ouvir falar, Owlascend, com base em Los Angeles
-Em setembro de 2016, la vou eu para os ditos States a pensar que é para ficar por uns tempos, será desta estabilidade? Será desta?trolololololol, respondeu ela.
-Vamos a uma porção de eventos e pitchings e somos aconselhados a continuar o projecto mas que em troca de financiamento deveríamos fazer alterações de Branding . Ok tudo certo até ai, sempre defendi que era preciso mudar a comunicação do projecto.
– O fundador do projecto numa reunião intensiva de brainstorming lança o nome Umazed, a explicação fez todo sentido a toda a equipa e qualquer pessoa consegue perceber a ideia de nós próprios sermos um labirinto, de estarmos constantemente perdidos naquilo que somos no final das contas e no que queremos, afinal,tirar disto tudo. Juntou-se ainda o contributo, soube mais tarde, da palavra que mais repito em Inglês ser ”amazing”, assim como em português é a palavra ”incrível”, motivo de gozo óbvio, mas que eu juro que tento controlar mas pronto, não deu ainda. Eis que de tanto amazing amazing, amazed, Umazed lá veio à luz.
-No processo empresarial uma das pessoas que conquistámos para a nossa equipa de liderança começou a tratar-me por AI, iniciais do meu nome, mas também da tecnologia da nossa aplicação, chegando o pedido lá de cima que num futuro próximo eu fosse considerando essa forma de me apresentar no projecto como hipótese. Ri-me, mas porque não?
– Voltei de Los Angeles para onde é suposto regressar no final desta maré de burocracias e mundos que não compreendo ainda muito bem e eis que dou por mim a começar de novo, ainda que não seja do zero.
-Resende. Passados tantos anos desde que sai de casa. Não ia dar para muito tempo.
-Alugo uma casa na baixa do Porto como sempre quis, trabalho em dois restaurantes em todos os turnos possíveis até conseguir um horário diurno, enquanto trabalhava para os USA e para uma empresa de transcrição de entrevistas.
-Apaixono-me como já não acontecia há muito muito tempo, a história como todas começa lindamente e chega rapidamente a hora de ter um fim. De alguma forma a nossa geração assume que de um dia para o outro podemos passar de ”O mundo” a um ‘estranho’ como quem pisca os olhos. Mas eu ainda não me habituei muito bem a isso, fica para 2017.
-Estou outra vez sozinha, como há alguns anos aprendi a adorar estar, e dou por mim exausta e sem dinheiro para manter a tão desejada independência dos meus pais que quero assumir de nariz empinado.Dou por mim a dispensar do meu canto só meu, e a dormir numa espécie de despensa, à qual quero muito chamar escritório, para ajudar a ter dinheiro para as despesas, enquanto pessoas lindas e felizes dormem no meu quarto fofo.
-Despeço-me ao final de dois meses de trabalho no restaurante e eis uma nova jornada de currículos e cursos online, enquanto não faço ideia do que ando para aqui a fazer.
-Hoje, depois de seis horas no hospital com uma crise de coluna absurda, que mais cedo ou mais tarde há de ser operada em condições, a dois dias de acabar o ano acabo a última das duas séries que vi nestas últimas semanas: OA e Westworld.
Westworld que se centra na busca incessante de respostas a um “maze”, labirinto, de consciência e humanidade. OA uma série com uma cinematografia linda mas com um argumento um bocado nhe. A miúda assume uma consciência diferente do normal e passa a auto apresentar-se como OA. ( ambas descrições fracas mas evitando spoilers)
– Sendo que ambas as séries tiveram os seus primeiros episódios lançados depois da minha estadia em LA só posso ver tudo isto com um grande sorriso na cara, com as coincidências e piadas desta aleatoriedade que só a nossa existência nos permite desfrutar.
-Tal como nas duas séries, o meu ano foi de uma confusão absurda, lições em forma de peças de puzzle incompleto, revelando-se no fim uma verdadeira oportunidade de auto conhecimento e amor próprio.
Este 2016 foi uma montanha russa.
Nas montanhas russas o subir é descansado, excitante e doloroso, toda gente sente aquele frio na barriga porque ainda não caiu, mas sabe sempre que é uma hipótese quase certa algures. Já o descer é fodido, é cheio de adrenalina, é querer sobreviver e agarrar com a força toda o cinto de segurança. É gritar, rir, chorar por socorro e ninguém nos sentir, porque apesar de ouvirem e perceberem,também estão todos a meio das suas jornadas.
Mas aí vem o momento em que percebemos o verdadeiro prazer escondido de uma montanha russa: O prazer de levantar os braços, cagar na segurança, porque na verdade pouco há a perder, e aproveitar ao máximo a descida, com todas as emoções e ensinamentos que ela nos proporciona.
Servi no restaurante muitos dos meus colegas de faculdade que me orgulhei de ver saírem bem vestidos dos seus empregos para almoçarem no mesmo espaço em que eu trabalhava, servi imensos casais apaixonados a desfrutarem das suas empáticas conversas cheios de alegria e amor, assim como limpei as sanitas onde foram dispensar o almoço acabado de pagar, e nunca na minha cabeça me passou a ideia de os invejar ou de desdenhar do valor dos seus percursos. A essência de sermos humanos é o amor e é isso que nos mantém vivos, não há porque não nos permitirmos amar os que nos rodeiam, mesmo que não os conheçamos.
Normalmente, já devíamos saber, depois de uma grande descida há de aparecer outra subida e, se não aparecer, que se lixe amigos, isto um dia acaba tudo, que acabe de braços no ar e a sensação de consciência tranquila.
Sejam muito felizes, hei de ficar sempre feliz por vocês.
Um corajoso e arejado 2017 a todos ❤️
Amem-se muito, a vocês e entre vocês.

Irmã mais nova que é mais velha

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Quando me perguntam se a minha irmã é mais nova, eu respondo que sim acrescentando a informação que apesar disso, é ela a mais velha. Algumas pessoas ficam com um ar estranho e não percebem muito bem como é que uma irmã que nasceu depois da outra pode, afinal, ceder dos seus direitos de inconsciência e leviandade.
Mas a natureza é engraçada e apesar de ela ser o único ser humano feito do mesmo que eu, apesar de termos sido criadas com exatamente a mesma educação, a mesma quantidade de mimos e o mesmo tipo de oportunidades, o resultado são duas personalidades absolutamente diferentes, mas absurdamente complementares.


Eu sou das letras e ela é dos números, eu sou a pé rapado, ela é a multiplicadora de poupanças, ela é o planeamento, a estabilidade a coerência, é prudente, inteligente e sabe defender-se. A ela e a mim. Eu olho para ela e vejo uma segunda mãe com mistura de pai, mas há uma força feminina, um espírito de irmandade, que até hoje só com mulheres fortes e fascinantes fui capaz de sentir. Quando estamos as três, é esse estado pleno, mas sempre. Elas fazem o mesmo tipo de olhar antes de me verem esmurrar contra uma parede, sabem precisamente quando estou a precisar de um telefonema e parece que pressentem todos os meus delírios. O tom de voz não precisa ser elevado porque o peso das palavras sabiamente escolhidas é que vão causar estragos.


É claro que esta minha desvairice e forma de dançar com a vida as preocupa, mas sei que me amam por ser assim também.
A questão aqui é que eu sou apenas uma miúda cheia de sorte, porque se a aleatoriedade não me tivesse feito cair no seio de uma família assim, eu estaria longe de me atrever a ser como sou, para o bem e para o mal.


Isto é só um devaneio mimalho, mas o que eu queria mesmo partilhar com o mundo, é que não sei quantas irmãs mais velhas se dão ao luxo de fazer a mochila e fugir para o colo da irmã mais nova quando lhes partem o coração ou apanham uma valente gripe.
Sei é que eu sou uma delas neste preciso momento, deitada no sofá da casa dela, embrulhada em mantas e cobertores, enquanto ela me faz festinhas e me conta a vida dela. E eu sorrio aqui por dentro, porque gosto de analisar e pensar em tudo ao mesmo tempo e dou por mim a chegar sempre à mesma conclusão:
Se isto não é Natal, então não sei o que é.

Leep

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Tenho sempre uma cambada de avisos de pessoas mais racionais que eu: tem cuidado Balolas, não te magoes outra vez.
Os constantes avisos soam sempre a uma música que a minha mãe me cantava quando era criança, sobre uma miúda que andava a brincar no jardim e a quem a mãe avisou que se ia magoar. A miúda acabou de joelhos esfolados e lágrimas nos olhos, claro, porque preferiu brincar.
Eu gosto de levar a vida a brincar, gosto de beijar os rostos que a vida me põe no caminho cheios de amor. Gosto de evitar pensar no amanhã porque o bom é o agora, é agora que a pulsação está a contar.


Ninguém me pediu autorização para me mandar vir ao mundo, quando dei conta já estava cá, com um coração cheio de amor para dar e uma bússola bastante desnorteada. Entro em rota de colisão com pessoas absolutamente inacreditáveis, como é suposto desviar-me? Não é.Nem quero. Nem posso.
O Joe é do outro lado do mundo, colidimos sem contar e agora está na hora de o deixar voar. Somos uma geração de passarinhos, embora doa, sou uma felizarda por ter a oportunidade de amar assim.


Foi inevitável portanto, mais uma vez, ficar-me de joelhos esfolados.

Se por aí não nascessem poetas

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Los Angeles, 2 de Outubro de 2016

Hoje conheci uma senhora com 60 e tal anos que nunca se apaixonou. É casada, tem filhos, é daquelas pessoas cheias de luz, que só de olhar já nos abraçam.
Quando era adolescente, os pais arranjaram-lhe o casamento, nunca ninguém quis saber a sua opinião, como é de esperar nos casamentos negociados.
Nunca me tinha cruzado com ninguém cuja liberdade emocional lhe tivesse sido tirada, muito menos em miúda. Fiquei paralisada.
É claro que todos temos a noção que existiam e existem, ainda em várias partes do mundo, garotas que são obrigadas a casar com quem não escolheram, mas diferente é termos à nossa frente, de carne a osso, alguém a falar do assunto em primeira mão com um sorriso ingénuo, olhos brilhantes e voz séria.


Enquanto caminhávamos, como me apercebi que estava disposta a falar do assunto, fui fazendo mais perguntas.
Com uma vida atribulada, crescida no médio oriente, numa família pobre, o amor e a paixão não faziam parte dos planos mais urgentes. Eu, crescida no meio de tanto amor e tão embrenhada na minha forma de encarar as paixões ao longo dos anos, nunca tinha parado para pensar no amor como um privilégio.
– Então mas nunca se apaixonou, nem por fora do casamento?
– Não, dediquei todo o meu amor aos meus filhos, esse é o amor mais puro que se pode sentir por alguém.
-Não consigo mesmo imaginar a minha vida sem me apaixonar. Por muita dor que venha a seguir, é um sensação alucinante. Como uma droga.
-Eu sei, eu sei!!! É tão mágico.
-Mas deixe-me perguntar-lhe: se nunca se apaixonou, como é que sabe?
-Pelos livros, ora. Eu já vivi os maiores dos amores, os meus preferidos são os do Tolstoi.

Congelei.
Ela continuou

-Os livros trouxeram-me as paixões mais fortes e arrebatadoras. Vivi-as a todas como se fossem minhas. Eram minhas, enquanto as lia. São todas minhas. E tenho-as na minha memória como minhas. Sofri amargamente com os finais de algumas personagens.
-Não sei o que dizer, não imagina a importância que os livros têm na minha vida, estou sem reacção.
– E a poesia? Querida, a poesia já me levou muito longe.
– A poesia vem do céu, não acha?
-Querida Balolas, a vida é dor, luta, sobrevivência. O que é o amor? É cuidar, respeitar, é entregar e dar sem limites. Eu fico feliz por saber que tantas pessoas sabem o que é o amor, mas será que sabem? Eu sei amar os meus filhos, mas o amor romântico não foi para mim. Não estava escrito ser. Mas houve quem escrevesse o amor para mim. Amei e amo muito nos livros, oh dear! Os livros!

Embora me seja super difícil chorar, foi impossível não ficar com os olhos banhados em sal, enquanto me sentia completamente desarmada por aquelas palavras. Ao ver-me assim, fez-me uma festinha no rosto e fez xeque-mate.

-Balolas querida se este mundo é doente assim, não vamos querer imaginar o que seria de nós se volta e meia por aí não nascessem poetas.

Isto já ninguém me tira

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Uma das coisas que mais me custou a habituar, a mim e ao meu lado mais pacifista e diplomático, ao longo dos anos, foi ao facto de que realmente é impossível agradar a toda gente.

Há uma beleza intrínseca à incompreensão, talvez por isso eu tenha sempre achado um especial encanto a pessoas com feitios mais complicados, aos ditos estranhos, ao fora da norma.

As minhas publicações na internet sempre meteram confusão a muita gente.

“- Expões-te muito”, sempre me disseram. Como o meu sonho sempre foi o de escrever, seja a minha escrita o mais banal possível ou não, eu sempre soube, sem nunca me enganar, distinguir o que podia ou não ser público. As redes sociais fazem parte do meu trabalho, da minha forma de estar e é a minha forma de chegar às pessoas, de contar histórias, de partilhar conteúdo. Uma vez um amigo meu disse que se calhar o meu problema era que eu assustava os homens, por ter sempre algo a dizer sobre tudo. Ora bem, eu na altura ri-me alto, mas depois fiquei a pensar no assunto. Eu não tenho propriamente um historial de finais felizes, pelo contrário, mas por muito apaixonada que eu algum dia possa vir a estar, deixar de escrever, falar ou opinar sobre o que for, com medo de assustar, intimidar ou afastar a pessoa por quem estou interessada, não está de todo em cima da mesa. Respeito perfeitamente quem possa não gostar de estar com alguém que se partilhe tanto, mas também não é isso que me preocupa.
Isto, claro está, para explicar, que há para mim uma beleza extraordinária no conhecimento, sou viciada em informação desde que me conheço, vendo-me por isso automaticamente empenhada em partilhar com o conhecido e o desconhecido, tudo aquilo que possa transmitir alguma emoção ou (pelo menos tentativa de) intelecto.
Eu cresci a amar o prazer da leitura, sonhando um dia poder chegar às pessoas como aquelas almas chegaram a mim, ainda que esteja longe de me querer equiparar aos mestres das letras que me ajudaram a crescer. E é por isso que tenho tanto gozo e prazer em vos contar as minhas voltas, os meus desaires, os meus trambolhões, a minha normalidade, a minha forma de ver este mundo onde vim parar sem pedir a ninguém.
Foi precisamente esta minha presença no mundo digital, o facto de eu partilhar em tantas plataformas a minha visão do mundo, o meu trabalho, os meus textos, que fez com que o Donavon, agora meu colega e “cofounder”, me conhecesse e mais tarde me convidasse para este projecto.
É fácil culparmos a sorte pelas nossas venturas e o azar pelas desventuras, o difícil é aceitarmos que há um preço a pagar em tudo na vida, um risco a ser tomado nas decisões que tomamos.
Na minha profissão e naquilo que eu mais amo fazer, o silêncio e o anonimato não me levarão a lado nenhum e eu não tenho vergonha de dizer que quero voar, nem que isso signifique esmurrar-me toda pelo caminho, nas imensas tentativas de subir os degraus sem nunca ir contra os meus valores e princípios.
Uma vez uma pessoa não gostou que eu dissesse que preferia lavar casas de banho o resto da vida a aceitar um “favor” de ir trabalhar para um sítio de renome cujos valores são opostos aos que eu defendo. Mas eu preferia, sem qualquer dúvida, e por isso nunca tive qualquer problema em trabalhar em tudo e mais alguma coisa. O meu maior problema, o que realmente me assusta, é estar parada.
A Owlascend (agora Umazed), a Califórnia, Los Angeles, isto tudo poderá até correr mal, pode até vir a acabar cedo, o que de todo não me parece, mas ei, e daí? Pelo menos isto, o agora, esta perna cruzada num baloiço de um terraço no meio de Los Angeles, este exato momento, depois de um dia numa convenção com centenas de outras empresas, depois de conhecer tanta gente cheia de ideias, este ar quente e esta paz de espírito no fim deste dia com a sensação de missão cumprida,
Isto, isto já ninguém me tira. E acreditem é-me tudo muito mais bonito, mais meu, mais intenso, quando sei que o posso partilhar convosco.

Los Feliz (english)

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22nd September 2016

Where should I start?

First of all, I’m writing eight hours later than I expected. I feel like I’m late in responding to all your messages, and the good morning phone calls of my parents are a little uncoordinated because of the time zone change.

It is 28 degrees Celsius outside, and around eighty percent of humidity, so that it makes sense that everyone goes around with such few clothes on. On the roads, you only see big cars, smoked glasses, and some limos here and there.

After leaving home, within five minutes, I saw an actor crossing the street. I don’t remember his name, but he is in a really funny TV series, he wears glasses, and he has some real tall. It seems that it is a normal thing to see famous people around here, because the house where I am staying at is really close to Hollywood.

People here are super nice and welcoming, and there is a fashion atmosphere mixed with a super relaxed style everywhere.

The traffic here doesn’t scare me at all, the avenues are super wide, the cars drivers know how to behave, and remembering that I’ve already lived in Rome in the recent past, and in comparison to there, the roads in Los Angles are a lot nicer.

There are palm trees everywhere, and the city is surrounded by mountains. There is green grass and trees everywhere, it’s full of beautiful and incredible houses (at least in this area,) and makes me forget the fact that I’m in the middle of a giant city.

Today, we went out to scout for places to shoot some up-coming videos for Owlascend, just some simple videos in order to help the users in understanding the concept of our platform, and I ended up visiting Griffith Park, and so I visited the Griffith Observatory too, and besides it being free, it has a landscape that seems out of this world.

I went to a show there, which was a really beautiful about Space and Viking mythology.

It is super easy to be a vegetarian here because the food in the places I already went to was absolutely awesome, and yes, I’ve already seen some Mac Donald’s restaurants!

This all looks like a dream to me, and there is no doubt about the cultural shock I’m experiencing, even if, at the same time, the USA is so familiar to us, thanks, of course, to the movie industry.

I feel like all my life could be an extraordinary movie, but we all have this feeling sometimes, right?

It seems that they don’t typically have dinner here as we do in Europe, but since I have a Portuguese stomach, let’s get some food now!

The neighborhood’s name where I’m hosted is Los Feliz, believing in coincidences or not, I think it makes total sense