Sobre a luz

Quando estávamos em 2012, lembro-me de estar numa praia na Galiza, com a água pelos joelhos a falar com uma pessoa a quem queria muito bem. Estávamos a mexer na água com os nossos pés, as águas do mar da Galiza são límpidas e deixam-nos ver o reflexo dos nossos corpos. Discutíamos as teorias sobre o fim do mundo que tanta gente apregoava a sete ventos. É curioso como, volta e meia, há sempre uma enorme vontade do ser humano em anunciar um fim. No livro de um dos amores da minha vida, “Intermitências da Morte”, de José Saramago, levanta-se a enorme questão do que é, afinal, feita a essência da vida senão da existência da morte.


Sempre fui fascinada pelo conceito de vida e morte, quando o professor de física e química no oitavo ano nos falou da lei de Lavoiser os meus olhos brilharam. “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Era exatamente assim que eu via o mundo, saber que alguém séculos antes pensou assim inspirou-me para sempre.
Mais tarde, ao ler Saramago, a sensação repetiu-se. A morte sempre me inspirou a viver. O conceito de vida eterna, de imortalidade sempre me pareceu absolutamente aborrecido. Eu não quero viver para sempre, se não houvesse um fim, como haveria eu de sentir tamanha necessidade em absorver tudo o que posso enquanto cá estou? Que seria da saudade, do amor, se não houvesse sempre um medo de nunca mais nos voltarmos a ver, a tocar? No fundo esta forma de ver o mundo é em algo semelhante à vida de uma borboleta, que passa por um processo de metamorfoses e quando finalmente voa, não tarda em morrer. Então vive tudo demasiado bem, com demasiada força. O que é viver se não isso mesmo?

Talvez o ciclo de esperar por um apocalipse se repita porque estamos à procura de assistir a algo magnífico. A morrer que seja no fim dos fins, não é? A presenciar o mais extraordinário cenário da natureza. Mas não é isso que nos está reservado. Ainda nos falta um caminho demasiado longo e conturbado. O ser humano ainda é uma larva em metamorfose.

Enquanto mexíamos na água eu partilhava com a pessoa que estava ao meu lado que não acreditava num final assim, que via tudo isto como o fim de um ciclo, como descreviam as civilizações antigas, mais especificamente a dos Maias. Eu não sou especialista, sou só alguém que perde muito tempo a pensar e a desenhar possíveis cenários. Tive a sensação que, mais uma vez, o filtro de uma sociedade sem espiritualidade – atenção que não me refiro a qualquer religiosidade – mas à forma mais livre de ser, não deixou que interpretássemos como deve ser as profecias dos nossos ancestrais.
Eles falavam na mudança de uma era, o final das trevas, um despertar de consciência e eu estava em crer que sim, isso faria finalmente sentido.

A minha vida mudou muito desde esse ano. De alguma forma, garanto sem qualquer dúvida que eu mesmo acordei. Depois de passar pelos anos mais dilacerantes e perturbadores de toda a minha vida, em que bati muito além do fundo do poço, eu senti, finalmente, um renascer.
Eu fui o casulo, a larva que enoja tanta gente, fui a dor de corpo e alma, até que voei, muitas das coisas que eu via, acreditava e sentia deixaram de ser comparáveis ao que a minha mente e personalidade se tornaram depois do trauma. No fundo o nascer da fénix depois das cinzas.

Apercebi-me não só da minha paz e da luz que senti dentro de mim estes últimos anos da minha vida, mas sobretudo da dos outros. Eu escrevo e hei de continuar a escrever porque a minha vida, apesar de simples e só porque eu me deixo levar por ela, dá-me oportunidades de ver, sentir e conhecer dimensões extraordinárias da humanidade.

Quando tenho este tipo de conversa perto de pessoas mais céticas, mais terrenas, presas a um raciocínio de segurança, que eu respeito, compreendo e aceito de coração, sou sempre vista e sentida como uma alucinada. Eu sorrio, abro o peito à partilha do que melhor tenho cá dentro, o amor. Não há nada desta vida em que eu não me esforce por responder com amor. E assim tento explicar que, se Lavoisier estava certo, se há teorias que nos explicam que todo o universo nasceu de uma explosão de matéria que nem sequer existia antes, nós mesmos somos feitos dessa matéria.
A lua influencia as marés, os nossos antigos, antes de serem invadidos por ondas de colonialismo e destruição, andavam de mãos dadas com a terra e o céu. Admiravam a sabedoria dos astros, previam colheitas boas através dos pontos que viam no céu.
Se a Lua que é lua pode influenciar a vida na terra, se toda a vida na terra é energia e matéria, porque raio eu como filha desta unidade não haveria de receber influências dela?

Normalmente pergunto o signo às pessoas e a menos que sejam dos signos mais abertos e sensíveis, a pergunta é sempre a mesma: “Não me digas que acreditas nessas coisas”. Eu sorrio. Quando nascemos, naquele único e exato momento, todo o universo vivia. Os planetas giravam e estavam numa determinada posição quando vi a luz do dia e berrei pela primeira vez. Se tenho certezas? Nenhumas. De nada. Mas porque não pôr a hipótese de que, se calhar, somos muito menos e muito mais do que nos imaginamos? Eu sou apaixonada pela minha insignificância, pelo quão volátil, substituíveis, pelo desprezo com que simplesmente a nossa existência pode acabar, num ápice.
O que está à nossa volta é tão maior que nós. Nos últimos séculos o homem conseguiu evoluir tecnologicamente, inventámos curas de doenças, construímos obras de arte com as nossas próprias mãos, desenhámos máquinas para tudo, mas as perguntas continuam as mesmas. Fazemos as mesmas perguntas que os filósofos da Grécia Antiga faziam, identificamo-nos com personalidades e formas de ver de gente que já não passa de pó.

Porque não importa o quão grande conseguimos construir um prédio, seremos sempre pontos mínimos neste enorme cenário.
Há uma semana, numa reportagem para o jornal em que trabalho, sobre pescadores ilegais, eu falava com dois homens, em pé. Estava a tentar conquistar-lhes a confiança quando vejo um senhor magrinho, de cabelo branco, comprido, apanhado num rabo de cavalo a observar-me.

Dirigi-me a ele.
– Também é pescador?

– Não sou não senhora. Qual é o seu signo?

Achei fascinante como é que naquele cenário alguém que me responde pela primeira vez se sai logo com esta pergunta.

– Sou peixes.

-Eu sei. Também eu sou. A menina tem a bondade toda nos olhos. Os peixes são todos assim, olhe que eu sei muito sobre estrelas.
Ao ouvir isto, sentei-me ao lado dele e perguntei.
-E o que é que elas lhe dizem sobre este mundo maluco?

– Acha o mundo maluco, sente-se perdida?

-Até sinto. Mas cada vez menos, tenho conhecido muita gente diferente que me dá alento.

Ao olharmos para as águas do rio, cheia de gente que se movia para buscar do que viver, suspirou e respondeu-me:

  – Pois é e sabe porquê? Está tudo a mudar menina. São novos tempos, hora de acordar. Sabe o que diziam os antigos? Aproximam-se momentos de luz.

A galope

De todo o passado foste o único fragmento de tempo que me apagou da história. Apagar uma mensagem que não gostei de ler não significa que me esqueça que a li, mas também não me faz acreditar que dói menos. Mas eu respeito, como tento respeitar tudo o que não entendo.

Ao longo dos anos fui aprendendo a aceitar o meu passado, os eu’s de quem não me orgulho, as vicissitudes que uma alma inconsequente me foi dando enquanto me moldava ao tempo e ao espaço que nasci para ser.
Cresci com um calor imenso no corpo. Começa no peito e sinto-o espalhar-se por cada veia, emergir por cada poro. É um calor que nem sempre é cómodo, por vezes queima, sufoca. Quero sempre viver tudo como se não me permitisse respirar e parar para absorver todas as partículas de ar fresco que cada experiência nova me dá. Mas eu sou mesmo assim, não me posso negar.

Como aprendi a respeitar o meu passado e, sobretudo, a aceitá-lo, não guardo mágoas de ninguém, nem mesmo de ti.

É engraçado que desde pequenina eu sonhava que galopava um cavalo selvagem, numas montanhas acidentadas, estava sempre com medo, a olhar para trás. O sonho que se repetiu durante anos, acontecia sempre no meio de muitas batalhas. Eu estava sempre a combater junto dos locais contra invasores e morria sempre com uma facada, um tiro, uma machadada nas costas. Sempre, sempre, sem excepção. Durante mais de vinte anos acordei a transpirar com a sensação de negligência, por nunca chegar a perceber quem é que me matava. Como é que me podia distrair daquela forma e deixar que me destruíssem da forma mais vil de todas? O sonho que se seguia quando voltava a adormecer, porém, era sempre de alívio. Do tormento padecia a paz e eis que dormia sossegada a partir de então.

No dia em que te conheci, sonhei que estava numa praia, havia uma casa enorme onde estavam todos os meus amigos e família. A casa começava a arder e todas as minhas pessoas entravam num estado de loucura e emergência desesperada. Eu, calmamente, caminhava entre as pessoas e dizia-lhes: “Não tenham medo, isto é o meu sonho, não é real. Posso fazer chover”.

E vai daí que várias gotas espessas começaram a cair, mas a casa ardia na mesma. Eu não estava preocupada, habituei-me às maravilhas dos sonhos lúcidos e à confusão de guardar memórias deles, baralhando-me várias vezes com o que já terá sido, ou não, real. Faz parte da vida dos que sonham muito, habituarem-se ao limbo e à rendição à fantasia.

Lá no meio da confusão, a caminhar à beira mar aparecias, com o ar mais calmo e natural do mundo. Quando finalmente chegavas ao meu lado, envolvias-me num abraço e o incêndio da casa desaparecia num ápice, como se nunca tivesse lá estado.
Quando estive, há pouco tempo, numa situação de trabalho que me fez ver casas, carros e sonhos queimados, lembrei-me várias vezes deste sonho e da agonia que será não termos quem nos abrace em momentos de sufoco, quando a vida grita por socorro mas ninguém nos ouve. É quando sentimos a dor verdadeira da condição humana, não é? Quando nos vemos ou imaginamos sozinhos no meio do caos, do delírio, da morte. Afinal das contas, ninguém vai connosco na hora de partir. Não há abraços que nos valham, a alma não resiste, nem mesmo ao toque.

E eu há seis anos era uma miúda, impressionada por uma casa que continuava a arder, mesmo num sonho lúcido, mesmo quando fazia chover e que só parava quando me guardavas nos braços. Há seis anos era uma menina. Um casulo de uma larva em resguardo para o que a vida me guardava. Só soube o que era viver quando me dilaceraste em pedaços, como só a traição do amor nos faz sentir, e nunca mais sonhei com facadas nas costas. Nunca mais morri em sonhos, nunca mais casas arderam na minha noite. Os meus sonhos foram durante anos contigo, até que desapareceste e me deste a paz que eu mereço. A ironia dos símbolos e da arte da mente são de arrepiar. Explorarmos a massa cinzenta dá trabalho mas faz-nos chegar ao ponto da montanha em que o nevoeiro ficou para trás, lá bem em baixo. Vemos as cores reais de que somos feitos e não há amor que nos valha, a verdade é crua e não tem de ser apreciada. Ela não quer saber.

Há seis anos, neste mesmo dia, cruzávamos as linhas onde as sinas são registadas, segurávamos as palmas das mãos como se corrêssemos o risco de cair daquela fusão de corpos e emoções. Como se houvesse mãos que nos salvassem.

E o bonito disto é que te deixei ir, sem te esquecer porque não me esqueço de nada ou de alguém, mas sem saudade, sem vontade de te ver, sem qualquer filamento do passado em suspensão.
Deixar ir é um processo que nos tira anos de vida, é deixar uma droga, um vício que nos mente sobre o que era ou não saudável, sobre o que era ou não amor. Mentimo-nos porque nos agarramos a uma nostalgia que nos padece. Acredito que se todos nos permitíssemos perdoar, sentir toda a dor que nos está gravada nas palmas das mãos e nos deixássemos seguir o caminho aceitando que é tempo de deixar ir, todos seríamos menos presos à saudade, ao que podíamos ter sido, aos amores que nos dilaceram o peito.

Eu não fui feita para ficar presa a nada, muito menos a alguém. Eu vim aqui para sentir o calor dos peitos, para os deixar extravasar pelos poros, para contagiar os que me rodeiam, sem que os permita deixar feridas abertas.

Foi por isso que aprendi que a honestidade, o dizer o que me vai na alma, o nunca guardar para mim o que sinto ou penso é o melhor caminho de libertação. Falar com o coração na boca, sem medo da rejeição, sem me guardar aos caminhos da repressão alheia e da vergonha, o simplesmente viver sem temer que me fujam tem sido o caminho mais libertador, mais feliz e o que me tem dado o melhor da vida. Claro que nem sempre é fácil, há tropeções que me deixam marcas. Mas o melhor que aprendi desde que me partiste em pedaços, foi a viver, a respirar. Talvez nunca tivesse aprendido a aproveitar tanto os momentos que a vida me dá, por mais fugazes que sejam, se não tivesses despedaçado todas as certezas que tinha.

Ninguém tem que ficar, a menos que esse seja o seu maior e incontrolável desejo e, enquanto não houver quem se sinta assim, é porque não é para deixar ficar. É para deixar ir.

Nada, mas absolutamente nada tem o sabor da liberdade que tenho em mim hoje. E, deixa-me que te diga que hoje, seis anos depois da primeira vez que fizemos amor, voltei a sonhar com o cavalo selvagem. Montava-o, a galope, numa enorme planície verde, coberta de flores brancas. O cavalo já quase não pousava as patas no solo. Voávamos. E sempre, absolutamente sempre sem  que eu tivesse a preocupação de olhar para trás.

 

Foto: Diana Tinoco

O inferno em Pedrógão Grande

Texto publicado no facebook a 18.06.2016 – Foto Diana Tinoco

Agora que eu e o Sebastião R. Bugalho terminámos o texto que sairá amanhã no Jornal i, e que a Diana Tinoco já reuniu o excelente trabalho fotográfico que realizou desde esta madrugada, posso escrever-vos com mais calma.

Ontem à noite, estava eu num arraial, no Largo da Rosa, na Mouraria, a cheirar a sardinhas assadas e a dançar com a alegria que só os santos trazem a Lisboa, quando o diretor do Jornal me ligou. “Amanhã vais para Pedrógão, ok?”
Ok.
E viemos. Por muito que tivéssemos lido e ouvido tudo que era notícia, nada previa o que iríamos encontrar.
Hoje tive a experiência mais puxada, mas intensa e mais marcante da minha vida. Engasguei-me mil vezes com o fumo, chorámos como desalmados enquanto os olhos nos ardiam, famílias abraçaram-nos em lágrimas como se de alguma forma pudéssemos trazer algum tipo de conforto.
Não tínhamos rede nos telemóveis, não tínhamos internet. Tínhamos só a frustração de querer partilhar com o mundo o que se passava e de não o conseguirmos fazer.
Para não aparecermos nas televisões, fiquei com os joelhos em sangue enquanto tentava gravar declarações do primeiro ministro e trocava olhares e caras de compreensão “I feel you bro” com outros jornalistas de quem sempre fui fã, como quem suplica por uma posição diferente com urgência.
O cheiro a fumo, o surro das nossas caras e preto das nossas unhas amanhã já não estão cá. Mas rostos de quem nos contou o que viveu, esses vão ficar para sempre marcados nas nossas memórias. O companheirismo, o espírito de equipa e a coragem que partilhei hoje com estes meus dois colegas e amigos do coração, esses vou trazer para sempre comigo no peito.

Agora, finalmente, vamos comer alguma coisa e seguir viagem. Amanhã novos colegas virão para cá.
Obrigada de coração a todas as mensagens .

 

Reportagem completa em : https://ionline.sapo.pt/568382?source=social)

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Haveremos de continuar a andar descalços nas ervas e a beijar em parques, a saltar em concertos e a correr nus na praia. Se explodir a maldade, o sangue e o ódio, temos a benção de algures numa rua desta vida termos cruzado olhares, trocado palavras, abraçado a saudade.
No meio do caos do universo há um planeta de sonho em que criaturas de amor se perdem por trocos e, lá no meio, estávamos nós, com a sorte e a dádiva de não estarmos no local errado à hora errada, de não termos nascido onde o sol se põe entre destroços, onde famílias fogem para ser, em cidades que ecoam o desespero . Gratidão é o silêncio, dai que me calo.

Bempostinha

Sou bastante mutável, é o que diz o meu signo. Para quem não liga um chavo aos signos é uma piada, para quem liga é só mais uma das milhões de características que os clubes do Zodíaco têm. Mas eu sou mutável e gosto disso, sinto que nunca me vou cansar de mim, todos os dias posso aprender comigo, como se fosse possível existirem várias minis “mim”s aqui dentro. Admiro tanto quanto me assusto com a mutabilidade das pessoas, das coisas. Mas é um susto bom para quem tem medo do aborrecimento e da monotonia da vida.

Lembro-me de detestar chá, sabia a coisa de adulto, uma água choca cheia de tonalidades em chávenas bonitas. Os adultos nunca me fizeram sentido e o chá era só mais um detalhe que me ultrapassava. Há uns anos, numa noite de inverno, na casa de uma das muitas famílias que já me acolheram cheias de amor, ofereceram-me um chá.

Gosto de dar várias oportunidades à vida, tenho sempre esperança que o desfecho um dia seja bom. E claro que não é preciso ser um génio para adivinhar que isto já me causou muitas nódoas negras na pele e na alma. Mas nessa noite fria aceitei a água escaldada que todos bebiam com cara de quem lhes aquecia mais do que o dia. Aquilo fervia, mas sabia bem, como quase todas as coisas que fervem. Foi um dia bonito esse, o dia em que me apercebi do quanto adorava água choca com cor. Lembro-me de me rir, a chávena nem era assim tão bonita,mas estava-me a aperceber que era possível estar a tornar-me em mais um desses adultos que não fazem muito sentido e são difíceis de entender.

No ano passado, detestei Lisboa. Não a compreendi, olhava para ela com os olhos de quem não via lá muito bem. Tinha frio. A zona em que morava não me fazia sentir em casa, os trabalhos que fazia não me enchiam o peito, as pessoas por muito boas que pudessem ser não me tiravam o ar. Então decidi que Lisboa era o sítio perfeito para ser triste, para me perder, para me massacrar com dores que já nem me lembrava magoarem tanto. Os dias só eram dias quando apanhava comboio para casa, a luz de Lisboa não me dizia olá. Havia uma senhora simpática a trabalhar no café da esquina mas era tudo muito pouco pessoal, faltava-me o jeito bonito das pessoas simples, humildes, que sabem como é difícil mastigar as amarguras da vida com poucos dentes bons.

Fui embora aliviada e pensei que não voltaria tão cedo àquela que é tão desejada pelos que não são de cá, tão difícil de adaptar aos que são do meu Norte querido.
Mas este ano não estou na mesma Lisboa. Estou na rua da Bempostinha, que é um nome por si só bem postinho. Estou numa rua cheia de prédios sem gosto, com marquises de quem não tem muito dinheiro para luxos, onde há cafés podres, velhinhos, cheios de amor. Não estou na zona empresarial, não estou na zona da arquitectura bonita, não me cruzo com senhores de barba feita e pescoço engravatado.

Os meus vizinhos são gentes de todo mundo, de todas as cores, de todo o tipo de dificuldades que só uma vida dura traz. Há amor naqueles paralelos pisados. E é na esquina da minha rua que está o meu sítio preferido da cidade. É minúsculo, é velho, é podre, é lindo.O Frangueiros não tem sequer espaço para mais de quatro mesas. Há pouco mais do que muita cerveja, mas tem o sorriso da Dona Teresa, que é de Chaves e cá está há muitos anos, todos os dias. Quando lá fui viu-me logo o sangue do norte, diz ela que se nota à distância, que bom que é ouvir disto por cá.

Eu nem sou de pequenos almoços fora de casa, mas a Dona Teresa prepara-me tão bem o pão com queijo das minhas manhãs lisboetas, sempre com o mesmo ritmo vagaroso, mas com um carinho de estranhar numa cidade que me doía tanto há um ano atrás. A Dona Teresa dá-me a alegria de um bom dia em família e não há nada que o pague. Todos os dias há personagens diferentes que partilham, em pé, aquele meu pão com queijo, e eu vou lhes conhecendo as palavras, as vozes e as histórias que me trazem com o Correio da Manhã na mão e as tragédias de mais um dia que passou.

À noite a rua está parada, eu chego muito cansada, embora a vizinhança possa ser de desconfiar, já que o Intendente não tem fama de grande espingarda, eu nunca me sinto insegura.
No outro dia, chegava à Bempostinha a pé e já estava a ver um casal de vizinhos meus, lá ao longe. Éramos as únicas três pessoas ao fim do dia na nossa rua. Ele era daqueles magricelas com cara de maus, um piercing de mau gosto na sobrancelha, um cabelo que não precisava daquela massa de gel, um fato de treino digno de um rótulo menos simpático. Ela trazia o cabelo apanhado, um casaco de couro vermelho, um ar exausto, um joelho à mostra. Mesmo quando tentamos eliminar os preconceitos ao máximo, a verdade é que é difícil fugirmos aos clichés de quem vê caras antes de ver corações.

Iam os dois com cara de quem não tem muitos amigos, ele rezingão, voz grossa.
– Ouve lá, o que é que almoçaste hoje?
– Oh pah estou cansada…
-Anda lá, diz-me o que almoçaste.
Pensei logo para mim “mais um bruto”. Mas que raio.
– Bebi um chá e comi um bolo de arroz.
Estavam a entrar no prédio ao lado do meu, passei por eles nesse preciso momento. Ela abria a porta e ele estava encostado à parede das campainhas.
– Isso não pode ser percebes?
-Oh. Já é tarde, deixa-te de coisas.
-Não pode ser. Isto não é vida, tu vais só ver. Agora em casa tu vais ver.
-Vou ver o que pah?

Eu também queria saber o que é que ela ia ter de ver em casa. O tom de voz dele era de quem me dava razão, a imagem dele não ajudava e não é que eu pudesse fazer alguma coisa extremamente especial por ela, mas pelo menos estava lá. Então abrandei, como quem vai ao telemóvel distraído, de mão no bolso, a enrugar a cara como quem teme um estalo na cara. Temi pela resposta dele.

Mas daí que ouvi e parei. De repente, já não me interessava disfarçar o meu ouvido,já não ia em pés de lã. Cá dentro quis que se soubesse que ouvi e ouvi bem. Ouvi e gostei, porque foi inesperado e foi bonito. E as minhas armas caíram e as dela também. Cruzámos os três o olhar e ambas sorrimos ao ouvi-lo dizer:

-Tu vais só ver miúda. Vais chegar a casa, vais para o sofá e eu vou fazer-te uns ovinhos mexidos com fiambre, miúda. Isto não é vida.

Fui de coração cheio para casa, a imaginar os ovos mexidos da mesa dos meus vizinhos e quando cheguei a casa, a Di já lá estava. A Di que é já quase um membro de mim, porque além de irmã de amor, é colega no trabalho e partilhamos a casa mais bonita da cidade, já tinha feito o jantar. Lá comemos, sentámo-nos na sala de canecas quentes na mão e, enquanto bebíamos água choca para adultos que agora amo, perguntou-me:
– Esta casa sabe mesmo a casa, não é?
– É, sabe mesmo. Adoro esta rua e é estranho sentir-me em casa em Lisboa. É bom isto.
– É nossa. E é diferente.
– É… É diferente. Olha… Sabes o que é?
– O que?
-É bempostinha.

Vento na cara

Foto: Joana Jorge

Dois dias antes de viajar para a Alemanha apanhei um grande susto e, pela primeira vez em muito tempo de partilhas na internet, ponderei se haveria de escrever este texto; porém, por respeito e admiração a todas as pessoas que passam por situações semelhantes e infelizmente sem a minha sorte, decidi escrevê-lo.

Sempre tive muitas dores de cabeça, desde miúda. Mais tarde vieram as enxaquecas com tudo a que dão direito. Aos 17 anos, na época dos exames nacionais de décimo primeiro ano, as características das minhas dores mudaram e eu deixei de conseguir dormir, tive mesmo um episódio em que deixei de ver por uns segundos, vários momentos que mais tarde descobri serem ataques de pânico e, pronto, estava mais que visto que devia ir ao médico.

Marcada a consulta no hospital de S.João, eu e a minha mãe fomos juntas de comboio de Resende para o Porto, na maior tranquilidade, lembro-me que nem carteira levei comigo. O plano era irmos ao hospital, depois passearmos pela baixa onde compraria o habitual bilhete para o Paredes de Coura e lá voltaríamos felizes da vida para Resende.

A neurologista que me viu era conhecida da minha mãe, fez-me os exames clínicos todos, mas por via das dúvidas achou por bem mandar-me fazer uma TAC. Quando tive de repetir o exame, agora com contraste, lembro-me de dizer à minha mãe que aquilo não me parecia ter sido bom sinal.

Passados uns 40 minutos de espera, numa sala para onde me tinham encaminhado, uma médica de cabelos aos caracóis (que mais tarde se veio a revelar uma das melhores médicas e pessoas do mundo) e um médico magrinho de olhos claros dirigiram-se a nós com a notícia que me tinham encontrado um vaso dilatado no cérebro, que não sabiam o que era, nem se o sangue que circulava era venoso ou arterial, podendo ser um aneurisma e que por isso eu teria de ficar internada para fazerem mais exames, sem haver a hipótese de sair dali sem que tudo fosse esclarecido.

Eu acho que todos os dias, quando acordo, me lembro da sensação que aquele momento me trouxe. São precisos apenas microssegundos para vermos toda a nossa vida passar-nos em frente dos olhos, como quando acelerava o “rewind” do VHS lá da sala de jantar. O chão foge-nos, lembramo-nos de todas as pessoas a quem queremos o melhor do mundo e, de repente, o que nos atormentava e as comichões de ontem são imperceptíveis. A relatividade das coisas passa a ser monstruosa.

Eu reajo sempre muito calma a situações que prometem o caos, talvez por guardá-lo dentro de mim desde que me conheço,  mas a minha mãe estava em pânico e ainda teve de voltar para Resende, lá haveria de me preparar um saco, já que nem carregador do telemóvel tinha e, entretanto, a minha tia Mena cheia de carinho levou-me um pijama ao fim do dia. Eu lembro-me de assistir àquilo tudo sem grande alarido, embora por dentro gritasse.

Eu não sabia sequer se tinha de ir à segunda fase dos exames, havia tantos planos para as férias, que ridículas me pareciam todas essas preocupações agora que estava deitada naquela cama de hospital. A ala de internamento de neuro estava lotada e por isso fiquei internada no piso de gastro. Eu era a mais saudável de todas aquelas pessoas embrenhadas em lençóis brancos, com famílias a chorar, máquinas a apitar, noites inteiras a vómitos e gemidos.

Estive internada 15 dias e talvez, se um dia escrever um livro, possa dedicar as páginas merecidas aos dias extraordinários que lá vivi, assim como explicar a mudança que trouxeram na minha vida tanto as pessoas que vi morrer, as lições das histórias que partilharam comigo doentes que lá estavam há meses, as visitas inesperadas que me fizeram pessoas que eu não esperava, o amor que senti de tanta gente, ou até mesmo o episódio em que fugi às escondidas, a meio da madrugada, com outras duas raparigas pelos corredores do hospital, porque uma delas tinha ouvido falar de uma janela aberta no piso de traumatologia e nenhuma de nós sabia o que era sentir o vento na cara há muito tempo.

Felizmente, no final das contas, o tal vaso dilatado era a minha veia de Galeno, o sangue que lá circulava era venoso como era suposto e parece que este tamanho estúpido teria já sido defeito de fabrico, tendo sido a pressão compensada pela Mãe Natureza.

Eu era uma miúda a crescer em Resende, no meio do verde, do rio, só queria jogar voleibol e divertir-me com os meus amigos. Nunca tinha apanhado uma bebedeira, nunca tinha feito grandes maluquices, gostava de dançar descalça e de correr no meio das árvores das terras do meu avô. Era péssima a expressar sentimentos, era pudica, pensava demasiado em  vez de arriscar, guardava tudo cá dentro e era bastante responsável e prudente. Escusado será dizer que a  minha percepção em relação à vida mudou drasticamente. Se desde criança a vontade de me mexer, de conhecer e de viver era já de uma imensa força, a partir do episódio desse verão, a minha dedicação a saber aproveitar o facto de estar viva e a demonstrar o bem que queria aos que me rodeavam quadruplicou.

Era uma larva, saí daquele hospital borboleta e deixei de guardar os sentimentos para mim, evitei ser bruta como de costume, transformei toda a confusão que estava guardada em mim em amor e energia para ser alguém melhor.

A minha insignificância sempre me fascinou, a nossa pequenez nesta imensidão de matéria e espaço, a volubilidade com que passamos de vivos a mortos, a falta de sentido em todo este processo de existir, mas eu ainda não tinha sentido o respeito que estar vivo merece, precisamente por ser fruto de uma aleatoriedade tão fortuita.

Saí daquele lago de água fria a sentir-me abençoada pela sorte, como quem se safou por um triz de levar com uma cacetada e a primeira coisa que fiz quando entrei no carro do meu pai foi meter a cabeça de fora da janela e sentir o vento na cara pela primeira vez na vida. De olhos fechados pensei nas minhas companheiras da fuga nocturna, elas não teriam a mesma sorte que eu tão cedo.

Depois deste incidente, a cada unha encravada que me aparecesse eu não hesitava em ir ao médico. Claro que estou a exagerar, mas basicamente nunca mais adiei uma ida ao médico, acho que é normal depois de apanharmos um susto e admito que acabo por ter pouca paciência com pessoas que se recusam a ir ao médico, quando há coisas graves que podem ser tratadas a tempo se as pessoas tiverem cuidado.

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Felizmente de todas as maleitas que vou tendo, desde operações aos pés, a hérnias numa coluna que me dá muito que fazer, a verdade é que são sempre coisas menores, nada comparáveis aos centenas de carcinomas que já vimos aparecerem em familiares, amigos, mães e pais de amigos, vizinhos, conhecidos.
Cresci com uma mãe que acompanha tudo que é gente ao IPO, ouvi sempre falar da Rosa Maria, uma das melhores amigas da minha mãe, com quem partilhava quarto na Universidade, que faleceu com cancro, vi muitas pessoas que me são queridas morrer cedo demais com cancros pesadíssimos, o meu avô foi um sobrevivente que vinte anos depois viu o pesadelo voltar com toda a força, por isso cá em casa sempre tivemos um enorme respeito por este monstro que assombra tantas famílias.

Dois dias antes da minha viagem, estava já com as malas a meio, decidi ir deitar-me. Já sei que mesmo que esteja com muito sono, quando chego à cama há sempre um processo delicado de me fazer desligar da realidade. À noite a minha mente acelera e tudo que é possibilidade remota, decisão mal tomada no passado ou preocupação surge nesse instante.
Aprendi com o tempo a amar dormir sozinha e por isso tenho o hábito de, para relaxar, fazer festas em mim. Acho que é muito saudável sabermos tocar no nosso corpo, sentirmos os nossos pés, os joelhos, os ossos das ancas, sentir-me a barriga, o umbigo, o recorte do meu peito. 

Foi precisamente quando cheguei ao meu peito que o meu coração parou. A exata sensação daquela tarde em frente a dois médicos desconhecidos com uma novidade que me fez rever cada pedacinho do meu passado, mas agora ali sozinha, no quarto da casa que ia deixar dali a duas semanas.
Dei conta que por baixo da minha mama esquerda estava um nódulo, um dos que apesar de invisível aos olhos, metem respeito e nos mandam ir a correr ao médico.

Se fosse uma situação normal eu jamais teria esperado um minuto que fosse até ligar para a minha mãe, no entanto, eu tinha a viagem para a Alemanha daí a um dia e achei que o melhor era guardar o segredo comigo. A verdade é que sendo o nódulo benigno ou maligno, não fazia sentido eu perder aqueles 8 dias só para mim, tão merecidos, porque nada iria mudar. Ele estava ali, eu sabia agora da presença dele e restava-me encarar a realidade sem deixar a minha família em agonia durante tanto tempo.
Nessa noite dormi muito pouco, aliás eram sete e meia da manhã quando fechei os olhos. Fiz uma enorme meditação sobre tudo, acabei de fazer as malas e concentrei-me em tudo que de melhor tenho na vida.

No dia seguinte fui almoçar com um amigo, ele estava absolutamente longe de imaginar o que me ia pela cabeça, sabia apenas que ao outro dia eu ia viajar. Ele faz parte do clube que não acha piada ao que escrevinho e estávamos a falar nisso quando ele me disse:

-Não é por mal sabes, mas irrita-me a tua forma positiva de encarar a vida. És demasiado optimista. 

Eu sorri, a olhar para a cerveja que tinha em frente, peguei nela, dei um gole como quem tem bastante sede e respondi-lhe:

-Não é por mal sabes, mas é demasiado bom poder sentir-me viva, só gostava que os outros pudessem sentir-se assim também.

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Quando voltei de Berlim, depois de uma viagem intensamente introspectiva, com muita maluquice, festa, tempo para estar sozinha, depois de muita meditação e tempo para organizar todos os pensamentos que me passavam pela cabeça, mostrei à minha mãe o nódulo já sabendo que lhe iria tirar o sono essa noite.
Por milagre, a médica que só vem uma vez por mês a Resende estava cá no dia seguinte e viu-me.  Felizmente foi mais um susto, o nódulo é benigno e tem apenas de ser vigiado. 

Quando saímos do hospital de mãos dadas, as duas, como naquela tarde em que fomos para o Hospital de S.João, estávamos em silêncio com um grande sorriso de alívio.
A minha mãe apertou-me a mão com mais força e disse :
– Naná, é mesmo bom sentirmos o vento na cara outra vez, não é?

Mais sorte que juízo

Hamburgo – Dia 1 e 2

Quando comprei o bilhete para esta viagem, estava acampada no pseudo escritório de minha casa, com um lindo casal de brasileiros a passar o fim-de-semana no meu quarto, através do Airbnb.
Sentia-me presa, cansada. Bem, na verdade, exausta é a melhor palavra.
Soa a cliche, mas as viagens fazem-me bem, fazem-me sentir viva, seja pelo bem ou pelo mal, embora por algum motivo especial, o universo tenda a que seja sempre pelos melhores motivos.
Ontem meti-me no avião para uma viagem de oito dias, dois em Hamburgo e seis em Berlim. Viajar sozinha é, para mim, das melhores opções para quem quer sentir o que é a liberdade em pleno. Pelo menos parece-me a possibilidade mais próxima de a atingir. Não há nada que se assemelhe a chegar a um país com língua e culturas diferentes, só de mala na mão e com um friozinho na barriga por não fazermos ideia do que vem a seguir.
Meti-me no avião, estava cheio de emigrantes que regressavam a casa depois de uma estadia de longa duração para matar saudades dos seus. Ouvia-se uma mistura engraçada de palavras em português e alemão, soavam a Agosto, ainda que de luvas e cachecol  vestidos.
A primeira vez que viajei sem adultos tinha 14 anos e fui para Cambridge, durante 15 dias, para um curso de verão de inglês. Éramos quatro ganapas, o meu inglês era péssimo e o que me fascinava era a ideia de estarmos sozinhas, ainda que não imaginássemos que íamos mesmo ter a liberdade total de fazer o que bem nos apetecesse.
No meio de imensas histórias e peripécias, conheci o Kiko. Demo-nos especialmente bem, o sentido de humor dele era hilariante, eu acabei por me aproximar imenso mas tudo mudou quando ele declarou a sua paixoneta.
Ora, a última coisa com que eu sabia lidar aos 14 anos era com um rapaz a declarar-se, pelo que o Kiko não podia ter feito coisa pior que demonstrar afecto romantizado por mim.
Com o tempo aprendi a lidar com esse tipo de situações e o Kiko passou a ser um bom amigo, a quem pedi desculpa pela falta de jeito em gerir sentimentos, ainda que só tivesse 14 anos.

Crescer é um processo extraordinário.
De repente vais à farmácia pedir socorro e quem te atende é o Rui, teu amigo de infância com quem jogavas às escondidas, estás na fila do médico e vês o teu primo de bata vestida a falar com doentes, na televisão em directo está o Ruica com quem fazias vídeos estúpidos no Erasmus em Roma e enfim, ainda ontem estava em Cambridge, sem saber como lidar com a paixoneta do Kiko e agora estava a ouvir a hospedeira do avião a anunciar que era esse mesmo Kiko a pilotar o avião que me levava às minhas suplicadas férias.
A viagem podia ter começado melhor? Claro que não.

A meio do voo, caí na tentação de comprar uma raspadinha da Ryanair. Óbvio que não me saiu nada, mas valeu pelo facto de fazer com que a senhora que estava ao meu lado começasse a falar comigo. Ela nunca tinha jogado e tentou ali a sorte dela, também não lhe saiu nada.
Era professora universitária, especializada nas matérias das nossas complicadas cabeças e a viagem passou sem nos darmos conta, sendo que ela tinha as melhores respostas para as minhas mais que muitas perguntas. Nasceu em África, os caracóis dela impunham-se sobre os olhos esverdeados e sobre o sorriso de orelha a orelha.
Às tantas um Holandês enorme, careca, alegadamente alcoolizado, começou uma enorme confusão, quis bater (chegando a bater) num rapaz novo, e às tantas já queria agredir toda gente que aparecesse à frente. A tripulação do avião com a maior classe e profissionalismo lidou com todo aquele stress até à chegada da polícia, assim que aterrámos.

Estava à espera da minha companheira de viagem para me despedir dela, já que me esperava cerca de uma hora de viagem em metros e autocarros até ao Hostel onde ia ficar hospedada, quando ela chega e me oferece a boleia do amigo que a ia buscar ao Aeroporto.

Eu sei que é mesmo puxado lidar com tudo o que a vida nos traz, mas há uma magia e uma ligação entre nós humanos que realmente não tem tradução.
Eis que saímos da zona das chegadas e ali está ele: um homem lindo, Persa, alto de casaco comprido a condizer com a cor da barba cinza, de rosa vermelha na mão à espera daquele que, passo a saber minutos depois, foi o seu primeiro amor, amor esse que já não via há 23 anos e que conseguiu reencontrar graças ao facebook de um familiar.
Pronto e ali estou eu, parada, petrificada vá, a assistir a um reencontro digno de ecrã de cinema, com uma intensidade capaz de tirar a respiração até aos mais resistentes, com energia e amor suficiente para que no meio daquilo tudo, por acaso, ainda me ofereçam boleia até à porta do hostel, mesmo sabendo que fica a uma valente pedaço do aeroporto e da rota que iam seguir.

Cheguei ao Instant Sleep Backpackers Hostel (onde paguei 23€ por duas noites), ainda meia atarantada com o que tinha acabado de acontecer e com as histórias e fotografias que me tinham acabado de mostrar durante a viagem, e fiz check in.
O ambiente estava super calmo, fui guardar as coisas, fazer a cama e  descer à rua para comprar cerveja e jantar. Fui a um restaurante asiático, onde ninguém falava inglês e cujo  menu estava todo em Alemão. Uau. Estava um pouco tramada, não fosse a filha mais nova da dona do restaurante chegar e arranhar algumas palavras em inglês, suficiente para me arranjar uma bela refeição sem carne por 5 euros.
Quando cheguei ao hostel ouvi um brasileiro dizer que não estava a achar grande piada ao Porto, porque era demasiado provinciano e ele vinha de São Paulo, ora está claro que pediu a minha intervenção. Ele conversava com um rapaz de Guimarães, que vim a descobrir ser espetacular e que, por acaso, veio no mesmo avião que eu, sem a sorte de ter boleia directa para o hostel, mas com direito a vista privilegiada para a confusão do avião, com a oferta um murro no braço incluída.

Às tantas já estávamos todos a beber cerveja na varanda, a curtir os dois graus negativos e a perceber que estava gente de todas as partes do mundo naquele cantinho de Altona North.
Entre eles estava o Mango, um sueco que quer ir viver para uma aldeia no norte de Portugal e criar a sua própria quinta, talvez a pessoa com a melhor capacidade de unir pessoas que já conheci em toda a minha vida.

Porque o mundo é lindo, conheci um Colombiano que tem contactos na selva amazónica e me vai poder proporcionar a estadia com tribos de indígenas específicas incluídas na investigação da minha tese de mestrado, a minha mãe repete constantemente que tenho mais sorte que juízo e eu não posso negar, não é?
Depois de irmos renovar a quantidade de cerveja disponível, descobrindo que no meio de centenas de qualidades diferentes de cerveja lá para o meio da loja de conveniência estava a autêntica Super Bock, a conversa passou por vários estágios e o último deles foi a história sobre pessoas que alegadamente fazem sexo com patos (?) e sobre golfinhos que já violaram humanos depois de snifarem um químico que um determinado peixe liberta (?).
A noite terminou com um dos Colombianos a proporcionar aulas de salsa e a dar alto espetáculo com uma Californiana bailarina profissional que apanhou os truques todos em segundos, os Brasileiros a contarem a viagem pela Europa em 27 dias e mais umas quantas conversas cujos temas se tornaram um bocado suspeitos.

Hoje de manhã acordei e estava tudo branco. Achei por bem ir visitar a irmã do meu avô, que está em Hamburgo há mais de 40 anos, com o marido, e que não estão habituados a receber muitas visitas de Portugal por cá.
Senti que estava mais que nunca ligada ao meu avô, que se despediu de mim há já tanto tempo, com todo o amor que as mãos da minha tia me transmitiam sempre que me apertavam enquanto esboçava um sorriso demasiado doce para ser descrito num blog sobre viagens de um joelho esfolado.
Levaram-me a almoçar a um restaurante Português, do senhor Celso, onde matei as saudades do que é um verdadeiro bife de atum e, depois, fui passear de braço dado com a minha tia, pelas ruas bonitas do centro de Hamburgo.
Uma senhora amiga deles deu-me boleia para o hostel, depois de me contarem as aventuras e desventuras de quem deixou tudo para trás à procura de uma vida melhor .há décadas atrás, e onde a promessa de voltar é assunto diário de planeamento familiar.

Não é incrível como podemos sentir-nos em casa, mesmo estando num sítio onde não percebemos patavina do que nos dizem, do que as tabuletas têm escrito, do que os sinais da rua indicam?

Está a nevar outra vez.
Tenho mais sorte que juízo mãe, tens toda a razão.
Como sempre.