Ljubljana. “Não é com os olhos que se vê a natureza das coisas”

Está sol. Há luz em todo lado e as montanhas estão cobertas de neve. No nosso quarto,um casal de viajantes com alguma idade arruma as coisas para ir embora, não me dizem mais do que um bom dia sorridente. A Diana ainda dorme, viajou quase 48 horas seguidas. Desço as escadas e dou de caras com um bar de hostel cheio de locais a almoçar. As refeições fazem-se mesmo cedo, as pessoas comem a uma velocidade estonteante e às dez da noite, por ser tarde, já não se servem cafés nos restaurantes.

Saímos a pé para conhecer Ljubljana. Não quisemos ver fotografias antes de chegar, sabemos apenas que não podemos perder a oportunidade de conhecer o Museu das Ilusões que abriu há um ano. As ruas de Ljubljana são limpas, não há trânsito, as pessoas parecem-nos um pouco carrancudas, mas não tarda até percebermos que não é mais do que um lamuriar instintivo contra a chegada do outono.

Passeámos pelas pontes, sentimos o ar fresco do rio gelado. Um senhor de 70 anos passeia três cães terapêuticos. “São educados para ajudarem a fazer as pessoas felizes, podem pegar-lhes”, diz-nos, com um sorriso enorme no rosto. Crianças aproximam-se, a terapia baseia-se em não deixar que a solidão “nos coma os ossos”.

Em viagem tudo é posto em perspetiva. Eu, que sempre adorei viajar sozinha, sem correntes, sem horários, sem planos, temia que viajar em equipa, em trabalho, fosse tornar-se um peso ao amor que tenho pela minha solidão. Mas vai daí que é impossível sentir-me mal quando a sincronia se compara a dois membros de um só corpo, ao ponto da Di se apresentar como Ana e apontar para mim como Diana e logo se aperceber da barbaridade que acabou de deixar escapar. Dizem-se frases ao mesmo tempo e as pessoas riem-se com a simbiose de duas colegas e boas amigas.

Sentamo-nos numa esplanada à beira rio e começa a nossa jornada de adoração ao café por estas bandas – mais tarde haveríamos de perceber que, talvez fosse a sorte, talvez seja a norma, o café da Eslovénia mostrar-se-ia como algo a repetir. De repente as ruas estão cheias de pessoas felizes, que passeiam em bicicletas, de mãos dadas, com os filhos. Tantos filhos, tantas crianças, tanta vida.

Comem-se gelados com casacos compridos vestidos, há livros nas mãos dos que se encostam em recantos luminosos. A época do turismo desenfreado já terminou e consegue-se perceber a rotina dos que cá vivem.

Lembrei-me de mandar mensagem à Olga, eslovena com quem vivi três meses em Roma, na casa do Davide, italiano que nos acolheu nessa altura. Já não a via há seis anos e reencontrá-la foi não só refrescante à alma como também nos deu uma enorme ajuda, já que com o jantar viria um enorme conjunto de conselhos sobre a viagem. No Museu das Ilusões revivemos a infância e a admiração com que olhámos para as novidades quando éramos crianças. A ideia surgiu em Zagreb, de dois amigos arquitetos que queriam criar algo único e o resultado são mais de 40 tipos de ilusão de ótica, hologramas, jogos da mente, criando um conceito único de diversão e aprendizagem em toda a Europa.

A Olga estava mesmo em Ljubljana e veio ter connosco. No meio das ilusões, estávamos de volta ao mundo feliz e universal, como o que nos faz recuar aos dias de praia em que brincávamos com estranhos, mesmo que não falássemos a mesma língua, ou das tardes em jardins com crianças que não conhecíamos a atirar pão aos peixes em lagos turvos. Não houve como sentir constrangimento da distância e do tempo que passou estando no meio de tanta alegria. Fomos jantar a um restaurante tailandês, já que a comida tradicional eslovena, segundo os próprios, é um terrível aglomerado de carnes.

Estava à procura de maneira para chegar a Velenje, mas não havia BlablaCar nenhum. Foi aí que a Olga nos explicou que, na Eslovénia, a app mais famosa de boleias é a Prevoz, criada há muitos anos por um estudante universitário. Encontrámos logo boleia para lá por apenas quatro euros.

Depois de nos levar de carro até às muralhas do castelo de Ljubljana, despedimo-nos da Olga já à porta de Metelkova, o bairro alternativo onde ficava o nosso hostel. Era o regresso noturno àquele lugar e por isso, já que esta noite havia luzes, queríamos descobrir música e pessoas. Num placar lia-se uma ordem para não se tirarem fotografias, a cerveja ficou por um euro e vinte. Sentámo-nos a observar os tantos jovens que circulavam até que um homem passa com ar de quem está com a cabeça num sítio longe dali.

À primeira não nos falou em inglês, respondia em esloveno, mas insisti. Não me disse a idade, pediu-me que adivinhasse mas como nunca faço ideia das idades das pessoas tive de lançar uns simpáticos 35 anos para o ar. Riu-se à gargalhada, tínhamo-lo conquistado.

Pavle nasceu em Ljubljana há muitos anos, assistiu ao governo a tentar demolir Metelkova e aos estudantes que mobilizaram a população através da rádio para salvarem o bairro que era de ninguém e de todos. Tem viajado por onde pode e a casa vai alternando conforme os dias.

Os biscates trazem-lhe “as bananas e o leite mais o pãozinho” que comprara naquele dia. Não nos pede dinheiro, não nos chora nada. Fala só com um sorriso enorme no quanto agradece poder ser vivo e saudável. Diz ser feliz. Fala-nos da sua paixão pela Bósnia, pelos rios que chegam a Ljubljana e conta-nos lendas de dragões e castelos.

Não quer cerveja porque tem com ele o sumo que conseguiu comprar com o que recebeu pelos talheres que lavou no último restaurante. Há quatro dias comprou um telemóvel novo, é dos antigos, sem internet. Pede-nos uma fotografia com ele, mas não há câmara para selfies – é mesmo com o telemóvel virado ao contrário. No fim, despede-se com abraços, a falar das árvores centenárias e das flores que não são de lá.

Já de bicicleta em andamento, encontra-nos na estrada e pede-me que abra a mão. Sementes verdes, reconheço o cheiro. “Sabe o que é isto, menina?”, pergunta. Sei muito bem, embora nunca tivesse visto sementes, apenas o que se faz das folhas e das flores. “Mas eu não tenho dinheiro para lhe pagar isto”, digo-lhe, sem saber o que fazer com as sementes de canábis que tinha na mão. “Não quero dinheiro nenhum. Isto é para que possa ver a vida como ela é, não é com os olhos que se vê a natureza das coisas, rapariga”, respondeu-me. “Então mas e o que lhe posso dar em troca?”, perguntei. E já ao longe, enquanto pedalava sem olhar para trás, respondeu: “Mandem fotografias da Bósnia.”

 

Foto: Diana Tinoco

Publicado em: https://ionline.sapo.pt/artigo/581962/ljubljana-nao-e-com-os-olhos-que-se-v-a-natureza-das-coisas-?seccao=Portugal_i

 

A chegada a Ljubljana

Os aeroportos sempre me fascinaram. Lembro-me perfeitamente de ser criança e participar numa visita de estudo do infantário para conhecer o espaço e a logística que tornavam possível os aviões levarem pessoas para outros lugares. Foi nesse dia que se me desvaneceu o mito, que eu própria havia criado, de que os aviões sabiam as direções certas porque as nuvens tinham placas devidamente assinaladas. Este seria apenas um dos primeiros choques que a realidade traria com o tempo. No final da visita ao Aeroporto Sá Carneiro, quando os meus pais me foram buscar, mal sabiam que, pela nossa vida em diante, muitas vezes me iriam ver a descolar e a voltar àquela pista.

Adorava começar este diário de bordo a explicar que adoro viajar sem procurar o que visitar nos locais, sem criar qualquer tipo de expectativa sobre o que vou encontrar, mas a verdade é que desta vez não tive mesmo tempo para preparar absolutamente nada. Quando propusemos à direção deste jornal viajar pelos Balcãs durante um mês, com registo jornalístico e produção de conteúdos constante, limitei-me a aproveitar o pouco tempo que tinha disponível, quando saía da redação ao fim de um dia de trabalho, para estudar melhor a História e os contextos do que iríamos encontrar. Eslovénia, Croácia, Bósnia, Kosovo, Macedónia, Roménia, Sérvia, Hungria e Alemanha: um mês numa viagem que ainda nem tinha começado e já nos alertava para o início de toda uma nova vida.

Chegar a Veneza não foi difícil: bastou apanhar um comboio na Estação Central de Milão. Esperavam-me cerca de três horas de viagem numa carruagem vazia, que me deixou respirar o alívio de quem corre a toda hora contra o tempo e que tantas vezes tarda em encontrar-se pelo meio. O pior foi mesmo orientar-me por Veneza, onde os barcos e as gôndolas não chegam para a invasão de turistas que tão pouco podem informar aqueles que andam desorientados à chuva.

Estava sozinha e já passava da meia noite. Não conseguia perceber como haveria de chegar ao Generator Hostel e o que me valeu foi um casal de italianos idosos que, com muito boa vontade, ampliaram o meu Google Maps e me orientaram pelos barcos até Zitelle, onde me esperava, finalmente, uma cama em condições por 35 euros. Não é possível discutir o quão bonita é Veneza, desde as cores das impermeáveis dos que passeiam pelos edifícios antigos ao nascer do sol a que mais tarde assistiria. Bem sei que a tudo se habitua um ser humano, mas os nervos e o cansaço gritavam-me perante o cenário tão pouco prático que é o de termos de nos deslocar de barco, com todos aqueles barulhos, abanões e, pior de tudo para o meu estômago, aquela maldita ondulação.

Nas escadas do hostel estava um australiano a cair de bêbedo e um norte-americano mais jovem a fumar um cigarro. Deram-me as boas-vindas e falaram-me das suas estadias prolongadas pela “cultural e extravagante Europa”. Com o hostel a abarrotar, foi uma sorte ter encontrado onde dormir. Na minha camarata mais sete jovens viajantes deixariam ao outro dia o quarto para prosseguir viagem. Uma camarata cheia de norte-americanos a desbravar território europeu.

A Diana, minha companheira de viagem, finalmente chegou a Itália. Encontrámo-nos em Santa Lucia para apanhar um autocarro para Veneza Mestre, onde teríamos de encontrar o nosso autocarro para Ljubljana. Entre telefonemas e correrias pedi-lhe que me fosse comprando o bilhete. De impermeáveis e mochilas gigantes às costas, com computadores, máquinas de fotografar, filmar, baterias suplentes, carregadores e outros gadgets que tais, abraçámo-nos em pleno autocarro como se não nos víssemos há mais de vinte anos. Todos nos olhavam com estranheza e de repente a viagem até Mestre parecia interminável. Ao relembrar como arranhar o meu italiano de outrora, decido perguntar quanto tempo nos restava para a estação. “Estão a ir na direção errada, já deviam ter saído há muito”. De repente vi os bilhetes do autocarro para a Eslovénia a esvoaçarem pela carteira fora. Saímos do autocarro em pânico, a tentar relembrar todas as orações que os nossos avós faziam em momentos em que precisavam de chamar a sorte. Quando apertado, até um ateu reza e assim fomos nós a cambalear até outro autocarro que em contrarrelógio nos levou até Mestre. Bendita seja a pontualidade italiana, devemos dizer, já que não só não chegámos atrasadas como ainda deu para esperar à chuva e comprar jantar. O hostel que havia marcado para a primeira noite na Eslovénia afinal foi cancelado e escolhi o primeiro que o Hostel World me recomendou.

Da viagem lembro-me pouco, já que a passei de boca aberta e olhos fechados. Mas a chegada à Ljubljana foi épica. Eram duas da manhã, queríamos comer e os preços do Box Bar diziam que era ali mesmo que devíamos parar para um enorme hambúrguer vegetariano por três euros e meio. Seguimos as coordenadas e com a ajuda da tecnologia lá fomos as duas a pé até ao bairro que deveria ser o nosso.

Devo dizer que por vezes é um perigo confiarmos à tecnologia o discernimento de se virar para a direita ou para a esquerda. Ali estávamos nós. Exaustas, curvadas, de pés inchados, com impermeáveis e kispos, enquanto a seta nos indicava para virar à direita. Desse lado havia um portão de ferro, um monte de cartazes que me eram familiares de festivais de Metal e Hardcore, pinturas em todas as paredes. Não se via vivalma, só um monte de instalações metálicas, representações daquilo que nos pareciam aliens, com expressões de horror e mãos enormes. O silêncio era aterrador e a Diana agarrava-se a mim como se um abraço nos pudesse salvar do apocalipse. “Que sinistro, que cena do mal”. Não fazíamos ideia de onde estávamos e temíamos por todo o material que guardávamos connosco. E ser mulher nunca ajuda nestas alturas. Um homem saiu da escuridão, saltámos – hostel nem sinal dele. Há escadas, não há escadas. Há perigo, não há perigo. Um suspiro de alívio: vemos luzes acesas. Estamos vivas e vamos dormir.

Ao pequeno almoço, um funcionário fala-nos em português e tudo se torna mais familiar. Vem de Cabo Verde. Ao sairmos pela porta, a realidade faz agora mais sentido. Estamos no coração de Metelkova, o bairro alternativo que já foi terra de ninguém, centro da vida antissistema e da pseudoanarquia, o pulsar do limite da sociedade. Estamos no coração da arte e da resistência. Metelkova ao nascer do dia, afinal, é só cor. Tudo o que nos faltava era um pouco de luz.

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Andorinhas

É setembro e em Resende não estamos habituados a ver gente de mochila às costas a pedir boleia. Os turistas que cá vêm normalmente têm dinheiro, param em grandes quintas, nem se veem na rua, cruzam-se connosco em restaurantes ou nos barcos que conduzem pelo douro enquanto saltamos do cais para a água. 

Eu já não ia matar saudades da terra há mais tempo do que me agrada. Estava a morrer de saudades de casa, do silêncio, do canto dos galos da dona Idalina que ecoam pela minha rua. Daqui a duas semanas vou de mochila às costas com a Diana em reportagem por 19 países dos Balcãs e Europa central e não podia esperar mais por ir ao ninho matar saudades.

No sábado à tarde tinha adormecido a ouvir os ensinamentos do filósofo indiano Krishnamurti, que defende o amor na sua plenitude é a compaixão e a inteligência e a direcção do mundo está na adoração da liberdade. Sentia-me inspirada. Mais tarde, estava eu com os meus pais e irmã, primos de quem morria de saudades e amigos na esplanada do Quórum, que ao longo dos anos tem sido ponto de encontro em várias épocas e por diferentes motivos, quando um casal novo chegou esbaforido, cheios de calor, com um cão lindo de morrer e sem saberem muito bem para onde ir. Estavam de mochila, com costas curvadas, pulseiras nos braços e cristais ao pescoço. Decidiram sentar-se na esplanada. Troquei uns olhares e uns sorrisos com eles, tinham uma vibração linda. Ele com ar de quem pensa muito antes de falar, de fita na cabeça porque o calor era muito, ela de olhos verdes e ar de quem respira liberdade.

Fui ter com eles e perguntei-lhes de onde eram, se precisavam de alguma coisa. Andam a viajar por Portugal à boleia, o que não é propriamente fácil num interior normalmente desconfiado e pouco habituado a ver gente assim. Não lhes queria roubar espaço, despedi-me deles, ficaram com o meu contacto caso precisassem de alguma coisa.

Fui jantar com os meus pais e a minha irmã, relembrar a incrível Francesinha do Sangens, minha excepção óbvia no consumo de carne e, quando voltámos ao Quórum para encontrar o resto da família, eles ainda lá estavam. Na mesma mesa, com ar mais relaxado, agora sentados com o meu tio, a quem a vida também se encarregou de afastar, mas que estava lá de férias. Dizem que o Natal é quando a gente quer e o nosso estava só a começar.

De repente a mesa era pequena para tanta gente, juntámo-nos todos naquela mesa, falávamos inglês, francês, português, faziam-se gestos e perguntas a uma velocidade típica de quem vive no norte e tem o coração cheio. Todos estavam fascinados e curiosos com o modo de vida do Márcio e da Cilia. Ele português, a viajar pelo mundo sem destinos propriamente definidos, ela belga, com a atitude de quem nasceu para mudar o mundo. Conheceram-se no Sri Lanka. Enquanto ele esfregava uma casa-de-banho de um hostel onde estava a trabalhar em troca de estadia, aquela miúda de olhos verdes e cabelo claro passou por ele. “Fiquei completamente parvo”. Nunca mais se largaram. Embora o Márcio não tenha telemóvel e tenha ido viajar pela Austrália enquanto e Cilia foi viajar pela Ásia, voltaram a encontrar-se, apaixonados, sem esperar um do outro mais do que cada um está disposto a dar. 

Resende não tem parque de campismo. Já era tarde e tudo indicava que iam passar a noite num cantinho, à beira das piscinas municipais, abrigados do frio, com a tenda que trazem às costas. Sabem aqueles momentos em que já somos adultos e surge a oportunidade de vermos se os nossos pais acreditam mesmo na educação que nos deram? Os meus ensinaram-nos a amar os que nos rodeiam sem esperarmos nada em troca, a viver em espírito de comunidade, já que tudo faz pouco sentido se não formos uns para os outros. E vai daí que o Natal é quando a gente quer e enquanto toda gente ria, fazia perguntas e os olhava com admiração, cruzei olhares com a minha mãe e li-lhe os pensamentos.
– Sim mãe, por favor.
E ela sorriu-me. 

Quando a minha mãe ficou doente, há 13 anos, não imaginávamos que o consultório em que crescemos a vê-la trabalhar, um dia, havia de fechar. Brinquei várias vezes naquela secretária enquanto ela atendia os doentes de boca aberta, depois subíamos num instante a casa, fazia-nos um bolo de chocolate quentinho e quando o próximo doente viesse a campainha tocava e ela descia. Há uns anos lá veio a decisão de fechar e todos sabemos o quanto lhe custou admitir que era tempo de parar. O consultório passou a ser uma extensão de nossa casa, onde estão todos os resquícios das minhas mudanças de 19 casas, onde estão as nossas roupas de inverno, de quando éramos crianças, livros, até a minha máquina de escrever está lá.

O consultório agora é um enorme quarto, com cama, armários, quarto de banho, mas apenas as nossas memórias haviam lá dormido até então. Até que o Márcio e a Cilia pararam naquela esplanada e entraram pelas nossas vidas. Se eu tivesse casa só minha nem pensava duas vezes, estou habituada a que os meus cantos sejam a casa do povo. Os meus instintos não me têm enganado e as pessoas a quem tenho aberto as portas não me têm mostrado estar errada. Mas ali era a nossa casa, o nosso ninho e nunca tinha acontecido darmos abrigo a estranhos que por ali andassem.
Vi a minha mãe segredar o meu pai, conversarem sobre o assunto e quando me apercebi da decisão, abracei-os. Sempre vi os meus pais ajudarem quem lhes pedia ajuda, mas tudo neste momento foi diferente. Talvez pareça um pouco tonto da minha parte, mas o orgulho que senti deles e em ver que afinal não era tudo teoria, que na hora da verdade o cristianismo e os ideais que apregoam também são postos em prática mesmo que seja com pessoas que nunca viram na vida, deixou-me feliz.

-São tão parecidos contigo, podias ser tu – disse-me enquanto olhava o casal, o meu primo que só não é meu irmão porque a vida assim não quis.

Vimos todos juntos o fogo de artifício das festas de Mirão, uma aldeia perto da vila, e depois lá fomos mostrar-lhes os aposentos. De manhã, tomámos o pequeno-almoço juntos, passeámos pelas ruas da vila e a minha mãe ofereceu-lhes almoço. Bebemos vinho da zona, partilhámos formas de ver e estar na vida, filosofámos sobre a nossa geração e o quanto podemos fazer as coisas de maneira diferente, se assim estivermos dispostos.

Falámos sobre o amor, sobre o quanto custa acreditar hoje em dia na possibilidade de encontrarmos uma parceria assim, em como é fácil perder-se a esperança e se encontram as melhores pessoas quando não estamos à espera. Conversámos sobre a solidão, a juventude, as pedras que trazemos ao pescoço, sobre cristais e estrelas. Falámos da selva, das montanhas, sobre a origem da vida e do caminho do ser humano. Ao imaginar que seria difícil encontrarem boleia até à Régua, ainda para mais com um cão de grande porte, o meu pai ofereceu-se para os levar, mais tarde, até à Régua, onde vão procurar trabalho.

O Natal é quando a gente quer e dali se fez o nosso. Até a minha irmã que é mais desconfiada e não se dá tanto a conhecer, se rendeu aos encantos daquele amontoado de inspiração. Os meus tios ligaram para quintas para os ajudar na procura de trabalho, os meus pais a tratarem-nos como filhos e eu fascinada com as histórias deles, com tanto que tínhamos em comum e com tudo o que se estava a passar naquele ninho que tanto amo e teimo em abandonar por alguns períodos de tempo.

O Márcio tem feito de tudo, da carpintaria, aos hotéis para cães, já trabalhou em vários ofícios, sabe muito de tudo um pouco. A Cilia que estudou psicologia, dedicou-se a estudar os que vivem nas piores ruas da Bélgica, mas a mente dela não tem parado e tem ido mais longe do que isso. Antes do almoço, ao saber do meu problema de coluna, ofereceu-se para me fazer uma massagem terapêutica, que aprendeu a fazer na Malásia. Explicou-me que gastou o último dinheiro que tinha naquele curso de massagens, para poder ajudar os que estão em dor na mente e no corpo.

Fui ao céu. Ali estava eu, no chão do quarto dos meus pais, ao som de música clássica indiana, com a mente vazia e o coração cheio.
Quando chegou a hora da despedida todos sentíamos a intensidade de quem não se cruzou por acaso. Eu trazia na mão uma pulseira para ele e mais um mineral para ela trazer ao pescoço, que um hippie havia trabalhado em colar. Quando nos aproximámos para lhes dar esta lembrança para que me levassem na viajem deles, também ela tinha feito à mão uma pulseira para o meu tornozelo, com búzios e pedrinhas que havia colhido em Bali.

Os abraços foram longos, mas não se disse adeus. Quem sabe não nos cruzamos nas próximas viagens?

No fim da tarde também eu abracei a minha mãe, ao despedir-me para o regresso a Lisboa. Não importa quantos anos já passaram desde que saí de casa dos meus pais, a minha mãe chora sempre que me vê ir embora. De olhos molhados e abraço apertado lá lhe disse.
– Amo-vos muito. Que orgulho em ter-vos como pais. Obrigada por nos deixarem acolhe-los cá no nosso canto.

– Nunca os deixaria a dormir ao frio, filha.  Daqui a duas semanas, vais estar como eles e vais voltar a voar-me dos braços, promete-me que não dormes na rua.

-Prometo mãe, há de aparecer gente linda como vocês por lá também.

– Espero que sim, há gente boa pelo mundo todo. E é que passados tantos anos, tanto tu como eu sabemos por experiência própria, que todas as andorinhas, até as mais livres, precisam de bons ninhos para poisar.

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Changing

Life has been crazy lately. I’ve discovered a bunch of amazing things about me and the ones around. I’ve shared some wild moments with my best friends and adventures that will forever remember me that these are the best years of our lives. I miss when summer meant 3 months of freedom, sun and sea. Now I have to work to death to enjoy 3 days around my people. Growing up is challenging and inspires me a lot to think that we are building our characters and paths through all the difficulties. I feel that a lot of changing is coming, and that’s exactly how I enjoy life. Changing.

Já marchavam

Sempre tive muitos amigos rapazes. Cresci no meio de homens e aprendi a pensar e a entender muito bem a dinâmica de um grupo de rapazes. A minha mãe sempre lamentou que eu tivesse mantido alguns dos modos menos femininos. Sempre tive a sorte de ser bem recebida e tratada como uma das deles e aprendi muito sobre a confusão que é estar dentro de um corpo masculino, sobre a pressão de que os próprios acabam por passar vítimas do próprio sistema, que tantos se irritam em falar. Apesar de amar os homens da minha vida, com todo o amor que há em mim, a verdade é que de tudo o que eu conheço da vida até hoje, nada, mas absolutamente nada, chega aos calcanhares de uma amizade entre um grupo de mulheres que se amam. A energia feminina, a compaixão e solidariedade em momentos de aflição e de festa, a sintonia das almas aos corpos que chegam a partilhar a sintonia de coisas tão simples mas tão fodidas como a menstruação e tudo o que ela traz. Mas sobretudo a honestidade, pura e dura do que sentimos e do que pensamos, as chamadas de atenção sem falinhas mansas, a partilha de conhecimento sem arrogância ou orgulho, o crescimento em grupo. Não há muita coisa de que eu seja fã destes anos confusos e massacrados do início da idade adulta, embora continue a achar que são os melhores anos das nossas vidas. É muito fácil perdermo-nos nas marés de azar, na exuberância dos dias bons, na depressão de uma ressaca de amor falhado. A não ser, claro, que se tenha um grupo de mulherões por perto. Aí tudo soa a um samba, que nem que seja um samba triste, não deixa de ser um abanão ao espírito. Os meus 25 anos já me ensinaram muita coisa, mas a mais importante é perceber que a vida faria muito pouco sentido longe de pessoas como estas.

Dad

Dad used to be thin and had muscles everywhere, typical teacher of sports. He had more hair, much less belly, and used to be more patient. I see the years passing and mom and dad’s bodies are changing, but every time I look at them I still see the young 30 something that brought me to life. They struggle with time and try to be open to my world, sometimes we have huge disagreements, but their respect for my freedom remains in first place. I will never be able to express all my love for him, for how he always pushes me to be better, to be better than good. And here he is, walking through the beach, with an aged body and a beautiful mind.

Sobre a luz

Quando estávamos em 2012, lembro-me de estar numa praia na Galiza, com a água pelos joelhos a falar com uma pessoa a quem queria muito bem. Estávamos a mexer na água com os nossos pés, as águas do mar da Galiza são límpidas e deixam-nos ver o reflexo dos nossos corpos. Discutíamos as teorias sobre o fim do mundo que tanta gente apregoava a sete ventos. É curioso como, volta e meia, há sempre uma enorme vontade do ser humano em anunciar um fim. No livro de um dos amores da minha vida, “Intermitências da Morte”, de José Saramago, levanta-se a enorme questão do que é, afinal, feita a essência da vida senão da existência da morte.


Sempre fui fascinada pelo conceito de vida e morte, quando o professor de física e química no oitavo ano nos falou da lei de Lavoiser os meus olhos brilharam. “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Era exatamente assim que eu via o mundo, saber que alguém séculos antes pensou assim inspirou-me para sempre.
Mais tarde, ao ler Saramago, a sensação repetiu-se. A morte sempre me inspirou a viver. O conceito de vida eterna, de imortalidade sempre me pareceu absolutamente aborrecido. Eu não quero viver para sempre, se não houvesse um fim, como haveria eu de sentir tamanha necessidade em absorver tudo o que posso enquanto cá estou? Que seria da saudade, do amor, se não houvesse sempre um medo de nunca mais nos voltarmos a ver, a tocar? No fundo esta forma de ver o mundo é em algo semelhante à vida de uma borboleta, que passa por um processo de metamorfoses e quando finalmente voa, não tarda em morrer. Então vive tudo demasiado bem, com demasiada força. O que é viver se não isso mesmo?

Talvez o ciclo de esperar por um apocalipse se repita porque estamos à procura de assistir a algo magnífico. A morrer que seja no fim dos fins, não é? A presenciar o mais extraordinário cenário da natureza. Mas não é isso que nos está reservado. Ainda nos falta um caminho demasiado longo e conturbado. O ser humano ainda é uma larva em metamorfose.

Enquanto mexíamos na água eu partilhava com a pessoa que estava ao meu lado que não acreditava num final assim, que via tudo isto como o fim de um ciclo, como descreviam as civilizações antigas, mais especificamente a dos Maias. Eu não sou especialista, sou só alguém que perde muito tempo a pensar e a desenhar possíveis cenários. Tive a sensação que, mais uma vez, o filtro de uma sociedade sem espiritualidade – atenção que não me refiro a qualquer religiosidade – mas à forma mais livre de ser, não deixou que interpretássemos como deve ser as profecias dos nossos ancestrais.
Eles falavam na mudança de uma era, o final das trevas, um despertar de consciência e eu estava em crer que sim, isso faria finalmente sentido.

A minha vida mudou muito desde esse ano. De alguma forma, garanto sem qualquer dúvida que eu mesmo acordei. Depois de passar pelos anos mais dilacerantes e perturbadores de toda a minha vida, em que bati muito além do fundo do poço, eu senti, finalmente, um renascer.
Eu fui o casulo, a larva que enoja tanta gente, fui a dor de corpo e alma, até que voei, muitas das coisas que eu via, acreditava e sentia deixaram de ser comparáveis ao que a minha mente e personalidade se tornaram depois do trauma. No fundo o nascer da fénix depois das cinzas.

Apercebi-me não só da minha paz e da luz que senti dentro de mim estes últimos anos da minha vida, mas sobretudo da dos outros. Eu escrevo e hei de continuar a escrever porque a minha vida, apesar de simples e só porque eu me deixo levar por ela, dá-me oportunidades de ver, sentir e conhecer dimensões extraordinárias da humanidade.

Quando tenho este tipo de conversa perto de pessoas mais céticas, mais terrenas, presas a um raciocínio de segurança, que eu respeito, compreendo e aceito de coração, sou sempre vista e sentida como uma alucinada. Eu sorrio, abro o peito à partilha do que melhor tenho cá dentro, o amor. Não há nada desta vida em que eu não me esforce por responder com amor. E assim tento explicar que, se Lavoisier estava certo, se há teorias que nos explicam que todo o universo nasceu de uma explosão de matéria que nem sequer existia antes, nós mesmos somos feitos dessa matéria.
A lua influencia as marés, os nossos antigos, antes de serem invadidos por ondas de colonialismo e destruição, andavam de mãos dadas com a terra e o céu. Admiravam a sabedoria dos astros, previam colheitas boas através dos pontos que viam no céu.
Se a Lua que é lua pode influenciar a vida na terra, se toda a vida na terra é energia e matéria, porque raio eu como filha desta unidade não haveria de receber influências dela?

Normalmente pergunto o signo às pessoas e a menos que sejam dos signos mais abertos e sensíveis, a pergunta é sempre a mesma: “Não me digas que acreditas nessas coisas”. Eu sorrio. Quando nascemos, naquele único e exato momento, todo o universo vivia. Os planetas giravam e estavam numa determinada posição quando vi a luz do dia e berrei pela primeira vez. Se tenho certezas? Nenhumas. De nada. Mas porque não pôr a hipótese de que, se calhar, somos muito menos e muito mais do que nos imaginamos? Eu sou apaixonada pela minha insignificância, pelo quão volátil, substituíveis, pelo desprezo com que simplesmente a nossa existência pode acabar, num ápice.
O que está à nossa volta é tão maior que nós. Nos últimos séculos o homem conseguiu evoluir tecnologicamente, inventámos curas de doenças, construímos obras de arte com as nossas próprias mãos, desenhámos máquinas para tudo, mas as perguntas continuam as mesmas. Fazemos as mesmas perguntas que os filósofos da Grécia Antiga faziam, identificamo-nos com personalidades e formas de ver de gente que já não passa de pó.

Porque não importa o quão grande conseguimos construir um prédio, seremos sempre pontos mínimos neste enorme cenário.
Há uma semana, numa reportagem para o jornal em que trabalho, sobre pescadores ilegais, eu falava com dois homens, em pé. Estava a tentar conquistar-lhes a confiança quando vejo um senhor magrinho, de cabelo branco, comprido, apanhado num rabo de cavalo a observar-me.

Dirigi-me a ele.
– Também é pescador?

– Não sou não senhora. Qual é o seu signo?

Achei fascinante como é que naquele cenário alguém que me responde pela primeira vez se sai logo com esta pergunta.

– Sou peixes.

-Eu sei. Também eu sou. A menina tem a bondade toda nos olhos. Os peixes são todos assim, olhe que eu sei muito sobre estrelas.
Ao ouvir isto, sentei-me ao lado dele e perguntei.
-E o que é que elas lhe dizem sobre este mundo maluco?

– Acha o mundo maluco, sente-se perdida?

-Até sinto. Mas cada vez menos, tenho conhecido muita gente diferente que me dá alento.

Ao olharmos para as águas do rio, cheia de gente que se movia para buscar do que viver, suspirou e respondeu-me:

  – Pois é e sabe porquê? Está tudo a mudar menina. São novos tempos, hora de acordar. Sabe o que diziam os antigos? Aproximam-se momentos de luz.

A galope

De todo o passado foste o único fragmento de tempo que me apagou da história. Apagar uma mensagem que não gostei de ler não significa que me esqueça que a li, mas também não me faz acreditar que dói menos. Mas eu respeito, como tento respeitar tudo o que não entendo.

Ao longo dos anos fui aprendendo a aceitar o meu passado, os eu’s de quem não me orgulho, as vicissitudes que uma alma inconsequente me foi dando enquanto me moldava ao tempo e ao espaço que nasci para ser.
Cresci com um calor imenso no corpo. Começa no peito e sinto-o espalhar-se por cada veia, emergir por cada poro. É um calor que nem sempre é cómodo, por vezes queima, sufoca. Quero sempre viver tudo como se não me permitisse respirar e parar para absorver todas as partículas de ar fresco que cada experiência nova me dá. Mas eu sou mesmo assim, não me posso negar.

Como aprendi a respeitar o meu passado e, sobretudo, a aceitá-lo, não guardo mágoas de ninguém, nem mesmo de ti.

É engraçado que desde pequenina eu sonhava que galopava um cavalo selvagem, numas montanhas acidentadas, estava sempre com medo, a olhar para trás. O sonho que se repetiu durante anos, acontecia sempre no meio de muitas batalhas. Eu estava sempre a combater junto dos locais contra invasores e morria sempre com uma facada, um tiro, uma machadada nas costas. Sempre, sempre, sem excepção. Durante mais de vinte anos acordei a transpirar com a sensação de negligência, por nunca chegar a perceber quem é que me matava. Como é que me podia distrair daquela forma e deixar que me destruíssem da forma mais vil de todas? O sonho que se seguia quando voltava a adormecer, porém, era sempre de alívio. Do tormento padecia a paz e eis que dormia sossegada a partir de então.

No dia em que te conheci, sonhei que estava numa praia, havia uma casa enorme onde estavam todos os meus amigos e família. A casa começava a arder e todas as minhas pessoas entravam num estado de loucura e emergência desesperada. Eu, calmamente, caminhava entre as pessoas e dizia-lhes: “Não tenham medo, isto é o meu sonho, não é real. Posso fazer chover”.

E vai daí que várias gotas espessas começaram a cair, mas a casa ardia na mesma. Eu não estava preocupada, habituei-me às maravilhas dos sonhos lúcidos e à confusão de guardar memórias deles, baralhando-me várias vezes com o que já terá sido, ou não, real. Faz parte da vida dos que sonham muito, habituarem-se ao limbo e à rendição à fantasia.

Lá no meio da confusão, a caminhar à beira mar aparecias, com o ar mais calmo e natural do mundo. Quando finalmente chegavas ao meu lado, envolvias-me num abraço e o incêndio da casa desaparecia num ápice, como se nunca tivesse lá estado.
Quando estive, há pouco tempo, numa situação de trabalho que me fez ver casas, carros e sonhos queimados, lembrei-me várias vezes deste sonho e da agonia que será não termos quem nos abrace em momentos de sufoco, quando a vida grita por socorro mas ninguém nos ouve. É quando sentimos a dor verdadeira da condição humana, não é? Quando nos vemos ou imaginamos sozinhos no meio do caos, do delírio, da morte. Afinal das contas, ninguém vai connosco na hora de partir. Não há abraços que nos valham, a alma não resiste, nem mesmo ao toque.

E eu há seis anos era uma miúda, impressionada por uma casa que continuava a arder, mesmo num sonho lúcido, mesmo quando fazia chover e que só parava quando me guardavas nos braços. Há seis anos era uma menina. Um casulo de uma larva em resguardo para o que a vida me guardava. Só soube o que era viver quando me dilaceraste em pedaços, como só a traição do amor nos faz sentir, e nunca mais sonhei com facadas nas costas. Nunca mais morri em sonhos, nunca mais casas arderam na minha noite. Os meus sonhos foram durante anos contigo, até que desapareceste e me deste a paz que eu mereço. A ironia dos símbolos e da arte da mente são de arrepiar. Explorarmos a massa cinzenta dá trabalho mas faz-nos chegar ao ponto da montanha em que o nevoeiro ficou para trás, lá bem em baixo. Vemos as cores reais de que somos feitos e não há amor que nos valha, a verdade é crua e não tem de ser apreciada. Ela não quer saber.

Há seis anos, neste mesmo dia, cruzávamos as linhas onde as sinas são registadas, segurávamos as palmas das mãos como se corrêssemos o risco de cair daquela fusão de corpos e emoções. Como se houvesse mãos que nos salvassem.

E o bonito disto é que te deixei ir, sem te esquecer porque não me esqueço de nada ou de alguém, mas sem saudade, sem vontade de te ver, sem qualquer filamento do passado em suspensão.
Deixar ir é um processo que nos tira anos de vida, é deixar uma droga, um vício que nos mente sobre o que era ou não saudável, sobre o que era ou não amor. Mentimo-nos porque nos agarramos a uma nostalgia que nos padece. Acredito que se todos nos permitíssemos perdoar, sentir toda a dor que nos está gravada nas palmas das mãos e nos deixássemos seguir o caminho aceitando que é tempo de deixar ir, todos seríamos menos presos à saudade, ao que podíamos ter sido, aos amores que nos dilaceram o peito.

Eu não fui feita para ficar presa a nada, muito menos a alguém. Eu vim aqui para sentir o calor dos peitos, para os deixar extravasar pelos poros, para contagiar os que me rodeiam, sem que os permita deixar feridas abertas.

Foi por isso que aprendi que a honestidade, o dizer o que me vai na alma, o nunca guardar para mim o que sinto ou penso é o melhor caminho de libertação. Falar com o coração na boca, sem medo da rejeição, sem me guardar aos caminhos da repressão alheia e da vergonha, o simplesmente viver sem temer que me fujam tem sido o caminho mais libertador, mais feliz e o que me tem dado o melhor da vida. Claro que nem sempre é fácil, há tropeções que me deixam marcas. Mas o melhor que aprendi desde que me partiste em pedaços, foi a viver, a respirar. Talvez nunca tivesse aprendido a aproveitar tanto os momentos que a vida me dá, por mais fugazes que sejam, se não tivesses despedaçado todas as certezas que tinha.

Ninguém tem que ficar, a menos que esse seja o seu maior e incontrolável desejo e, enquanto não houver quem se sinta assim, é porque não é para deixar ficar. É para deixar ir.

Nada, mas absolutamente nada tem o sabor da liberdade que tenho em mim hoje. E, deixa-me que te diga que hoje, seis anos depois da primeira vez que fizemos amor, voltei a sonhar com o cavalo selvagem. Montava-o, a galope, numa enorme planície verde, coberta de flores brancas. O cavalo já quase não pousava as patas no solo. Voávamos. E sempre, absolutamente sempre sem  que eu tivesse a preocupação de olhar para trás.

 

Foto: Diana Tinoco

O inferno em Pedrógão Grande

Texto publicado no facebook a 18.06.2016 – Foto Diana Tinoco

Agora que eu e o Sebastião R. Bugalho terminámos o texto que sairá amanhã no Jornal i, e que a Diana Tinoco já reuniu o excelente trabalho fotográfico que realizou desde esta madrugada, posso escrever-vos com mais calma.

Ontem à noite, estava eu num arraial, no Largo da Rosa, na Mouraria, a cheirar a sardinhas assadas e a dançar com a alegria que só os santos trazem a Lisboa, quando o diretor do Jornal me ligou. “Amanhã vais para Pedrógão, ok?”
Ok.
E viemos. Por muito que tivéssemos lido e ouvido tudo que era notícia, nada previa o que iríamos encontrar.
Hoje tive a experiência mais puxada, mas intensa e mais marcante da minha vida. Engasguei-me mil vezes com o fumo, chorámos como desalmados enquanto os olhos nos ardiam, famílias abraçaram-nos em lágrimas como se de alguma forma pudéssemos trazer algum tipo de conforto.
Não tínhamos rede nos telemóveis, não tínhamos internet. Tínhamos só a frustração de querer partilhar com o mundo o que se passava e de não o conseguirmos fazer.
Para não aparecermos nas televisões, fiquei com os joelhos em sangue enquanto tentava gravar declarações do primeiro ministro e trocava olhares e caras de compreensão “I feel you bro” com outros jornalistas de quem sempre fui fã, como quem suplica por uma posição diferente com urgência.
O cheiro a fumo, o surro das nossas caras e preto das nossas unhas amanhã já não estão cá. Mas rostos de quem nos contou o que viveu, esses vão ficar para sempre marcados nas nossas memórias. O companheirismo, o espírito de equipa e a coragem que partilhei hoje com estes meus dois colegas e amigos do coração, esses vou trazer para sempre comigo no peito.

Agora, finalmente, vamos comer alguma coisa e seguir viagem. Amanhã novos colegas virão para cá.
Obrigada de coração a todas as mensagens .

 

Reportagem completa em : https://ionline.sapo.pt/568382?source=social)

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Haveremos de continuar a andar descalços nas ervas e a beijar em parques, a saltar em concertos e a correr nus na praia. Se explodir a maldade, o sangue e o ódio, temos a benção de algures numa rua desta vida termos cruzado olhares, trocado palavras, abraçado a saudade.
No meio do caos do universo há um planeta de sonho em que criaturas de amor se perdem por trocos e, lá no meio, estávamos nós, com a sorte e a dádiva de não estarmos no local errado à hora errada, de não termos nascido onde o sol se põe entre destroços, onde famílias fogem para ser, em cidades que ecoam o desespero . Gratidão é o silêncio, dai que me calo.