Aqui não se passa nada

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 Resende, 4 de Setembro 2016

Acaba de pousar, à minha frente, uma daquelas borboletas amarelas que vêm atraídas pela luz sarandar, como quem está baralhada, no interior das nossas casas. Se eu tivesse asas não ia para dentro de uma casa, mas eu percebo, a nossa cozinha é um bom canto para esvoaçar.

Se eu fosse mais nova, ou mais tonta, pegaria no meu chinelo e como que, com o poder que ninguém me deu, estalar-lhe-ia com uma chinelada, cada um daqueles bonitos filamentos, que mal nenhum me fizeram. Mas deixo-a estar. Até fica bonita ali camuflada nas riscas amarelas do sofá, perto do meu pé esticado.

Estou sozinha em casa, todos sairam. Algures, num povoamento aqui bem perto, há uma festa que deixa escapar o som de música popular de má qualidade. O prédio está silencioso, mas cheio de gente. Faleceu um ente querido dos nossos vizinhos e amigos. Sinto as lágrimas dos sofredores, embora não consiga chorar. Há muito que não choro, a não ser quando tenho um dos meus ataques de pânico, aí não há quem me pare de chorar.

O relógio marca as onze e meia e eu só o sei porque ouço o sino da Igreja, lá no cimo da colina, a avisar. Lá fora, só o silêncio. Adoro o silêncio. Traz-me quase tudo o que procuro na multidão. De alguma forma faz-me companhia, não me sinto sozinha no meio do silêncio, ao contrário do que sinto quando estou no meio de gente.

Pela vila, caminham meia dúzia de pessoas, umas com ânsia de perder peso no corpo, outras na alma. Hoje não quis caminhar, normalmente quero queimar a gordura saturada de quem pensa demasiado na vida, mas hoje as minhas hérnias da coluna gritaram mais alto, por isso estatelei-me no sofá. É uma boa desculpa, já que a verdade condiz com o facto de me ter deixado abafar pelo que a morte me dá de pensar.

A minha mãe chegou, está a vestir o pijama, farda oficial dos Carvalho cá na terra. Se estamos em casa, estamos de pijama, a menos que nos dê a preguiça ou não tenhamos bem a certeza de quem somos em determinado instante. A minha mãe vai despejar o lixo de pijama, comprar cigarros de pijama, eu vou levantar correio de pijama, já toda gente nos conhece a farda.

Quando fomos dar os sentimentos à família que perdeu um dos seus, passou um carro com a música muito alta com um casal de namorados com cara de amuo. Numa rua a cima, havia pessoas a jantar fora e a falar alto. Na vivenda ao lado, uma senhora fumava um cigarro num alpendre, sentada num banco de pano, daqueles de romaria. Ao chegarmos à capela, soube-se do nascimento de uma bebé, filha da irmã de uma amiga minha. A vida e a morte, no mesmo espaço, em dimensões diferentes. Vimos a fotografia, bem-vinda ao mundo, pequenita. Passei por um amigo que se vai casar em Outubro, desejei-lhe sorte, ele desejou-me boa viagem.

Nas terras pequenas, todos se conhecem. Sabemos de tudo, mesmo sem querer. Se alguém nasce, ou se vai embora, se arrota ou se peida, todos sabemos em questões de minutos, quando muito, numas horas. Eu normalmente sei passado meses. Mas não é por mal. Uma vez, quando tinha 7 anos, ligaram à minha mãe da câmara a perguntar se eu tinha sido raptada, mas eu estava sentada ao lado dela. Tinha sido um colega meu a espalhar o boato na escola. Quando era miúda isto tudo irritava-me, hoje acho piada. Hoje acho bonito.

Eu cresci nestas ruas, foram estas pessoas que me viram crescer. Aos 8 anos recrutei uns colegas, imprimi umas folhas que em comic sans diziam “Por favor, reciclem. Vamos salvar o planeta” e colei, com as devidas autorizações, nas janelas das lojas por onde passo hoje em dia, quando vou fazer algum recado à minha mãe. Esses cartazes feitos no windows 98, estavam numa disquete que tinha escrita a legenda “Clube do Ambiente” e iam enrolados numa mochila, enquanto apanhava lixo da rua com sacos plásticos na mão. É engraçado como nos mantemos fieis a tantas das nossas determinações de fedelhos. Eu, pelo menos, não me permito matar essa miúda despachada a lutar pelo que acredita. Ainda que, com o tempo, se torne inevitável olhar para as vitórias como mitos lendários.

Esta terra lembra-me sempre de quem eu sou.
Quando estou longe, sinto falta do bom-dia a toda gente que passa, da padeira, da peixeira, da Dona Dolores do talho que me dá um abraço sempre que me vê, da dona Luísa da mercearia ao cimo da rua, dos senhores sentados à porta do café do senhor Vieira.
Às vezes até chego a sentir falta dos bons-dias que não me dão de volta e que à gargalhada me responde a minha mãe ou a minha irmã, se estiverem comigo, para eu não ficar desolada.
O meu pai também já chegou. As televisões já estão ligadas. O manjericão que tenho na janela da cozinha já é demasiado grande para o vaso que lhe demos. A borboleta acabou de sair pela janela aberta que usou para aqui entrar. Alguém está a estacionar, ali atrás, no parque do prédio, onde aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas.

Uma vila pequena, tantas janelas com as luzes acesas, tantas curvas, tanto verde. Tantas linhas neste texto. Mas como sempre, ouve-se a reclamação do costume na esplanada de um café: “Nesta terra é sempre a mesma coisa, nunca se passa nada”.

Todos acenam, encolhem os ombros, mas todos sabemos que não é verdade, todos sabemos que não tarda nada, alguém não muito longe daqui, virá com a novidade que alguém se acabou de peidar.

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