Vento na cara

Foto: Joana Jorge

Dois dias antes de viajar para a Alemanha apanhei um grande susto e, pela primeira vez em muito tempo de partilhas na internet, ponderei se haveria de escrever este texto; porém, por respeito e admiração a todas as pessoas que passam por situações semelhantes e infelizmente sem a minha sorte, decidi escrevê-lo.

Sempre tive muitas dores de cabeça, desde miúda. Mais tarde vieram as enxaquecas com tudo a que dão direito. Aos 17 anos, na época dos exames nacionais de décimo primeiro ano, as características das minhas dores mudaram e eu deixei de conseguir dormir, tive mesmo um episódio em que deixei de ver por uns segundos, vários momentos que mais tarde descobri serem ataques de pânico e, pronto, estava mais que visto que devia ir ao médico.

Marcada a consulta no hospital de S.João, eu e a minha mãe fomos juntas de comboio de Resende para o Porto, na maior tranquilidade, lembro-me que nem carteira levei comigo. O plano era irmos ao hospital, depois passearmos pela baixa onde compraria o habitual bilhete para o Paredes de Coura e lá voltaríamos felizes da vida para Resende.

A neurologista que me viu era conhecida da minha mãe, fez-me os exames clínicos todos, mas por via das dúvidas achou por bem mandar-me fazer uma TAC. Quando tive de repetir o exame, agora com contraste, lembro-me de dizer à minha mãe que aquilo não me parecia ter sido bom sinal.

Passados uns 40 minutos de espera, numa sala para onde me tinham encaminhado, uma médica de cabelos aos caracóis (que mais tarde se veio a revelar uma das melhores médicas e pessoas do mundo) e um médico magrinho de olhos claros dirigiram-se a nós com a notícia que me tinham encontrado um vaso dilatado no cérebro, que não sabiam o que era, nem se o sangue que circulava era venoso ou arterial, podendo ser um aneurisma e que por isso eu teria de ficar internada para fazerem mais exames, sem haver a hipótese de sair dali sem que tudo fosse esclarecido.

Eu acho que todos os dias, quando acordo, me lembro da sensação que aquele momento me trouxe. São precisos apenas microssegundos para vermos toda a nossa vida passar-nos em frente dos olhos, como quando acelerava o “rewind” do VHS lá da sala de jantar. O chão foge-nos, lembramo-nos de todas as pessoas a quem queremos o melhor do mundo e, de repente, o que nos atormentava e as comichões de ontem são imperceptíveis. A relatividade das coisas passa a ser monstruosa.

Eu reajo sempre muito calma a situações que prometem o caos, talvez por guardá-lo dentro de mim desde que me conheço,  mas a minha mãe estava em pânico e ainda teve de voltar para Resende, lá haveria de me preparar um saco, já que nem carregador do telemóvel tinha e, entretanto, a minha tia Mena cheia de carinho levou-me um pijama ao fim do dia. Eu lembro-me de assistir àquilo tudo sem grande alarido, embora por dentro gritasse.

Eu não sabia sequer se tinha de ir à segunda fase dos exames, havia tantos planos para as férias, que ridículas me pareciam todas essas preocupações agora que estava deitada naquela cama de hospital. A ala de internamento de neuro estava lotada e por isso fiquei internada no piso de gastro. Eu era a mais saudável de todas aquelas pessoas embrenhadas em lençóis brancos, com famílias a chorar, máquinas a apitar, noites inteiras a vómitos e gemidos.

Estive internada 15 dias e talvez, se um dia escrever um livro, possa dedicar as páginas merecidas aos dias extraordinários que lá vivi, assim como explicar a mudança que trouxeram na minha vida tanto as pessoas que vi morrer, as lições das histórias que partilharam comigo doentes que lá estavam há meses, as visitas inesperadas que me fizeram pessoas que eu não esperava, o amor que senti de tanta gente, ou até mesmo o episódio em que fugi às escondidas, a meio da madrugada, com outras duas raparigas pelos corredores do hospital, porque uma delas tinha ouvido falar de uma janela aberta no piso de traumatologia e nenhuma de nós sabia o que era sentir o vento na cara há muito tempo.

Felizmente, no final das contas, o tal vaso dilatado era a minha veia de Galeno, o sangue que lá circulava era venoso como era suposto e parece que este tamanho estúpido teria já sido defeito de fabrico, tendo sido a pressão compensada pela Mãe Natureza.

Eu era uma miúda a crescer em Resende, no meio do verde, do rio, só queria jogar voleibol e divertir-me com os meus amigos. Nunca tinha apanhado uma bebedeira, nunca tinha feito grandes maluquices, gostava de dançar descalça e de correr no meio das árvores das terras do meu avô. Era péssima a expressar sentimentos, era pudica, pensava demasiado em  vez de arriscar, guardava tudo cá dentro e era bastante responsável e prudente. Escusado será dizer que a  minha percepção em relação à vida mudou drasticamente. Se desde criança a vontade de me mexer, de conhecer e de viver era já de uma imensa força, a partir do episódio desse verão, a minha dedicação a saber aproveitar o facto de estar viva e a demonstrar o bem que queria aos que me rodeavam quadruplicou.

Era uma larva, saí daquele hospital borboleta e deixei de guardar os sentimentos para mim, evitei ser bruta como de costume, transformei toda a confusão que estava guardada em mim em amor e energia para ser alguém melhor.

A minha insignificância sempre me fascinou, a nossa pequenez nesta imensidão de matéria e espaço, a volubilidade com que passamos de vivos a mortos, a falta de sentido em todo este processo de existir, mas eu ainda não tinha sentido o respeito que estar vivo merece, precisamente por ser fruto de uma aleatoriedade tão fortuita.

Saí daquele lago de água fria a sentir-me abençoada pela sorte, como quem se safou por um triz de levar com uma cacetada e a primeira coisa que fiz quando entrei no carro do meu pai foi meter a cabeça de fora da janela e sentir o vento na cara pela primeira vez na vida. De olhos fechados pensei nas minhas companheiras da fuga nocturna, elas não teriam a mesma sorte que eu tão cedo.

Depois deste incidente, a cada unha encravada que me aparecesse eu não hesitava em ir ao médico. Claro que estou a exagerar, mas basicamente nunca mais adiei uma ida ao médico, acho que é normal depois de apanharmos um susto e admito que acabo por ter pouca paciência com pessoas que se recusam a ir ao médico, quando há coisas graves que podem ser tratadas a tempo se as pessoas tiverem cuidado.

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Felizmente de todas as maleitas que vou tendo, desde operações aos pés, a hérnias numa coluna que me dá muito que fazer, a verdade é que são sempre coisas menores, nada comparáveis aos centenas de carcinomas que já vimos aparecerem em familiares, amigos, mães e pais de amigos, vizinhos, conhecidos.
Cresci com uma mãe que acompanha tudo que é gente ao IPO, ouvi sempre falar da Rosa Maria, uma das melhores amigas da minha mãe, com quem partilhava quarto na Universidade, que faleceu com cancro, vi muitas pessoas que me são queridas morrer cedo demais com cancros pesadíssimos, o meu avô foi um sobrevivente que vinte anos depois viu o pesadelo voltar com toda a força, por isso cá em casa sempre tivemos um enorme respeito por este monstro que assombra tantas famílias.

Dois dias antes da minha viagem, estava já com as malas a meio, decidi ir deitar-me. Já sei que mesmo que esteja com muito sono, quando chego à cama há sempre um processo delicado de me fazer desligar da realidade. À noite a minha mente acelera e tudo que é possibilidade remota, decisão mal tomada no passado ou preocupação surge nesse instante.
Aprendi com o tempo a amar dormir sozinha e por isso tenho o hábito de, para relaxar, fazer festas em mim. Acho que é muito saudável sabermos tocar no nosso corpo, sentirmos os nossos pés, os joelhos, os ossos das ancas, sentir-me a barriga, o umbigo, o recorte do meu peito. 

Foi precisamente quando cheguei ao meu peito que o meu coração parou. A exata sensação daquela tarde em frente a dois médicos desconhecidos com uma novidade que me fez rever cada pedacinho do meu passado, mas agora ali sozinha, no quarto da casa que ia deixar dali a duas semanas.
Dei conta que por baixo da minha mama esquerda estava um nódulo, um dos que apesar de invisível aos olhos, metem respeito e nos mandam ir a correr ao médico.

Se fosse uma situação normal eu jamais teria esperado um minuto que fosse até ligar para a minha mãe, no entanto, eu tinha a viagem para a Alemanha daí a um dia e achei que o melhor era guardar o segredo comigo. A verdade é que sendo o nódulo benigno ou maligno, não fazia sentido eu perder aqueles 8 dias só para mim, tão merecidos, porque nada iria mudar. Ele estava ali, eu sabia agora da presença dele e restava-me encarar a realidade sem deixar a minha família em agonia durante tanto tempo.
Nessa noite dormi muito pouco, aliás eram sete e meia da manhã quando fechei os olhos. Fiz uma enorme meditação sobre tudo, acabei de fazer as malas e concentrei-me em tudo que de melhor tenho na vida.

No dia seguinte fui almoçar com um amigo, ele estava absolutamente longe de imaginar o que me ia pela cabeça, sabia apenas que ao outro dia eu ia viajar. Ele faz parte do clube que não acha piada ao que escrevinho e estávamos a falar nisso quando ele me disse:

-Não é por mal sabes, mas irrita-me a tua forma positiva de encarar a vida. És demasiado optimista. 

Eu sorri, a olhar para a cerveja que tinha em frente, peguei nela, dei um gole como quem tem bastante sede e respondi-lhe:

-Não é por mal sabes, mas é demasiado bom poder sentir-me viva, só gostava que os outros pudessem sentir-se assim também.

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Quando voltei de Berlim, depois de uma viagem intensamente introspectiva, com muita maluquice, festa, tempo para estar sozinha, depois de muita meditação e tempo para organizar todos os pensamentos que me passavam pela cabeça, mostrei à minha mãe o nódulo já sabendo que lhe iria tirar o sono essa noite.
Por milagre, a médica que só vem uma vez por mês a Resende estava cá no dia seguinte e viu-me.  Felizmente foi mais um susto, o nódulo é benigno e tem apenas de ser vigiado. 

Quando saímos do hospital de mãos dadas, as duas, como naquela tarde em que fomos para o Hospital de S.João, estávamos em silêncio com um grande sorriso de alívio.
A minha mãe apertou-me a mão com mais força e disse :
– Naná, é mesmo bom sentirmos o vento na cara outra vez, não é?

Um 2016 confuso

Photo: Diana Tinoco

Isto não é um post como os que costumo fazer, mas sim alguns factos sobre o meu ano de 2016 que para uns serão um aborrecimento sem fim de ler (sorry!) para outros talvez a oportunidade de fazer chegar um bocadinho deste sentir que cá vai dentro.
Um sentir bom.
As minhas partilhas fazem confusão a muita gente, mas eu acho que é quando partilhamos que nos ajudamos verdadeiramente uns aos outros. E eu não tenho nada a esconder.
2016 é um ano sinistro para mim, mas quando acho que não pode atrever-se a mais… eis alguns factos que não poderia deixar de notar:
-Em Janeiro de 2016, Ainda na minha odisseia em Lisboa, fui convidada para fazer parte da equipa principal da tal startup que já estão fartos de ouvir falar, Owlascend, com base em Los Angeles
-Em setembro de 2016, la vou eu para os ditos States a pensar que é para ficar por uns tempos, será desta estabilidade? Será desta?trolololololol, respondeu ela.
-Vamos a uma porção de eventos e pitchings e somos aconselhados a continuar o projecto mas que em troca de financiamento deveríamos fazer alterações de Branding . Ok tudo certo até ai, sempre defendi que era preciso mudar a comunicação do projecto.
– O fundador do projecto numa reunião intensiva de brainstorming lança o nome Umazed, a explicação fez todo sentido a toda a equipa e qualquer pessoa consegue perceber a ideia de nós próprios sermos um labirinto, de estarmos constantemente perdidos naquilo que somos no final das contas e no que queremos, afinal,tirar disto tudo. Juntou-se ainda o contributo, soube mais tarde, da palavra que mais repito em Inglês ser ”amazing”, assim como em português é a palavra ”incrível”, motivo de gozo óbvio, mas que eu juro que tento controlar mas pronto, não deu ainda. Eis que de tanto amazing amazing, amazed, Umazed lá veio à luz.
-No processo empresarial uma das pessoas que conquistámos para a nossa equipa de liderança começou a tratar-me por AI, iniciais do meu nome, mas também da tecnologia da nossa aplicação, chegando o pedido lá de cima que num futuro próximo eu fosse considerando essa forma de me apresentar no projecto como hipótese. Ri-me, mas porque não?
– Voltei de Los Angeles para onde é suposto regressar no final desta maré de burocracias e mundos que não compreendo ainda muito bem e eis que dou por mim a começar de novo, ainda que não seja do zero.
-Resende. Passados tantos anos desde que sai de casa. Não ia dar para muito tempo.
-Alugo uma casa na baixa do Porto como sempre quis, trabalho em dois restaurantes em todos os turnos possíveis até conseguir um horário diurno, enquanto trabalhava para os USA e para uma empresa de transcrição de entrevistas.
-Apaixono-me como já não acontecia há muito muito tempo, a história como todas começa lindamente e chega rapidamente a hora de ter um fim. De alguma forma a nossa geração assume que de um dia para o outro podemos passar de ”O mundo” a um ‘estranho’ como quem pisca os olhos. Mas eu ainda não me habituei muito bem a isso, fica para 2017.
-Estou outra vez sozinha, como há alguns anos aprendi a adorar estar, e dou por mim exausta e sem dinheiro para manter a tão desejada independência dos meus pais que quero assumir de nariz empinado.Dou por mim a dispensar do meu canto só meu, e a dormir numa espécie de despensa, à qual quero muito chamar escritório, para ajudar a ter dinheiro para as despesas, enquanto pessoas lindas e felizes dormem no meu quarto fofo.
-Despeço-me ao final de dois meses de trabalho no restaurante e eis uma nova jornada de currículos e cursos online, enquanto não faço ideia do que ando para aqui a fazer.
-Hoje, depois de seis horas no hospital com uma crise de coluna absurda, que mais cedo ou mais tarde há de ser operada em condições, a dois dias de acabar o ano acabo a última das duas séries que vi nestas últimas semanas: OA e Westworld.
Westworld que se centra na busca incessante de respostas a um “maze”, labirinto, de consciência e humanidade. OA uma série com uma cinematografia linda mas com um argumento um bocado nhe. A miúda assume uma consciência diferente do normal e passa a auto apresentar-se como OA. ( ambas descrições fracas mas evitando spoilers)
– Sendo que ambas as séries tiveram os seus primeiros episódios lançados depois da minha estadia em LA só posso ver tudo isto com um grande sorriso na cara, com as coincidências e piadas desta aleatoriedade que só a nossa existência nos permite desfrutar.
-Tal como nas duas séries, o meu ano foi de uma confusão absurda, lições em forma de peças de puzzle incompleto, revelando-se no fim uma verdadeira oportunidade de auto conhecimento e amor próprio.
Este 2016 foi uma montanha russa.
Nas montanhas russas o subir é descansado, excitante e doloroso, toda gente sente aquele frio na barriga porque ainda não caiu, mas sabe sempre que é uma hipótese quase certa algures. Já o descer é fodido, é cheio de adrenalina, é querer sobreviver e agarrar com a força toda o cinto de segurança. É gritar, rir, chorar por socorro e ninguém nos sentir, porque apesar de ouvirem e perceberem,também estão todos a meio das suas jornadas.
Mas aí vem o momento em que percebemos o verdadeiro prazer escondido de uma montanha russa: O prazer de levantar os braços, cagar na segurança, porque na verdade pouco há a perder, e aproveitar ao máximo a descida, com todas as emoções e ensinamentos que ela nos proporciona.
Servi no restaurante muitos dos meus colegas de faculdade que me orgulhei de ver saírem bem vestidos dos seus empregos para almoçarem no mesmo espaço em que eu trabalhava, servi imensos casais apaixonados a desfrutarem das suas empáticas conversas cheios de alegria e amor, assim como limpei as sanitas onde foram dispensar o almoço acabado de pagar, e nunca na minha cabeça me passou a ideia de os invejar ou de desdenhar do valor dos seus percursos. A essência de sermos humanos é o amor e é isso que nos mantém vivos, não há porque não nos permitirmos amar os que nos rodeiam, mesmo que não os conheçamos.
Normalmente, já devíamos saber, depois de uma grande descida há de aparecer outra subida e, se não aparecer, que se lixe amigos, isto um dia acaba tudo, que acabe de braços no ar e a sensação de consciência tranquila.
Sejam muito felizes, hei de ficar sempre feliz por vocês.
Um corajoso e arejado 2017 a todos ❤️
Amem-se muito, a vocês e entre vocês.