Los Feliz (português)

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 Los Angeles, 22 de Setembro 2016

Por onde hei de começar?

Em primeiro lugar, isto de estar oito horas atrasada, ainda não me assentou bem. Sinto que chego atrasada a todas as vossas mensagens e os telefonemas de bom-dia aos meus pais estão um bocadinho descoordenados.

Estão 28 graus, 80 e tal por cento de humidade, faz sentido que toda gente ande tão descascada. Nas estradas só se veem grandes carros, vidros fumados e umas limousines aqui e acolá.

Nos primeiros 5 minutos que saí de casa vi um actor a atravessar a estrada, não me lembro o nome dele mas é de uma série qualquer engraçada, usa óculos e é cheiinho. Pelos vistos é super normal ver gente conhecida, já que a casa onde estou é super perto de Hollywood.

As pessoas são super atenciosas e simpáticas, há um ar fashion misturado com um estilo super relaxado em todo lado. O trânsito aqui não me assusta, as avenidas são super largas, os carros sabem comportar-se, há que lembrar que já vivi em Roma, por isso comparado ao que vivi lá, Los Angeles sabe-me a céu da estrada.

Há palmeiras em todo lado, a cidade é rodeada de montanhas e os bairros tipicamente americanos, verdes, cheios de casas incrivelmente bonitas (pelo menos na zona onde estou) fazem esquecer o facto de se estar no meio de uma cidade gigante.

Hoje fomos procurar sítios para filmar uns vídeos para a Owlascend, uma coisa simples só para ajudar os utilizadores a entenderem do que se trata, e acabei por ir ao Griffith park e consequentemente ao Griffith Observatory, que além de ser grátis, tem uma vista do outro mundo sobre a cidade. Lá assisti a um espectáculo lindo sobre o Espaço e a mitologia Vicking. Aqui é super fácil ser-se vegetariano, a comida nos sítios a que fui era absolutamente incríiiiiivel mas sim, já vi Mac Donalds!

Isto ainda me parece tudo um sonho, não há dúvida que o choque cultural é imenso, ainda que estejamos tão familiarizados com os EUA, graças à indústria dos filmes. Sinto que toda a minha vida dava um grande filme, mas todos temos essa impressão,não é?

Pelos vistos aqui não se janta, mas como tenho estômago de portuguesa, vou me fazer ao prato!

O bairro onde estou hospedada chama-se Los Feliz, acredite-se ou não em coincidências, faz sentido

Chegada aos USA

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Boston, 20 de Setembro de 2016

Percepção dos Estados Unidos em menos de 24 horas:

– Em primeiro lugar, tipo…estou a usar net grátis em pleno avião, wtf?

– Pedi um quarto simples num hotel de 3 estrelas, deram-me um com cozinha, sala de estar, mega banheira e duas televisões maiores do que eu.

– O jet lag não é mito, sinto que vos estou a falar do passado.

-Quando pedi uma informação a uma senhora, ela pediu-me só dois segundos que tinha meeeesmo que postar uma foto no instagram e, a seguir, tive de esperar numa fila para poder tirar a fotografia ao céu incrível que me recebeu em Boston

– As pessoas foram uma simpatia, desde a polícia à senhora colombiana de sessenta e tal anos que se sentou à minha beira no aeroporto para conversar em espanhol. Chegámos à conclusão que “és un mundo loco este, pero hay que saber vivir-lo”

-Mal cheguei vi logo daquelas mega lavandarias que vemos nos filmes com as pessoas à espera da roupa lavada, fez-me lembrar o momento de socialização que era para mim ir lavar a roupa quando vivi em Cabo Verde, tirando a parte de que lá, lavávamos à mão, com água comprada em garrafões

-Continuo sem acreditar que estou a usar net no avião

– Ainda faltam 5 horas de viagem :help:

– Ainda não vi ninguém obeso, nem nenhum Mac Donalds

Obrigada a todos pelas mensagens incríveis que me têm enviado, está tudo bem

Aqui não se passa nada

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 Resende, 4 de Setembro 2016

Acaba de pousar, à minha frente, uma daquelas borboletas amarelas que vêm atraídas pela luz sarandar, como quem está baralhada, no interior das nossas casas. Se eu tivesse asas não ia para dentro de uma casa, mas eu percebo, a nossa cozinha é um bom canto para esvoaçar.

Se eu fosse mais nova, ou mais tonta, pegaria no meu chinelo e como que, com o poder que ninguém me deu, estalar-lhe-ia com uma chinelada, cada um daqueles bonitos filamentos, que mal nenhum me fizeram. Mas deixo-a estar. Até fica bonita ali camuflada nas riscas amarelas do sofá, perto do meu pé esticado.

Estou sozinha em casa, todos sairam. Algures, num povoamento aqui bem perto, há uma festa que deixa escapar o som de música popular de má qualidade. O prédio está silencioso, mas cheio de gente. Faleceu um ente querido dos nossos vizinhos e amigos. Sinto as lágrimas dos sofredores, embora não consiga chorar. Há muito que não choro, a não ser quando tenho um dos meus ataques de pânico, aí não há quem me pare de chorar.

O relógio marca as onze e meia e eu só o sei porque ouço o sino da Igreja, lá no cimo da colina, a avisar. Lá fora, só o silêncio. Adoro o silêncio. Traz-me quase tudo o que procuro na multidão. De alguma forma faz-me companhia, não me sinto sozinha no meio do silêncio, ao contrário do que sinto quando estou no meio de gente.

Pela vila, caminham meia dúzia de pessoas, umas com ânsia de perder peso no corpo, outras na alma. Hoje não quis caminhar, normalmente quero queimar a gordura saturada de quem pensa demasiado na vida, mas hoje as minhas hérnias da coluna gritaram mais alto, por isso estatelei-me no sofá. É uma boa desculpa, já que a verdade condiz com o facto de me ter deixado abafar pelo que a morte me dá de pensar.

A minha mãe chegou, está a vestir o pijama, farda oficial dos Carvalho cá na terra. Se estamos em casa, estamos de pijama, a menos que nos dê a preguiça ou não tenhamos bem a certeza de quem somos em determinado instante. A minha mãe vai despejar o lixo de pijama, comprar cigarros de pijama, eu vou levantar correio de pijama, já toda gente nos conhece a farda.

Quando fomos dar os sentimentos à família que perdeu um dos seus, passou um carro com a música muito alta com um casal de namorados com cara de amuo. Numa rua a cima, havia pessoas a jantar fora e a falar alto. Na vivenda ao lado, uma senhora fumava um cigarro num alpendre, sentada num banco de pano, daqueles de romaria. Ao chegarmos à capela, soube-se do nascimento de uma bebé, filha da irmã de uma amiga minha. A vida e a morte, no mesmo espaço, em dimensões diferentes. Vimos a fotografia, bem-vinda ao mundo, pequenita. Passei por um amigo que se vai casar em Outubro, desejei-lhe sorte, ele desejou-me boa viagem.

Nas terras pequenas, todos se conhecem. Sabemos de tudo, mesmo sem querer. Se alguém nasce, ou se vai embora, se arrota ou se peida, todos sabemos em questões de minutos, quando muito, numas horas. Eu normalmente sei passado meses. Mas não é por mal. Uma vez, quando tinha 7 anos, ligaram à minha mãe da câmara a perguntar se eu tinha sido raptada, mas eu estava sentada ao lado dela. Tinha sido um colega meu a espalhar o boato na escola. Quando era miúda isto tudo irritava-me, hoje acho piada. Hoje acho bonito.

Eu cresci nestas ruas, foram estas pessoas que me viram crescer. Aos 8 anos recrutei uns colegas, imprimi umas folhas que em comic sans diziam “Por favor, reciclem. Vamos salvar o planeta” e colei, com as devidas autorizações, nas janelas das lojas por onde passo hoje em dia, quando vou fazer algum recado à minha mãe. Esses cartazes feitos no windows 98, estavam numa disquete que tinha escrita a legenda “Clube do Ambiente” e iam enrolados numa mochila, enquanto apanhava lixo da rua com sacos plásticos na mão. É engraçado como nos mantemos fieis a tantas das nossas determinações de fedelhos. Eu, pelo menos, não me permito matar essa miúda despachada a lutar pelo que acredita. Ainda que, com o tempo, se torne inevitável olhar para as vitórias como mitos lendários.

Esta terra lembra-me sempre de quem eu sou.
Quando estou longe, sinto falta do bom-dia a toda gente que passa, da padeira, da peixeira, da Dona Dolores do talho que me dá um abraço sempre que me vê, da dona Luísa da mercearia ao cimo da rua, dos senhores sentados à porta do café do senhor Vieira.
Às vezes até chego a sentir falta dos bons-dias que não me dão de volta e que à gargalhada me responde a minha mãe ou a minha irmã, se estiverem comigo, para eu não ficar desolada.
O meu pai também já chegou. As televisões já estão ligadas. O manjericão que tenho na janela da cozinha já é demasiado grande para o vaso que lhe demos. A borboleta acabou de sair pela janela aberta que usou para aqui entrar. Alguém está a estacionar, ali atrás, no parque do prédio, onde aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas.

Uma vila pequena, tantas janelas com as luzes acesas, tantas curvas, tanto verde. Tantas linhas neste texto. Mas como sempre, ouve-se a reclamação do costume na esplanada de um café: “Nesta terra é sempre a mesma coisa, nunca se passa nada”.

Todos acenam, encolhem os ombros, mas todos sabemos que não é verdade, todos sabemos que não tarda nada, alguém não muito longe daqui, virá com a novidade que alguém se acabou de peidar.

Dona Saudade

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 Lisboa, 22 de Julho de 201

Acontecem-me coisas surreais, isto claro, visto pelos olhos de quem é fascinada por esta vida engraçada.

Eu sempre acreditei naquela máxima do “quem está mal muda-se” e baseio as minhas decisões nela, hoje mais do que nunca. Acho importante termos a capacidade de perceber o que nos é bom ou não, e daí optar por procurar caminhos alternativos que nos sejam mais saudáveis.

E assim tenho feito em relação a tudo na minha vida. Quando não estou bem, mudo-me. Mas o engraçado disto tudo, é que ultimamente calha-me ter de mudar precisamente quando estou bem. Este ano em Lisboa foi uma trapalhada, não me dei com a energia da cidade quando cheguei, não percebia como é que tudo podia ser tão frio e fechado e não queria acreditar que a minha vida se ia resumir a um mestrado sendo, portanto, difícil querer ficar cá.

Não me encaixo, nem sonho fazer o jornalismo convencional. Eu quero andar pelo mundo, contar às pessoas a realidade humanitária que tentamos esquecer todos os dias, mas que não podemos. Quero abrir os olhos. Mas enquanto não posso nem consigo tal, sempre insisti em obrigar-me a fazer outras coisas enquanto estivesse por Portugal. Escrevendo como freelancer sobre histórias que me interessavam contar, mas sobretudo empregos noutras áreas, pondo-me à prova constantemente, adaptando-me. Lisboa foi a cidade em que me mantive distribuída por 4 empregos em simultâneo e 1 mestrado e, a sério, jamais me vou esquecer da loucura que é uma pessoa dividir-se desta forma. Descobri que adoro ensinar, ao ter, pela primeira vez, dado explicações de todas as disciplinas a um miúdo que adorei conhecer, descobri que consigo aconselhar mamãs sobre o que os seus pikis devem e podem vestir, fiz prendas à mão, comecei um novo projecto do outro lado do mundo a partir do meu computador e, por fim, lá fiz o primeiro ano do tal mestrado a que me propus.

Lisboa é, para mim, o caos da vida adulta. A tentativa de me descobrir enquanto jovem perdida, a embriaguez das noites quentes mas sem estrelas, a vivacidade da amizade de quem está como nós, a solidão que tanto prezo e, fundamentalmente, a vontade de voltar para o Norte.

Mas como sempre, calhou-me conhecer alguém que me fez gostar de cá estar, calhou-me ir a sítios que me fazem querer voltar, calhou-me que me está a custar-me muito mais do que contava empacotar tudo mais uma vez e pôr-me a andar.

Eu sei que coisas fantásticas se avizinham, mas às vezes parece uma maldição isto de começar a amar quando está na hora de me ir embora.

Lá na loja, há duas semanas, atendi mais um dos muitos telefonemas do costume.

A senhora quis saber como eu tinha passado, se lhe guardei o que havia reservado enquanto não esteve por cá. Eu nunca tinha falado com a tal senhora, sabia que era uma encomenda pesada que estava ali guardada, mas tinha que confirmar. A senhora falava com doçura, num tom sério mas leve, avisava-me que estava para chegar e para não me assustar, já que não se havia esquecido do que tinha reservado.

Achei de imensa gentileza, o acto de me querer prevenir da sua chegada, mas continuava sem saber com quem é que estava a falar:

-Agradeço a amabilidade, mas será que me pode relembrar o seu nome?

A resposta da senhora nunca mais me saiu da cabeça, o nome dela soou-me a profecia, a uma chamada de atenção de um universo que nunca está desatento.

– Claro menina, aponte aí por favor minha querida: ligou a Dona Saudade.

Moisés

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   1 de Julho 2016, Lisboa

Ontem conheci o Moisés. Estava sentado nas escadas do costume, à espera que o tempo passe, enquanto se lembra da família que está longe, pelo mundo. É tudo muito difícil, disse-me várias vezes, mas ele queria conhecer esse tal de mundo, queria ser jornalista. Estudou enquanto havia dinheiro, mas o dinheiro não era coisa fácil de haver.

Ontem perdi-me com os desabafos de quem não consegue fazer amigos em Lisboa, é tudo muito difícil. Tudo muito difícil, Ana. Ao final da noite, um cão mordeu-o no braço, ficaram três pontinhos elevados na pele, ficará cicatriz. Ao que parece, o cão havia sido vítima de maus tratos e abandonado por um homem negro, reagindo à defesa a todos os que encontra parecidos com ele. O Moisés ficou tão triste, só lhe queria dar uma meiguice e acabou mordido.

-Sabes o que é isto Ana?

– Diz-me Moisés.

– Não fiz mal, tu viste. Tentei fazer algo bom, acabei mordido. Sabes o que é isto, Ana? Isto é só a vida.

 

Caiu uma grua na minha rua

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Ontem caiu uma grua na minha rua. Já passei várias vezes por ela, desde que cá vivo. Nunca gostei de gruas, estão muito lá em cima, carregam coisas pesadas, parecem presas por um fio, as gruas dão-me arrepios. O senhor que a manobrava, conhecido por Inglês, parece que teve de ir para uma outra vida, em que talvez tenha sorte de escolher outro ofício. As pessoas que estavam no prédio em que a grua caiu, apanharam um valente susto. “O prédio tremeu todo” disse um senhor que lá trabalhava.


Desde ontem que isto tudo não me sai da cabeça. As vezes que eu olhei para aquela grua, aqui mesmo na minha rua, pobre grua que lá acabou por ceder ao peso que a faziam carregar. Não caias, não caias, pensei eu tantas vezes ao olhar para ela, enquanto de passo apressado e mãos carregadas descia esta rua. E o pobre Inglês, que a ajudava, foi com ela. Foram os dois.


E eu nunca gostei de gruas, muito menos nas minhas ruas, são daquelas manias, também não passo debaixo de andaimes, sabe-se lá se aquilo se aguenta.
Quantas vezes não estamos sobrecarregados, sentimos os braços cansados, mas não podemos vergar. Mas lá lhe chegou o dia. “Não aguento mais” deve ter pensado. Não a ouvimos queixar, só cedeu. E o Inglês, pobre coitado, não era de cá, era emigrado, ficou preso lá em cima, a vê-la cair. Pobre grua, pobre rua. Pobre Inglês. Nunca vou gostar de gruas.

Valentins

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Estávamos as três sentadas no sofá, a partilhar os últimos quadrados de chocolate que restavam no prato do costume, encostadas umas nas outras.

A Xaninha ao meu lado direito, de costas para o braço do sofá, com os pés debaixo do meu rabo, eu sentada de pernas à chinês encostada à minha mãe que se sentava sobre as suas próprias pernas, enquanto me fazia festinhas na cara. Nós tão quentes e lá fora a promessa constante da aparição de uns flocos de neve.
Partilhávamos experiências nossas, histórias de amor, umas felizes outras que nunca chegaram a deixar a magia do platonismo. Cá no ninho não há segredos, não sabemos o que são tabus, contamos tudo uns aos outros, do mais privado ao mais embaraçoso.

Estávamos a rir, outras vezes perto de chorar, enquanto nos orgulhávamos do privilégio de poder estar naquele sofá, de membros entrelaçados pelo sentimento mais puro de todos.
O amor é tudo nesta casa, o que mais se admira, pelo que mais se luta, o que mais se reclama. O nível de amor desta casa nunca pode descer, seja o amor por nós próprios, ou pelas plantas que temos nos vasos antigos da sala de jantar, ou simplesmente pelos dias bonitos.

O requisito para se estar nesta casa é única e exclusivamente amar.
Falávamos sobre o quão cada vez mais lidamos de perto com pessoas que sofrem de violência nas suas relações, sobre o quão desleal é tornar o amor em comércio, tão feio quanto rodear mesquitas e santuários com lojas e tendas de souvenirs. Importou-se mais um dia que não era nosso, que vale, encaixa e serve numa sociedade com cada vez menos tempo para amar.

Para uns, só mais um dia de carinho e trocas de mimos, para outros a tentativa de compensar a falta de disponibilidade, de jeito ou de noção.
Amar, amar, amar mas aprender a distinguir o que é ser amado bem e ser amado mal.
Do fazer amor, ao descompromisso, do carinho, ao companheirismo, o respeito, o respeito. O respeito.

A uma certa altura, quando o relógio já ia muito mais para lá do que seria razoável, a minha mãe esticou os braços, entrelaçou os dedos finos, ossudos, calejados e meigos nos nossos e fizemos silêncio.
Tenho demasiada sorte,pensei. Que mais posso querer na vida?
Apertou as nossas mãos com mais força, aninhámo-nos como um puzzle carnudo e, com as testas unidas, disse-nos com um tom carinhoso e determinado:
– É exatamente e precisamente por isto que havemos sempre de ser os nossos melhores valentins.

O tormento de viver com ansiedade

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Texto Original

A ansiedade continua a ser, além de ignorada, incompreendida. Assim como a depressão.
Quando vives com ansiedade desde a adolescência, as insónias e os ataques de pânico fazem parte da lista dos teus melhores amigos. No entanto, os teus amigos e a tua família não percebem muito bem o que é que isso significa. E é normal, porque ninguém fala no assunto.
Sofrer de ansiedade não é ser-se nervosinho, não se soluciona como o “tens de começar a respirar fundo”. A ansiedade vem e nós não percebemos muito bem porquê, nem quando veio afinal. Se foi com a puberdade, se foi com o day dreaming constante, quando é que comecei a pensar tanto em tudo? Será que foi quando era pequenina e fazia perguntas esquisitas sobre a vida aos mais velhos?
Porque é que sempre me aterrorizou o tempo? Porque é que quero viver desde sempre com tanta intensidade, tudo, todos os momentos, o agora, o agora, o agora? Devia estar a fazer coisas bonitas pelo mundo, devia estar a criar coisas decentes, mas isto serve para alguma coisa? Eu sirvo para alguma coisa? Quero ler estes livros, quero ver estes concertos, oh meu Deus estou quase a fazer anos e ainda nem dei a volta ao mundo. Esta sala é um bocado pequena, porque é que os autocarros são tão apertados? Os elevadores deviam ter janelas. Mas eu ganhei vertigens, ainda bem que não têm janelas. Tenho que subir aquele terraço. Vou desafiar os meus medos. Por favor tirem-me daqui. Ups o empregado viu que deixei cair esta cruzeta. Sou tão trapalhona. Peço desculpa. Onde é que eu tinha a cabeça? Acho mesmo que não vou conseguir acabar isto a tempo. O que é que me deu na cabeça? Ai já é daqui a dois anos que vou ter de apresentar a tese para uma audiência, mas eu até gosto de falar em público, mas não te lembras dos nervos que isso te dá? Não acredito que vou ter de ver pessoas hoje, mas tu adoras pessoas, menos quando não adoro, vou ter mesmo de ver pessoas? O professor fez uma pergunta, acho que sei a resposta. Nop, não vou falar com esta gente toda a ouvir a minha pergunta. Faço no fim da aula. Ok, vou ter mesmo que dar a minha opinião. Estou vermelha, estou vermelha. Onde andam os meus que eu tanto adoro? Tenho saudades das minhas pessoas. Estou sozinha no mundo, ninguém percebe o que é que eu sinto. Vou tentar explicar, oh não vale a pena. Quando é que arranjamos tempo para estarmos juntos? E se eu morrer amanhã e não tiver dito a todos o quanto gosto deles? E se eu morresse amanhã, alguém ia ao meu funeral? Dói-me tanto a cabeça. Outra enxaqueca não, por favor. Será que isto está bem escrito? Deixa-me ler outra vez. Não posso mostrar isto a ninguém. Isto está mesmo mau. Será que não está assim tão mau? Será que o chefe gostou? Vou dar-lhe um retoque. Têm mesmo que me ligar? Podiam mandar só mensagem. Têm de falar comigo? O que é que eu fiz? Será que fiz mal a alguém sem querer? Terei feito alguma coisa grave? E será que a minha mãe e o meu pai sabem o quanto os amo? Que dor no estômago. Mãe amo-te muito, pai amo-te muito. Mana tenham cuidado na estrada. Tens que te alimentar melhor. Não devia fazer mais desporto? Devia estar a fazer alguma coisa mais útil. Adoro não fazer nada, tenho tantas coisas para fazer. Esta semana passou tão rápido.“
A ajuda de um médico continua a ser assustadora, “foste mesmo a um psiquiatra?” “Andas num psicólogo?” “Tomas medicação??!!” A ajuda é importante, sempre. E o primeiro passo para aprendermos a viver é sabermos quando é que precisamos de pedir socorro. A ansiedade dá-me muitos tormentos, mas tem-me feito viver muito. Tenho 23 anos e já vivi tanto, às vezes quase tenho vontade de lhe agradecer. Mas outras vezes é incontrolável, mais vezes do que é suposto ser. Quem sou eu para vos pedir alguma coisa(?), mas tenho que o fazer: comecem a dar mais atenção aos vossos amigos e família que sofrem com a ansiedade. Ouçam-nos com atenção. Respirar fundo não resulta, as vossas pessoas precisam falar. Precisam de sentir que estão a viver. A ansiedade pode ser bem canalizada, não torna ninguém menos ou mais capaz. Mas é preciso que se aprenda a viver com ela, que não se torne uma auto destruição.
Com a depressão, é ainda pior. Uma pessoa com depressão não é um triste que para aí se arrasta, é alguém que se sente abafado por ele próprio, é alguém que se sente triste sem qualquer explicação. E mesmo assim consegue rir, consegue fazer rir. Mas sente-se um túnel escuro e é um tormento.
E todos os tormentos são menos pesados quando os que nos são, nos dão a mão.

 

Rumo a LA

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Quando nasci, eu e a minha mãe andávamos de um lado para o outro: meia semana ela trabalhava no consultório do Porto, e a outra metade íamos de comboio para Resende, para que a minha mãe trabalhasse no seu consultório dentário de lá, o primeiro a abrir na vila. Sempre me habituei a andar de um lado para o outro, mal nasci. A Xaninha nasceu e os meus pais tiveram de optar. Escolheram Resende, escolheram bem. Ofereceram-me a primeira bicicleta sem rodinhas e o Sandro, meu vizinho, demorou semanas a conseguir que eu andasse naquilo sem me matar. Era amarela, com um cesto, toda retro, todos a adoravam e ir buscar o pão quente das 17h de óculos redondos e dentes em bico era, com ela, todo um desfile de estilo.
Crescemos na rua, nunca tivemos playstation, mas tínhamos tudo desde o peão ao diablo, aos elásticos e às cordas, às bolas de futebol, ao arsenal de balões de água ou à colecção de tazos e berlins e obviamente as cassetes todas da Disney. Tínhamos campo, tínhamos terra, flores, árvores. Adorávamos a biblioteca, adorávamos preencher os papeis que requisitavam livros, o cheiro a velho dos livros antigos e crescemos felizes, responsáveis, sem telemóvel para nos chamarem para casa, quem mandava era o anoitecer que nos avisava do jantar pronto a servir.
Quando eu tinha por volta dos 8 ou 9 anos, o meu pai comprou-nos um computador. Ainda existe, é enorme, com um magnífico Windows 98 instalado, o que na altura foi, para nós, um delírio tecnológico. As disquetes tornaram-se um dos meus vícios, ainda tenho algumas, e todos queríamos experimentar as maravilhas de um Solitário ou simplesmente o êxtase de escrever um texto no Word. Havia toda uma arte por descobrir no WordArt e poder jogar o Hugo, para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, sem ser a vê-lo pela televisão, era absolutamente extraordinário.
Nunca deixei de ir brincar para a rua, obviamente, mas o meu amor por aquele computador foi instantâneo. Foi lá que comecei a escrever os meus contos, as minhas poesias, onde escrevi peças de teatro, tudo naquela cadeira de madeira antiga, forrada de um tecido cor-de-vinho (tinto, o melhor, claro), tudo ali, no quarto dos meus pais, fosse verão ou fosse inverno, pelo menos meia hora por dia, só eu e aquele trambolho existíamos no mundo.Mais tarde veio a primeira ligação à internet, fazia um barulho insuportável, ainda ecoa na minha cabeça, demorava uma eternidade, mas valia tão a pena a espera e lá ia tudo a baixo quando a minha mãe recebia um telefonema. E ela sempre recebeu tantos. O meu pai criou o meu primeiro e-mail, que ainda existe, o triste, piki e miserável nanacarv5.
Entretanto, em Resende, criou-se o Espaço Internet, com meia dúzia de computadores. Chegávamos lá, dávamos o nome e esperávamos horas para poder ter uma hora de internet gratuita, só para nós. Era incrível e acabávamos por compensar o tempo de espera com umas caçadinhas ou com umas escondidinhas level hard. Lembro-me da primeira vez que usei o MSN, para falar com o meu colega Valente, que estava precisamente no computador à minha frente, uau, que mundo incrível o nosso. Jogávamos, falávamos em chats e pesquisávamos coisas sobre o próximo livro do Harry Potter.O nosso primeiro portátil veio bem mais tarde, era de um tio, era gigante, lento, adorávamo-lo. Mas a internet não chegava ao quentinho da cozinha. Quando finalmente chegaram as placas de internet, começámos a visitar cada vez menos o trambolhinho do quarto dos meus pais, só para imprimir trabalhos ou em caso de termos perdido a vez no novo trambolho ambulante.
O meu primeiro portátil veio com a e-Escolas. De repente, a Escola Secundária já não tinha fichas para tantos portáteis. A maioria dos alunos estava a ter pela primeira vez um computador e os intervalos transformavam-se em dezenas de adolescentes sentados com extensões ligadas a extensões que se ligavam a extensões porque a biblioteca já estava cheia, os outros corredores cheios estavam e todos estavam apaixonados. Quando fui estudar para a Maia no 12º fiquei mesmo surpreendida por não ver estudantes sentados no chão agarrados aos portáteis, mas depois lembrei-me que estava na cidade, muita gente já teria tido portátil muito antes, muita gente teria experimentado a internet muitos anos antes de nós, e a maioria, com certeza, teria luz em casa.
O que é certo é que sempre fui apaixonada pela tecnologia, nunca larguei a minha relação com a rua e a natureza, mas comecei a querer compensar todo o conhecimento que não tinha, toda a informação possível de absorver, todas as culturas, todas as bandas, todos os sites, fóruns, todas as invenções, notícias, pessoas, tudo o que dava para ver, sem sair da minha própria casa.
Sempre liguei muito ao contexto das coisas, das pessoas, sempre apontei os pormenores, sempre me dediquei aos detalhes, talvez numa busca constante de respostas, talvez numa necessidade sedenta de atribuir alguma lógica a este mundo trapalhão, a esta vida atribulada, a esta misturada de eventos, lugares, pessoas, que se cruzam e descruzam, que vão e vêm, que nos têm.
Há três dias, estava eu com o meu novo portátil, sentada à braseira a estudar (vamos todos acreditar que estava efectivamente a estudar) quando o dono da empresa que me abordou, em Outubro, para uma possível participação minha no projecto dele, no qual entretanto assinei contrato de confidencialidade, fiz formação e não quis depositar muitas esperanças para mais tarde não me desiludir, diz que precisa de falar comigo urgentemente.
A minha mãe tinha cá uma amiga e eu tinha uma chamada urgente para atender. Peguei no portátil, dirigi-me ao quarto dos meus pais e atendi. Enquanto ele falava comigo, sobre o que pensava do projecto, sobre a data de lançamento, sobre o que tinha aprendido sobre mim e o meu trabalho e sobre a vontade dele em que eu pertencesse à equipa principal da empresa, assumindo um cargo de co-founder e Journalism Director em Los Angeles, a minha noção de tempo e espaço parou. Passados tantos anos sem me sentar naquela secretária, de repente, eu era outra vez uma miúda perplexa, de coração acelerado, sentada na cadeira de madeira antiga, forrada de tecido cor-de-vinho, e, à minha frente, lá estava o sem rugas mas velho, ainda mais amarelado, para o qual já não olhava há tanto tempo, computador outrora tão presente na minha vida, a olhar para a mim com um sorriso de quem me reconheceu, de quem se orgulha de me ter visto crescer.
– Ana, estás a ouvir-me?
– Sim, desculpe. Estou a ter um momento emocional.
– Oh, por favor. Tens todo o tempo para pensar.
– É que estou precisamente no sítio onde usei a internet pela primeira vez e agora está-me a fazer essa proposta, do outro lado do mundo, no mesmo sítio onde abri um word pela primeira vez.
– Oh, fantástico. Isso quer dizer o quê?
– Que sim. Que aceito.
A vida até podia não ter significado nenhum, até pode ser uma perfeita salgalhada de açúcar e agri-doce, mas eu teimo em acreditar, que por muitas voltas que isto tudo dê, mesmo que no fim dê tudo exatamente ao contrário do que imaginámos, são estes momentos que fazem tudo valer a pena. E admitamos que todos estávamos a querer um Balolas Fest II

De pingo no nariz

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       Abril de 2016, Lisboa

Eu moro numa cave. Quando abro as janelas do meu quarto tenho as pernas das pessoas que esperam pelo autocarro a um palmo.

Ouço as conversas de toda gente, desde os namorados a discutirem, às mães afrontadas pelos filhos adolescentes, ouço os idosos a mandar vir com os mais novos, os empresários a tratar de negócios, ouço tudo enquanto preparo o meu dia, enquanto tento dormir, enquanto escrevo no computador ou leio um livro. Já vivi em 15 casas e nunca gostei tanto de um quarto como gosto deste. É a minha fortaleza, faz todo o sentido que eu viva aqui, o melhor desta cidade é o meu canto.

Algumas pessoas ficam muito admiradas quando digo que não gosto de viver em Lisboa. Não é a cidade que tem culpa, eu é que sempre estive mal habituada. Eu sou e hei de ser sempre uma criatura de gentes, no meio da minha solidão e do meu dia-à-dia só comigo, hei de dar sempre valor às conversas aleatórias com o senhor que trabalha no café, com a senhora que espera há quarenta minutos pelo mesmo autocarro que eu, com a senhora que me sorri depois de limpar o suor de um dia de trabalho com a manga da camisola enquanto olha para o céu com ar de desabafo, o meu dia vive desses momentos. E esses momentos numa cidade como esta não são impossíveis, mas são escassos.

Ontem um condutor dizia-me que não entendia como é que as pessoas do norte eram tão simpáticas, até mesmo se lhe fossem servir uma meia de leite, conseguiam fazê-lo de bom grado. É claro que as generalizações são perigosas, mas eu percebi logo do que é que ele estava a falar. Lisboa é uma cidade luminosa, é uma menina bonita, inteligente, grande. Mas é confusa, está sempre com pressa, sem tempo para grandes amizades, sem se entregar a grandes paixões. Gosta de curtir a vida, de se vestir bem, acha que tudo é o máximo e é vaidosa, mas falta-lhe a alegria genuína de viver.

Falta-lhe ser mulher. Eu prefiro as mulheres decididas, que arregaçam as mangas e têm a resposta na ponta da língua.
Se parece bem, ninguém quer saber, faz-se, está feito e bem feito. Até podem ter menos, mas fazem com que o pouco se multiplique, agarram-no, amassam-no, dão-lhe as voltas que é preciso.“Mas Lisboa tem sol, tem luz” e eu adoro. É verdade. E é a prova do equilíbrio natural das coisas, caso contrário seria gélida e sombria sem qualquer volta a dar e é aqui que um povo faz a diferença.

Lá em cima até pode chover, os dias até podem ser escuros grande parte do ano, mas há um calor e uma vivacidade contagiante. E é isso que quem é cá de baixo nunca vai entender, querem resumir tudo aos palavrões que dizemos, aos petiscos que comemos, mas quando se lhes tenta explicar o que é fazer das tripas coração, trocam os olhos.
Uma vez, num dia péssimo a subir os Clérigos, um senhor já com muita, muita idade vinha na minha direcção e parou.

– Eu conheço-a.
– Não estou a ver…Não me estará a confundir?
– Não menina, tenho a certeza que a conheço.
-Pois realmente não estou mesmo a ver…
-Não costuma ir no comboio para a Régua?
-Costumo sim
-É de lá menina. Vejo-a sempre com as malitas. É de lá!
A seguir agarrou-me nos ombros, deu-me um abraço enorme e desejou-me feliz natal. Fez-me o dia. E é destes dias que eu sinto falta. Falta-me o Natal. Mas isto sou eu, que sou das sensações, das relações e das pessoas. As pessoas até podem cá estar mas soa tudo a longe e ocupado. Nos outros sítios em que morei, até mesmo em Roma, eu podia não ter os meus, mas tive sempre calor humano. Desde que cheguei em Outubro, ando sempre com o pingo no nariz, ranhosa, resfriada. O que tem piada, já que o clima é tão mais ameno por estes lados.
É o que é.
E hoje é terça.
Não trabalho na loja este fim-de-semana.
Faço anos sexta.
“Pai vou hoje para o Porto, amanhã para Resende.”
E o meu pai diz “vem agasalhada filha, olha que está frio”
e eu rio-me.
“Oh papá, já devias saber que em casa nunca faz frio”.