Isto já ninguém me tira

Uma das coisas que mais me custou a habituar, a mim e ao meu lado mais pacifista e diplomático, ao longo dos anos, foi ao facto de que realmente é impossível agradar a toda gente.

Há uma beleza intrínseca à incompreensão, talvez por isso eu tenha sempre achado um especial encanto a pessoas com feitios mais complicados, aos ditos estranhos, ao fora da norma.

As minhas publicações na internet sempre meteram confusão a muita gente.

“- Expões-te muito”, sempre me disseram. Como o meu sonho sempre foi o de escrever, seja a minha escrita o mais banal possível ou não, eu sempre soube, sem nunca me enganar, distinguir o que podia ou não ser público. As redes sociais fazem parte do meu trabalho, da minha forma de estar e é a minha forma de chegar às pessoas, de contar histórias, de partilhar conteúdo. Uma vez um amigo meu disse que se calhar o meu problema era que eu assustava os homens, por ter sempre algo a dizer sobre tudo. Ora bem, eu na altura ri-me alto, mas depois fiquei a pensar no assunto. Eu não tenho propriamente um historial de finais felizes, pelo contrário, mas por muito apaixonada que eu algum dia possa vir a estar, deixar de escrever, falar ou opinar sobre o que for, com medo de assustar, intimidar ou afastar a pessoa por quem estou interessada, não está de todo em cima da mesa. Respeito perfeitamente quem possa não gostar de estar com alguém que se partilhe tanto, mas também não é isso que me preocupa.
Isto, claro está, para explicar, que há para mim uma beleza extraordinária no conhecimento, sou viciada em informação desde que me conheço, vendo-me por isso automaticamente empenhada em partilhar com o conhecido e o desconhecido, tudo aquilo que possa transmitir alguma emoção ou (pelo menos tentativa de) intelecto.
Eu cresci a amar o prazer da leitura, sonhando um dia poder chegar às pessoas como aquelas almas chegaram a mim, ainda que esteja longe de me querer equiparar aos mestres das letras que me ajudaram a crescer. E é por isso que tenho tanto gozo e prazer em vos contar as minhas voltas, os meus desaires, os meus trambolhões, a minha normalidade, a minha forma de ver este mundo onde vim parar sem pedir a ninguém.
Foi precisamente esta minha presença no mundo digital, o facto de eu partilhar em tantas plataformas a minha visão do mundo, o meu trabalho, os meus textos, que fez com que o Donavon, agora meu colega e “cofounder”, me conhecesse e mais tarde me convidasse para este projecto.
É fácil culparmos a sorte pelas nossas venturas e o azar pelas desventuras, o difícil é aceitarmos que há um preço a pagar em tudo na vida, um risco a ser tomado nas decisões que tomamos.
Na minha profissão e naquilo que eu mais amo fazer, o silêncio e o anonimato não me levarão a lado nenhum e eu não tenho vergonha de dizer que quero voar, nem que isso signifique esmurrar-me toda pelo caminho, nas imensas tentativas de subir os degraus sem nunca ir contra os meus valores e princípios.
Uma vez uma pessoa não gostou que eu dissesse que preferia lavar casas de banho o resto da vida a aceitar um “favor” de ir trabalhar para um sítio de renome cujos valores são opostos aos que eu defendo. Mas eu preferia, sem qualquer dúvida, e por isso nunca tive qualquer problema em trabalhar em tudo e mais alguma coisa. O meu maior problema, o que realmente me assusta, é estar parada.
A Owlascend (agora Umazed), a Califórnia, Los Angeles, isto tudo poderá até correr mal, pode até vir a acabar cedo, o que de todo não me parece, mas ei, e daí? Pelo menos isto, o agora, esta perna cruzada num baloiço de um terraço no meio de Los Angeles, este exato momento, depois de um dia numa convenção com centenas de outras empresas, depois de conhecer tanta gente cheia de ideias, este ar quente e esta paz de espírito no fim deste dia com a sensação de missão cumprida,
Isto, isto já ninguém me tira. E acreditem é-me tudo muito mais bonito, mais meu, mais intenso, quando sei que o posso partilhar convosco.

Los Feliz (english)

 

22nd September 2016

Where should I start?

First of all, I’m writing eight hours later than I expected. I feel like I’m late in responding to all your messages, and the good morning phone calls of my parents are a little uncoordinated because of the time zone change.

It is 28 degrees Celsius outside, and around eighty percent of humidity, so that it makes sense that everyone goes around with such few clothes on. On the roads, you only see big cars, smoked glasses, and some limos here and there.

After leaving home, within five minutes, I saw an actor crossing the street. I don’t remember his name, but he is in a really funny TV series, he wears glasses, and he has some real tall. It seems that it is a normal thing to see famous people around here, because the house where I am staying at is really close to Hollywood.

People here are super nice and welcoming, and there is a fashion atmosphere mixed with a super relaxed style everywhere.

The traffic here doesn’t scare me at all, the avenues are super wide, the cars drivers know how to behave, and remembering that I’ve already lived in Rome in the recent past, and in comparison to there, the roads in Los Angles are a lot nicer.

There are palm trees everywhere, and the city is surrounded by mountains. There is green grass and trees everywhere, it’s full of beautiful and incredible houses (at least in this area,) and makes me forget the fact that I’m in the middle of a giant city.

Today, we went out to scout for places to shoot some up-coming videos for Owlascend, just some simple videos in order to help the users in understanding the concept of our platform, and I ended up visiting Griffith Park, and so I visited the Griffith Observatory too, and besides it being free, it has a landscape that seems out of this world.

I went to a show there, which was a really beautiful about Space and Viking mythology.

It is super easy to be a vegetarian here because the food in the places I already went to was absolutely awesome, and yes, I’ve already seen some Mac Donald’s restaurants!

This all looks like a dream to me, and there is no doubt about the cultural shock I’m experiencing, even if, at the same time, the USA is so familiar to us, thanks, of course, to the movie industry.

I feel like all my life could be an extraordinary movie, but we all have this feeling sometimes, right?

It seems that they don’t typically have dinner here as we do in Europe, but since I have a Portuguese stomach, let’s get some food now!

The neighborhood’s name where I’m hosted is Los Feliz, believing in coincidences or not, I think it makes total sense

Los Feliz (português)

 

 Los Angeles, 22 de Setembro 2016

Por onde hei de começar?

Em primeiro lugar, isto de estar oito horas atrasada, ainda não me assentou bem. Sinto que chego atrasada a todas as vossas mensagens e os telefonemas de bom-dia aos meus pais estão um bocadinho descoordenados.

Estão 28 graus, 80 e tal por cento de humidade, faz sentido que toda gente ande tão descascada. Nas estradas só se veem grandes carros, vidros fumados e umas limousines aqui e acolá.

Nos primeiros 5 minutos que saí de casa vi um actor a atravessar a estrada, não me lembro o nome dele mas é de uma série qualquer engraçada, usa óculos e é cheiinho. Pelos vistos é super normal ver gente conhecida, já que a casa onde estou é super perto de Hollywood.

As pessoas são super atenciosas e simpáticas, há um ar fashion misturado com um estilo super relaxado em todo lado. O trânsito aqui não me assusta, as avenidas são super largas, os carros sabem comportar-se, há que lembrar que já vivi em Roma, por isso comparado ao que vivi lá, Los Angeles sabe-me a céu da estrada.

Há palmeiras em todo lado, a cidade é rodeada de montanhas e os bairros tipicamente americanos, verdes, cheios de casas incrivelmente bonitas (pelo menos na zona onde estou) fazem esquecer o facto de se estar no meio de uma cidade gigante.

Hoje fomos procurar sítios para filmar uns vídeos para a Owlascend, uma coisa simples só para ajudar os utilizadores a entenderem do que se trata, e acabei por ir ao Griffith park e consequentemente ao Griffith Observatory, que além de ser grátis, tem uma vista do outro mundo sobre a cidade. Lá assisti a um espectáculo lindo sobre o Espaço e a mitologia Vicking. Aqui é super fácil ser-se vegetariano, a comida nos sítios a que fui era absolutamente incríiiiiivel mas sim, já vi Mac Donalds!

Isto ainda me parece tudo um sonho, não há dúvida que o choque cultural é imenso, ainda que estejamos tão familiarizados com os EUA, graças à indústria dos filmes. Sinto que toda a minha vida dava um grande filme, mas todos temos essa impressão,não é?

Pelos vistos aqui não se janta, mas como tenho estômago de portuguesa, vou me fazer ao prato!

O bairro onde estou hospedada chama-se Los Feliz, acredite-se ou não em coincidências, faz sentido

Chegada aos USA

 

Boston, 20 de Setembro de 2016

Percepção dos Estados Unidos em menos de 24 horas:

– Em primeiro lugar, tipo…estou a usar net grátis em pleno avião, wtf?

– Pedi um quarto simples num hotel de 3 estrelas, deram-me um com cozinha, sala de estar, mega banheira e duas televisões maiores do que eu.

– O jet lag não é mito, sinto que vos estou a falar do passado.

-Quando pedi uma informação a uma senhora, ela pediu-me só dois segundos que tinha meeeesmo que postar uma foto no instagram e, a seguir, tive de esperar numa fila para poder tirar a fotografia ao céu incrível que me recebeu em Boston

– As pessoas foram uma simpatia, desde a polícia à senhora colombiana de sessenta e tal anos que se sentou à minha beira no aeroporto para conversar em espanhol. Chegámos à conclusão que “és un mundo loco este, pero hay que saber vivir-lo”

-Mal cheguei vi logo daquelas mega lavandarias que vemos nos filmes com as pessoas à espera da roupa lavada, fez-me lembrar o momento de socialização que era para mim ir lavar a roupa quando vivi em Cabo Verde, tirando a parte de que lá, lavávamos à mão, com água comprada em garrafões

-Continuo sem acreditar que estou a usar net no avião

– Ainda faltam 5 horas de viagem :help:

– Ainda não vi ninguém obeso, nem nenhum Mac Donalds

Obrigada a todos pelas mensagens incríveis que me têm enviado, está tudo bem

Aqui não se passa nada

 

 Resende, 4 de Setembro 2016

Acaba de pousar, à minha frente, uma daquelas borboletas amarelas que vêm atraídas pela luz sarandar, como quem está baralhada, no interior das nossas casas. Se eu tivesse asas não ia para dentro de uma casa, mas eu percebo, a nossa cozinha é um bom canto para esvoaçar.

Se eu fosse mais nova, ou mais tonta, pegaria no meu chinelo e como que, com o poder que ninguém me deu, estalar-lhe-ia com uma chinelada, cada um daqueles bonitos filamentos, que mal nenhum me fizeram. Mas deixo-a estar. Até fica bonita ali camuflada nas riscas amarelas do sofá, perto do meu pé esticado.

Estou sozinha em casa, todos sairam. Algures, num povoamento aqui bem perto, há uma festa que deixa escapar o som de música popular de má qualidade. O prédio está silencioso, mas cheio de gente. Faleceu um ente querido dos nossos vizinhos e amigos. Sinto as lágrimas dos sofredores, embora não consiga chorar. Há muito que não choro, a não ser quando tenho um dos meus ataques de pânico, aí não há quem me pare de chorar.

O relógio marca as onze e meia e eu só o sei porque ouço o sino da Igreja, lá no cimo da colina, a avisar. Lá fora, só o silêncio. Adoro o silêncio. Traz-me quase tudo o que procuro na multidão. De alguma forma faz-me companhia, não me sinto sozinha no meio do silêncio, ao contrário do que sinto quando estou no meio de gente.

Pela vila, caminham meia dúzia de pessoas, umas com ânsia de perder peso no corpo, outras na alma. Hoje não quis caminhar, normalmente quero queimar a gordura saturada de quem pensa demasiado na vida, mas hoje as minhas hérnias da coluna gritaram mais alto, por isso estatelei-me no sofá. É uma boa desculpa, já que a verdade condiz com o facto de me ter deixado abafar pelo que a morte me dá de pensar.

A minha mãe chegou, está a vestir o pijama, farda oficial dos Carvalho cá na terra. Se estamos em casa, estamos de pijama, a menos que nos dê a preguiça ou não tenhamos bem a certeza de quem somos em determinado instante. A minha mãe vai despejar o lixo de pijama, comprar cigarros de pijama, eu vou levantar correio de pijama, já toda gente nos conhece a farda.

Quando fomos dar os sentimentos à família que perdeu um dos seus, passou um carro com a música muito alta com um casal de namorados com cara de amuo. Numa rua a cima, havia pessoas a jantar fora e a falar alto. Na vivenda ao lado, uma senhora fumava um cigarro num alpendre, sentada num banco de pano, daqueles de romaria. Ao chegarmos à capela, soube-se do nascimento de uma bebé, filha da irmã de uma amiga minha. A vida e a morte, no mesmo espaço, em dimensões diferentes. Vimos a fotografia, bem-vinda ao mundo, pequenita. Passei por um amigo que se vai casar em Outubro, desejei-lhe sorte, ele desejou-me boa viagem.

Nas terras pequenas, todos se conhecem. Sabemos de tudo, mesmo sem querer. Se alguém nasce, ou se vai embora, se arrota ou se peida, todos sabemos em questões de minutos, quando muito, numas horas. Eu normalmente sei passado meses. Mas não é por mal. Uma vez, quando tinha 7 anos, ligaram à minha mãe da câmara a perguntar se eu tinha sido raptada, mas eu estava sentada ao lado dela. Tinha sido um colega meu a espalhar o boato na escola. Quando era miúda isto tudo irritava-me, hoje acho piada. Hoje acho bonito.

Eu cresci nestas ruas, foram estas pessoas que me viram crescer. Aos 8 anos recrutei uns colegas, imprimi umas folhas que em comic sans diziam “Por favor, reciclem. Vamos salvar o planeta” e colei, com as devidas autorizações, nas janelas das lojas por onde passo hoje em dia, quando vou fazer algum recado à minha mãe. Esses cartazes feitos no windows 98, estavam numa disquete que tinha escrita a legenda “Clube do Ambiente” e iam enrolados numa mochila, enquanto apanhava lixo da rua com sacos plásticos na mão. É engraçado como nos mantemos fieis a tantas das nossas determinações de fedelhos. Eu, pelo menos, não me permito matar essa miúda despachada a lutar pelo que acredita. Ainda que, com o tempo, se torne inevitável olhar para as vitórias como mitos lendários.

Esta terra lembra-me sempre de quem eu sou.
Quando estou longe, sinto falta do bom-dia a toda gente que passa, da padeira, da peixeira, da Dona Dolores do talho que me dá um abraço sempre que me vê, da dona Luísa da mercearia ao cimo da rua, dos senhores sentados à porta do café do senhor Vieira.
Às vezes até chego a sentir falta dos bons-dias que não me dão de volta e que à gargalhada me responde a minha mãe ou a minha irmã, se estiverem comigo, para eu não ficar desolada.
O meu pai também já chegou. As televisões já estão ligadas. O manjericão que tenho na janela da cozinha já é demasiado grande para o vaso que lhe demos. A borboleta acabou de sair pela janela aberta que usou para aqui entrar. Alguém está a estacionar, ali atrás, no parque do prédio, onde aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas.

Uma vila pequena, tantas janelas com as luzes acesas, tantas curvas, tanto verde. Tantas linhas neste texto. Mas como sempre, ouve-se a reclamação do costume na esplanada de um café: “Nesta terra é sempre a mesma coisa, nunca se passa nada”.

Todos acenam, encolhem os ombros, mas todos sabemos que não é verdade, todos sabemos que não tarda nada, alguém não muito longe daqui, virá com a novidade que alguém se acabou de peidar.

Dona Saudade

 Lisboa, 22 de Julho de 201

Acontecem-me coisas surreais, isto claro, visto pelos olhos de quem é fascinada por esta vida engraçada.

Eu sempre acreditei naquela máxima do “quem está mal muda-se” e baseio as minhas decisões nela, hoje mais do que nunca. Acho importante termos a capacidade de perceber o que nos é bom ou não, e daí optar por procurar caminhos alternativos que nos sejam mais saudáveis.

E assim tenho feito em relação a tudo na minha vida. Quando não estou bem, mudo-me. Mas o engraçado disto tudo, é que ultimamente calha-me ter de mudar precisamente quando estou bem. Este ano em Lisboa foi uma trapalhada, não me dei com a energia da cidade quando cheguei, não percebia como é que tudo podia ser tão frio e fechado e não queria acreditar que a minha vida se ia resumir a um mestrado sendo, portanto, difícil querer ficar cá.

Não me encaixo, nem sonho fazer o jornalismo convencional. Eu quero andar pelo mundo, contar às pessoas a realidade humanitária que tentamos esquecer todos os dias, mas que não podemos. Quero abrir os olhos. Mas enquanto não posso nem consigo tal, sempre insisti em obrigar-me a fazer outras coisas enquanto estivesse por Portugal. Escrevendo como freelancer sobre histórias que me interessavam contar, mas sobretudo empregos noutras áreas, pondo-me à prova constantemente, adaptando-me. Lisboa foi a cidade em que me mantive distribuída por 4 empregos em simultâneo e 1 mestrado e, a sério, jamais me vou esquecer da loucura que é uma pessoa dividir-se desta forma. Descobri que adoro ensinar, ao ter, pela primeira vez, dado explicações de todas as disciplinas a um miúdo que adorei conhecer, descobri que consigo aconselhar mamãs sobre o que os seus pikis devem e podem vestir, fiz prendas à mão, comecei um novo projecto do outro lado do mundo a partir do meu computador e, por fim, lá fiz o primeiro ano do tal mestrado a que me propus.

Lisboa é, para mim, o caos da vida adulta. A tentativa de me descobrir enquanto jovem perdida, a embriaguez das noites quentes mas sem estrelas, a vivacidade da amizade de quem está como nós, a solidão que tanto prezo e, fundamentalmente, a vontade de voltar para o Norte.

Mas como sempre, calhou-me conhecer alguém que me fez gostar de cá estar, calhou-me ir a sítios que me fazem querer voltar, calhou-me que me está a custar-me muito mais do que contava empacotar tudo mais uma vez e pôr-me a andar.

Eu sei que coisas fantásticas se avizinham, mas às vezes parece uma maldição isto de começar a amar quando está na hora de me ir embora.

Lá na loja, há duas semanas, atendi mais um dos muitos telefonemas do costume.

A senhora quis saber como eu tinha passado, se lhe guardei o que havia reservado enquanto não esteve por cá. Eu nunca tinha falado com a tal senhora, sabia que era uma encomenda pesada que estava ali guardada, mas tinha que confirmar. A senhora falava com doçura, num tom sério mas leve, avisava-me que estava para chegar e para não me assustar, já que não se havia esquecido do que tinha reservado.

Achei de imensa gentileza, o acto de me querer prevenir da sua chegada, mas continuava sem saber com quem é que estava a falar:

-Agradeço a amabilidade, mas será que me pode relembrar o seu nome?

A resposta da senhora nunca mais me saiu da cabeça, o nome dela soou-me a profecia, a uma chamada de atenção de um universo que nunca está desatento.

– Claro menina, aponte aí por favor minha querida: ligou a Dona Saudade.

Moisés

 

 1 de Julho 2016, Lisboa

Ontem conheci o Moisés. Estava sentado nas escadas do costume, à espera que o tempo passe, enquanto se lembra da família que está longe, pelo mundo. É tudo muito difícil, disse-me várias vezes, mas ele queria conhecer esse tal de mundo, queria ser jornalista. Estudou enquanto havia dinheiro, mas o dinheiro não era coisa fácil de haver.

Ontem perdi-me com os desabafos de quem não consegue fazer amigos em Lisboa, é tudo muito difícil. Tudo muito difícil, Ana. Ao final da noite, um cão mordeu-o no braço, ficaram três pontinhos elevados na pele, ficará cicatriz. Ao que parece, o cão havia sido vítima de maus tratos e abandonado por um homem negro, reagindo à defesa a todos os que encontra parecidos com ele. O Moisés ficou tão triste, só lhe queria dar uma meiguice e acabou mordido.

-Sabes o que é isto Ana?

– Diz-me Moisés.

– Não fiz mal, tu viste. Tentei fazer algo bom, acabei mordido. Sabes o que é isto, Ana? Isto é só a vida.

 

Caiu uma grua na minha rua

 

Ontem caiu uma grua na minha rua. Já passei várias vezes por ela, desde que cá vivo. Nunca gostei de gruas, estão muito lá em cima, carregam coisas pesadas, parecem presas por um fio, as gruas dão-me arrepios. O senhor que a manobrava, conhecido por Inglês, parece que teve de ir para uma outra vida, em que talvez tenha sorte de escolher outro ofício. As pessoas que estavam no prédio em que a grua caiu, apanharam um valente susto. “O prédio tremeu todo” disse um senhor que lá trabalhava.


Desde ontem que isto tudo não me sai da cabeça. As vezes que eu olhei para aquela grua, aqui mesmo na minha rua, pobre grua que lá acabou por ceder ao peso que a faziam carregar. Não caias, não caias, pensei eu tantas vezes ao olhar para ela, enquanto de passo apressado e mãos carregadas descia esta rua. E o pobre Inglês, que a ajudava, foi com ela. Foram os dois.


E eu nunca gostei de gruas, muito menos nas minhas ruas, são daquelas manias, também não passo debaixo de andaimes, sabe-se lá se aquilo se aguenta.
Quantas vezes não estamos sobrecarregados, sentimos os braços cansados, mas não podemos vergar. Mas lá lhe chegou o dia. “Não aguento mais” deve ter pensado. Não a ouvimos queixar, só cedeu. E o Inglês, pobre coitado, não era de cá, era emigrado, ficou preso lá em cima, a vê-la cair. Pobre grua, pobre rua. Pobre Inglês. Nunca vou gostar de gruas.

Valentins

 

Estávamos as três sentadas no sofá, a partilhar os últimos quadrados de chocolate que restavam no prato do costume, encostadas umas nas outras.

A Xaninha ao meu lado direito, de costas para o braço do sofá, com os pés debaixo do meu rabo, eu sentada de pernas à chinês encostada à minha mãe que se sentava sobre as suas próprias pernas, enquanto me fazia festinhas na cara. Nós tão quentes e lá fora a promessa constante da aparição de uns flocos de neve.
Partilhávamos experiências nossas, histórias de amor, umas felizes outras que nunca chegaram a deixar a magia do platonismo. Cá no ninho não há segredos, não sabemos o que são tabus, contamos tudo uns aos outros, do mais privado ao mais embaraçoso.

Estávamos a rir, outras vezes perto de chorar, enquanto nos orgulhávamos do privilégio de poder estar naquele sofá, de membros entrelaçados pelo sentimento mais puro de todos.
O amor é tudo nesta casa, o que mais se admira, pelo que mais se luta, o que mais se reclama. O nível de amor desta casa nunca pode descer, seja o amor por nós próprios, ou pelas plantas que temos nos vasos antigos da sala de jantar, ou simplesmente pelos dias bonitos.

O requisito para se estar nesta casa é única e exclusivamente amar.
Falávamos sobre o quão cada vez mais lidamos de perto com pessoas que sofrem de violência nas suas relações, sobre o quão desleal é tornar o amor em comércio, tão feio quanto rodear mesquitas e santuários com lojas e tendas de souvenirs. Importou-se mais um dia que não era nosso, que vale, encaixa e serve numa sociedade com cada vez menos tempo para amar.

Para uns, só mais um dia de carinho e trocas de mimos, para outros a tentativa de compensar a falta de disponibilidade, de jeito ou de noção.
Amar, amar, amar mas aprender a distinguir o que é ser amado bem e ser amado mal.
Do fazer amor, ao descompromisso, do carinho, ao companheirismo, o respeito, o respeito. O respeito.

A uma certa altura, quando o relógio já ia muito mais para lá do que seria razoável, a minha mãe esticou os braços, entrelaçou os dedos finos, ossudos, calejados e meigos nos nossos e fizemos silêncio.
Tenho demasiada sorte,pensei. Que mais posso querer na vida?
Apertou as nossas mãos com mais força, aninhámo-nos como um puzzle carnudo e, com as testas unidas, disse-nos com um tom carinhoso e determinado:
– É exatamente e precisamente por isto que havemos sempre de ser os nossos melhores valentins.

O tormento de viver com ansiedade

 

Texto Original

A ansiedade continua a ser, além de ignorada, incompreendida. Assim como a depressão.
Quando vives com ansiedade desde a adolescência, as insónias e os ataques de pânico fazem parte da lista dos teus melhores amigos. No entanto, os teus amigos e a tua família não percebem muito bem o que é que isso significa. E é normal, porque ninguém fala no assunto.
Sofrer de ansiedade não é ser-se nervosinho, não se soluciona como o “tens de começar a respirar fundo”. A ansiedade vem e nós não percebemos muito bem porquê, nem quando veio afinal. Se foi com a puberdade, se foi com o day dreaming constante, quando é que comecei a pensar tanto em tudo? Será que foi quando era pequenina e fazia perguntas esquisitas sobre a vida aos mais velhos?
Porque é que sempre me aterrorizou o tempo? Porque é que quero viver desde sempre com tanta intensidade, tudo, todos os momentos, o agora, o agora, o agora? Devia estar a fazer coisas bonitas pelo mundo, devia estar a criar coisas decentes, mas isto serve para alguma coisa? Eu sirvo para alguma coisa? Quero ler estes livros, quero ver estes concertos, oh meu Deus estou quase a fazer anos e ainda nem dei a volta ao mundo. Esta sala é um bocado pequena, porque é que os autocarros são tão apertados? Os elevadores deviam ter janelas. Mas eu ganhei vertigens, ainda bem que não têm janelas. Tenho que subir aquele terraço. Vou desafiar os meus medos. Por favor tirem-me daqui. Ups o empregado viu que deixei cair esta cruzeta. Sou tão trapalhona. Peço desculpa. Onde é que eu tinha a cabeça? Acho mesmo que não vou conseguir acabar isto a tempo. O que é que me deu na cabeça? Ai já é daqui a dois anos que vou ter de apresentar a tese para uma audiência, mas eu até gosto de falar em público, mas não te lembras dos nervos que isso te dá? Não acredito que vou ter de ver pessoas hoje, mas tu adoras pessoas, menos quando não adoro, vou ter mesmo de ver pessoas? O professor fez uma pergunta, acho que sei a resposta. Nop, não vou falar com esta gente toda a ouvir a minha pergunta. Faço no fim da aula. Ok, vou ter mesmo que dar a minha opinião. Estou vermelha, estou vermelha. Onde andam os meus que eu tanto adoro? Tenho saudades das minhas pessoas. Estou sozinha no mundo, ninguém percebe o que é que eu sinto. Vou tentar explicar, oh não vale a pena. Quando é que arranjamos tempo para estarmos juntos? E se eu morrer amanhã e não tiver dito a todos o quanto gosto deles? E se eu morresse amanhã, alguém ia ao meu funeral? Dói-me tanto a cabeça. Outra enxaqueca não, por favor. Será que isto está bem escrito? Deixa-me ler outra vez. Não posso mostrar isto a ninguém. Isto está mesmo mau. Será que não está assim tão mau? Será que o chefe gostou? Vou dar-lhe um retoque. Têm mesmo que me ligar? Podiam mandar só mensagem. Têm de falar comigo? O que é que eu fiz? Será que fiz mal a alguém sem querer? Terei feito alguma coisa grave? E será que a minha mãe e o meu pai sabem o quanto os amo? Que dor no estômago. Mãe amo-te muito, pai amo-te muito. Mana tenham cuidado na estrada. Tens que te alimentar melhor. Não devia fazer mais desporto? Devia estar a fazer alguma coisa mais útil. Adoro não fazer nada, tenho tantas coisas para fazer. Esta semana passou tão rápido.“
A ajuda de um médico continua a ser assustadora, “foste mesmo a um psiquiatra?” “Andas num psicólogo?” “Tomas medicação??!!” A ajuda é importante, sempre. E o primeiro passo para aprendermos a viver é sabermos quando é que precisamos de pedir socorro. A ansiedade dá-me muitos tormentos, mas tem-me feito viver muito. Tenho 23 anos e já vivi tanto, às vezes quase tenho vontade de lhe agradecer. Mas outras vezes é incontrolável, mais vezes do que é suposto ser. Quem sou eu para vos pedir alguma coisa(?), mas tenho que o fazer: comecem a dar mais atenção aos vossos amigos e família que sofrem com a ansiedade. Ouçam-nos com atenção. Respirar fundo não resulta, as vossas pessoas precisam falar. Precisam de sentir que estão a viver. A ansiedade pode ser bem canalizada, não torna ninguém menos ou mais capaz. Mas é preciso que se aprenda a viver com ela, que não se torne uma auto destruição.
Com a depressão, é ainda pior. Uma pessoa com depressão não é um triste que para aí se arrasta, é alguém que se sente abafado por ele próprio, é alguém que se sente triste sem qualquer explicação. E mesmo assim consegue rir, consegue fazer rir. Mas sente-se um túnel escuro e é um tormento.
E todos os tormentos são menos pesados quando os que nos são, nos dão a mão.