Cartas para Vadios//6

Porto, 13 de junho de 2019

Dear Duki, 

Começou a roda-viva. Ah como eu gosto desta vida que roda que nem aquela saia da Carolina que nos fartávamos de cantar em crianças a caminho de São Martinho de Mouros, para visitar os meus avós.

“As pessoas perguntam-me muito, sabes… se ainda não te cansaste deste rodopio”, dizia-me a minha mãe agarradinha a mim enquanto aproveitámos o último quarto de hora antes da minha tia chegar e me dar boleia até aqui ao Porto. Olho para ela com carinho e testemunho o que tantas milhares de mães desta nossa geração devem sentir.

Todos os que voam têm de poisar, isto é sabido por todos. Hoje entendo melhor que nunca o poder de estar mais perto. Têm sido tempos muito intensos, Duki. “Meu Deus do céu”, diz-me ela banhada em lágrimas. Olha que eu admiro tanto a minha mãe.

Estudas psicologia, de certeza que já ouviste falar de fibriomialgia e da depressão que ela costuma trazer às cavalitas. Entrou de rompante pela nossa casa dentro, quando eu tinha oito anos. A minha mãe era tão nova, Duki. Em Resende perguntavam-lhe “se era alguma coisa terminal”, não por maldade ou descuido, queriam muito bem à minha mãe, mas ninguém estava preparado para a ver assim.
“Tu sabes que és a minha grande musa”, dizia-lhe eu no tal último cigarro que fumaremos em muito tempo. “Oh, tens cada uma”, respondeu-me com um sorriso tímido. “És mãe; claro que és: Ou tu não vês o quanto escrevo sobre ti? É esse amor, essa força toda que me inspira.” As mães são uma força divina. E quantas mais mães conheço, mais a vida me fascina.
À minha dói-lhe na alma que eu saia tanto, e enquanto sente aquele pesar tão genuíno, acaba por nem ter espaço para se lembrar que sou só mais um fruto de uma linhagem de mulheres que saíram de casa para seguirem os sonhos que tinham. A minha avó, a minha mãe, as minhas tias, todas elas ,Duki, tiveram de deixar as mães para viverem a vida que as esperava. 

A minha avó, que era menina de boas famílias, deixou tudo pelo amor infinito ao seu Amadeuzinho; O pai, primeiro professor das redondezas e a mãe senhora das diplomacias e bons costumes viram-na de malas feitas para ir viver no monte o amor que à partida de lhe dariam pés frios, mas lhe causava arder de peito. Era a rebelde da família, a minha avó Teresinha, ela que haveria de partir com o mesmo sorriso de uma menina.

A minha mãe saiu de casa da mãe dela para estudar aos seis anos. Seis anos Duki, não foi aos 18. Em casa da avó tinha responsabilidade de adoptar todos os primos da cidade que visitavam a aldeia. Uns do Porto, outros de Vila Real e a ganapa não só fazia camas como cortava unhas, dava banhos e punha a mesa para os grandes encontros de família que se davam ao fim-de-semana. Aos seis saía do monte para a aldeia e aos dez mudava-se para Vila Real, onde estudou no liceu até se mudar para o Porto e começar a Universidade. Aos onze tinha as duas irmãs com ela, começou-lhe cedo a maternidade.

Mãe Anabela em Afife// Agosto de 2018

Entendes a responsabilidade que a minha mãe assumiu para se fazer à vida? É uma história inacreditável Duki, a dela e das minhas tias. Mas isso daria para livros e eu escrevo-te cartas.
Sempre que as ouço contar todas as histórias que nos coloriram natais, páscoas e todas as lareiras da alma, embevecia-me a simplicidade e alegria com que cresceram. 

A gratidão que sinto tem raízes profundas, e cada vez que a minha mãe chora as minhas saídas, ela banha os nossos beijos com as lágrimas que também lhe choraram as mães antigas da família, e as tias, e as primas.

Lembro-me de ser miúda e a minha mãe trazer sempre com ela na carteira uma folha dobrada em quatro. Quando estava entre amigos e pessoas de confiança lá puxava da sua incrível capacidade de rir e em voz alto lia uma anedota longa e bem escrita, das que os adultos enviam por mail. Com aquele ar de menina que sempre participou em teatros e declamava poesia de cor, lá contava o encontro de um génio da lâmpada e um homem e que ali poderia expressar o seu maior desejo.

O homem não sabia nadar e humildemente desejava a construção de uma ponte que unisse Lisboa ao Açores (não sei se eram estes os pontos, mas fica a ideia) e o génio ria-se à gargalhada. “Estás louco? Sabes o que envolve construir uma ponte dessa envergadura homem? Os quilómetros, a profundidade, toda a maquinaria e material necessários…”. O pedido era uma loucura, pelo que o homem teve de pensar noutro desejo. Ora o homem deu voltas e mais voltas,  a tentar encontrar um desejo que honrasse aquela oportunidade única e assim se fez luz. “Já sei! Toda a minha vida vi a minha mãe chorar, a minha irmã, mais tarde a minha mulher. Partiu-me sempre o coração assistir a todas aquelas lágrimas. Génio eu desejo saber porque choram as mulheres”. A minha mãe fazia uma pausa e assim preparava o momento. O Génio ao ouvir ao pedido, nem hesitou. “Queres a merda da ponte com duas ou quatro faixas?” Ah! Ainda ecoam em mim as gargalhadas dela.
Todos os filhos sabem quando custa ver a nossa mãe a chorar e, por muito tempo, a minha mãe não conseguiu mais chorar. Também me aconteceu, quando tomei medicação para a ansiedade. E sei bem o quanto faz falta a alquimia que transforma a emoção em água e sal.

Os antigos mestres da cultura Zen falam do poder do agora e de honrarmos cada momento como uma benção aceitando as lições que a vida nos traz. Isto nos livros tem sempre outro sabor, o pôr em prática é que costuma causar alguma comichão. Nos dias de hoje em que corremos e o trânsito entope até que o abrandar significa para por tempo indeterminado, ui Duki não é tarefa fácil. 

A minha mãe nunca cedeu à doença. Embora com o tempo as capacidades dela tenham ficado absolutamente limitadas; a minha mãe nunca permitiu que as pessoas sentissem muito a dor dela. Só estes meus últimos dez anos de dor ciática, brinde que veio no bolo de ter duas hérnias discais, é que consegui finalmente calçar parte dos sapatos dela.

Que força Duki, meu Deus do céu. A dor de costas veio quando também eu saí do ninho, já viste o simbolismo da coisa? Até para ter asas é preciso transmutar. É fácil o meu corpo associar aquela casa a dor. Apesar de ser o núcleo de todo amor e carinho, aquelas paredes já absorveram e muito, o que é sentir no corpo a exaustão de respirar. A fibromialgia é um monstrinho que chega e não quer ir embora, custe o que custar.
E custa muito, Duki. Mas a mãe Anabela entre muito cuidar, passar e tricotar, ainda ganha coragem de baixar a medicação e eis que volta a alquimia de quem consegue chorar.

Agora voltei a casa de coração aberto e cicatrizes curadas, estar ali não é senão motivo de agradecimento e reflexo de nutrição. Logo de manhã ligo a coluna e começamos a dançar enquanto aqueço o meu chá de menta. Eu e a minha mãe conversamos com tempo, apesar de eu passar tantas horas ao computador a trabalhar. E rimos tanto, mas tanto. É tão bom estar de volta, Duki. Mas agora tenho de voltar a voar. E então estamos ainda ali agarradinhas até que a minha tia telefona, que me veio buscar.

No outro dia estava eu em Lisboa e a minha mãe ligou-me, como já é costume, a meio da tarde. “Como estás mamã?, perguntei eu com saudades de lá.

“Olha minha filha cá ando. Mas queres saber uma coisa?”, pergunta-me com tom de felicidade.
“Quero sim, mamã”.
Então fez uma daquelas suas pausas, de menina que fez teatros e declama poesia de cor e preparou-me para um grande final.
“Hoje, meu amor, já não voltei a chorar”.


E pronto, por hoje é tudo. Vou apanhar a roupa; já secou, por este andar.
Um beijo enormi Duki,

Gosto imenso de ti. 

B.

Cartas para Vadios é uma série de cartas enviadas ao meu incrível amigo Duki, no Kosovo.

Cartas para Vadios// 5

Resende, 7 de junho de 2019

Dear Duki,

É sexta-feira e a contagem decrescente para o regresso da Xaninha chega finalmente ao fim. 

O tempo pára quando dou por mim aqui sentada na cozinha a ouvi-la falar sobre mais uma semana de aventuras no trabalho. A minha irmã é de longe a pessoa mais engraçada que eu conheço.

No outro dia encostada à porta da lavandaria pensativa, olhava ela para o horizonte. De repente mexe-se, vira-se num instante para nós e como quem se lembra de algo importante pergunta: “dois anos de trabalho… dá quanto de reforma?”.  Rio-me à gargalhada e ela fica com cara de parva a olhar para mim “vais-te rir de tudo o que eu digo?”. Mas o que é que eu posso fazer? Ela tem saídas geniais, umas atrás das outras e nem se apercebe porque está demasiado ocupada a ser ela própria, sem rodeios. 


Eu e a minha irmã nunca chegámos a ter quartos separados, a casa tem três quartos mas nós decidimos acampar para sempre no mesmo. Partilhamos a mesma cama desde que ela veio ao mundo e esta, em específico, já conta com vinte e dois anos de amor eterno.  Aquela cama é-nos sagrada e há tratado de que nos deitemos juntas nela até que os dias acabem. “E se um dia tivermos maridos?”, perguntei durante o acordo “ dormem juntos no quarto dos brinquedos, ou no sofá”, pareceu-me viável pelo que concordei. Não selamos a coisa com sangue ou saliva nas mãos porque em acordos com a minha irmã bastam-se as palavras enquanto a olhamos nos olhos.

Os meus amigos já sabem que quando estou com a minha irmã, sou exclusivamente dela. Como não passamos tempo suficiente juntas, aqui todos os pequenos momentos são aproveitados como quem bebe a sopa diretamente do prato, não vá escapar alguma gota à colher. Vamos vestir o pijama juntas, enquanto uma toma banho a outra escolha a música e dança em frente ao espelho até que chegue a vez de trocar.

Tentei adiantar ao máximo o trabalho que tenho para fazer para poder aproveitar o fim-de-semana  com ela, há um jantar fora prometido, filmes para ver e muita conversa para pôr em dia. Sendo assim parece-me prudente escrever-te como deve ser lá para segunda-feira. Que te parece? 

Já tens planos para este fim-de-semana?
Olha, a miúda chegou. Tenho de ir.

Um beijo enorme.
Gosto imenso de ti.

B.

Xaninha

Cartas para Vadios é uma série de cartas enviadas ao meu incrível amigo Duki, no Kosovo.

Cartas para Vadios// 4

Resende, 6 de junho de 2019


Dear Duki,

Desculpa falar-te do tempo mas a chuva voltou e com ela vem a melancolia dos dias. Nós bem que precisamos dela, nem que seja para nos obrigar a rever o valor que damos aos dias de sol, esse que não vem sempre que nós queremos. A Terra agradece e eu também. Quem não deve estar feliz é a cambada de turistas que por cá anda. Mas é tão bom sentir vida cair do céu. 

Pergunto-me quando te poderei visitar. É tão injusto não poderes viajar porque o Kosovo não é reconhecido internacionalmente. Quem me dera viver num mundo em que o passaporte não é um privilégio, acredito mesmo que todos os seres humanos deveriam ter o direito de circular pelo planeta em que nasceram, alguém te perguntou se querias nascer aí? A mim também não. E é tão injusto que eu possa ir aí mas tu não possas vir cá.

Nunca me hei de esquecer da vez que me disseste “Não sonhas com mais quando não conheces melhor”. Voltei a ler o artigo que escrevi quando te conheci para recordar o Kosovo e a ti. Lembro-me tão bem de chegar ao White Tree Hostel e ver-te ao balcão do bar enquanto escolhias a próxima música para tocar. Nunca falhaste uma, até hoje, já que todas as músicas que trocamos são de uma precisão cósmica. Quando chegámos a Pristina eu e a Di fomos descansar e quando voltámos ao mundo já o Miguel conhecia a tua malta toda, bem como o preço baixo da cerveja fresca que prontamente nos serviste. Esta foto que te envio foi tirada na tal biblioteca do Pólo Universitário que nos disseste para visitar.

É incrível quando olhamos pela primeira vez nos olhos de um desconhecido e temos uma sensação avassaladora de familiaridade, que ultrapassa a dimensão do tempo como a conhecemos. A alegria que me era estar perto de ti sem ter puto de ideia quem eras inspirou-me de formas e jeitos que eu não entendia bem na altura. Mas o que é que nós entendemos afinal? 

Quando somos pequenos os amigos vêm pelo contexto que a vida nos dá, depois já mais graúdos até na casa de banho de um bar podemos fazer uma amizade para a vida. Se há coisa que aprendi ao longo dos anos é a não menosprezar conexões pelo que é suposto ou não ser normal nas métricas sociais que, só por acaso, mudam com mais ligeireza que a latitude e longitude do mapa em que se encontram. Essa conversa do que é “normal” faz-me revirar os olhos. Mas mesmo a sério. 


Sabes quando ouves pela primeira vez uma música e nos primeiros cinco segundos já te rendeste? Ainda mal começou e aquilo já mexe contigo. Não entendes porquê mas também não perdes tempo a querer saber respostas para isso, não é? Ouvimos, voltamos a ouvir e fica em loop tanto nos headphones quanto na alma. Algumas chegam mesmo a molhar-nos a cueca. A mim, pelo menos. Mas eu também molho a cueca com alguma facilidade, já sabemos.  

Há pessoas que nos tocam assim. As cores que vestem, o penteado com que perderam muito ou tempo nenhum antes de saírem de casa, o sítio de onde vêm ou o tipo de dieta que fazem têm absolutamente zero efeito no momento em que os olhos se cruzam pela primeira vez. Quando duas almas velhas se reencontram nesta dimensão a três pisos, o véu cede e as portas para outros mundos ficam escancaradas. Já não somos dois humanos perdidos nos afazeres de uma vida de dramas e histórias contadas e recontadas que nem cêntimos perdidos na carteira; somos dois anciãos cósmicos que finalmente lá conseguiram tramar o suficiente para se voltarem a ver.
E fica o silêncio. Ninguém precisa de dizer nada, ambos sabemos o que acabou de acontecer.

Quantas pessoas olhaste nos olhos hoje?

Não posso fixar os meus olhos muito tempo nos da minha mãe, que já está de mãos no peito e lágrimas prontas para mais uma saída minha. Acreditas que lhe vou falhar o 60º aniversário? Já perdi a conta aos aniversários que lhes falhei. Não dá para ser tudo como nós gostávamos que fosse, pois não? Acho que são as escolhas difíceis que mais nos fazem crescer. A responsabilidade de pesar por conta própria e pagar o que a balança medir. E que balança.

Começa hoje o Primavera Sound, no Porto. Já não estava cá nesta altura há uns anos, mas desta vez não deu para ir, todos os tostões que tenho estão guardados para acabar o filme.

Quando esta fase ficar pronta e estivermos cá sãs e salvas vou organizar um festão. Quem me dera que viesses e passasses as tuas músicas. Molhávamos a cueca juntos.

Ainda hás de ver o mundo Duki, escreve o que te digo. 

Ou então escrevo eu:
Ainda hás de ver o mundo, Duki. Ainda hás de ver o mundo.

Já está.  

Um beijo enorme.
Gosto imenso de ti.

B.

Com a malta do White Tree Hostel, no Kosovo. O Duki nesta foto está ao meu lado direito.
Fotos: Diana Tinoco


Cartas para Vadios é uma série de cartas enviadas ao meu incrível amigo Duki, no Kosovo.

Cartas para Vadios// 3

Resende, 5 de junho de 2019

Dear Duki,

É meia noite e trinta e seis, finalmente todos foram dormir. Cá somos ninho de corujas, eu é que saí mais para o andorinha, mas a sério, os pais carvalho deitam-se tarde.

Eu tenho sido menina de manhãs, era mais nos meus tempos de Resende que eu acabava por me esticar mais nas horas. Mais tarde, feita à vida, já depois da faculdade, comecei a ganhar mestria no aproveitar das manhãs e do sossego pela noite.

Enfim, mas estou temporariamente de regresso a casa, não é mesmo? A primeira casa, onde aprendi a escrever. Reparo agora que é como um santuário literário para mim, esta casa. Foi aqui que assinei cada bilhete de boa noite para os meus pais, foi no quarto deles em frente àquele enorme computador que escrevi documentos em comic sans sem fim, a cozinha onde a minha mãe me ofereceu e emprestou livros. Onde nos rimos do Papalagui. Onde assinei todas as primeiras cartas.


Estar por cá e sentir-me mais conectada com a criatividade, depois de um bloqueio quase de um ano tudo isto é de uma substância que me ultrapassa. Sinto-me tão feliz.

Agradeço que seja contigo com quem partilho tudo isto. Saber de ti e da tua vida, partilhar toda esta loucura que vivemos este ano, ainda que sem nunca mais nos termos visto ou falado por chamadas como faço com tantos outros amigos com quem mantenho ligações fortes, mas distantes, bem presentes.

Também tu estás de volta a casa dos teus pais, porque assim teve de ser. Agora falamos disto que é voltar ao ninho amadurecidos, capazes de estarmos presentes para os nossos, sem qualquer tipo de fastio por cá estarmos, apenas com uma gratidão e uma enorme sensação de felicidade.

Hoje, que é mais ontem, a minha mãe lembrava-me, enquanto eu fazia o meu almoço à parte – já que agora não como carne e sei que é um fim do mundo para ela pensar em dois menus; que foi há 16 anos que viajei para a Bulgária. A minha primeira viagem Duki, foi há 16 anos. Meu Deus e eu estou tão ciente da importância que ela teve. Lembro-me de olhar pela primeira vez pela janela do avião. O êxtase de ver o céu.

O que é que vês da tua janela?

Aos dez anos, em 2003, fui à Bulgária representar a única escola do país que abria portas ao Projecto Sócrates. A sensação de descobrir um mundo absolutamente desconhecido confirmou logo um desejo já intrínseco de querer ir além das fronteiras do horizonte visual e explorar o mundo. Sabes quanto é que eu trincava de inglês? Ahahahah Exato, bola. Não cheirava quanto mais trincava.  Era o meu primeiro ano a aprender a lingua! Duki imagina-te a viajar para um país que tu nem sabias que existia, em que não percebes absolutamente nada do que os adultos falam, tudo é comunicação não verbal e respostas a todo o tipo de estímulos sensoriais. Eu estava tão pedrada de realidade! Ahah

Fui com a Sara e a Professora Fernanda, que era a nossa professora de Lingua Portuguesa e minha vizinha de prédio. A Professora Fernanda; lembro-me de olhar para ela com ar de admiração e respeito porém com um fascínio associado ao facto de ela representar tanto mundo diferente, só por ser ela. De Vila Real, solteira, tinha sido a diretora da escola e os alunos tinham-lhe o respeito de suster respiração. Sabes aqueles professores que conquistaram fama de maus, mas que depois todos nos apercebemos que eram também de uma exigência que nos quer bem e que nos ensina tanto? Pronto, dessa mesmo. 

A Professora Fernanda era dócil e tinha experiência de maternidade com os sobrinhos, pelo que nos adoptou durante uma semana como dois pintainhos que não fazem nem ideia ao que vão.

A primeira vez que andei de avião foi com uma mulher assim e uma colega, a Sara, que na minha história representa o carácter feminino rebelde, despachado, que sabe o que quer e que não está nem aí para os julgamentos que possam vir. A Sara era uma miúda linda, meu Deus. Tinha vindo de Lisboa para Resende, imagine-se só a mudança. Passados uns anos eu iria para Lisboa e pensaria na Sara com ainda mais carinho.

A Bulgária e toda a sua pobreza, ainda assim tão majestosa e impressionante. Fomos a escolas, ficamos em praias deslumbrantes e reunimos com professores de vários países. Visitamos grutas e templos antigos. Não me perguntes como, mas lá me conectei de tal forma com os adultos do grupo que no final vim cheia de presentes, bilhetes e saudades de pessoas.

A partir daí Duki, veio o mundo. Comecei uma expedição contínua motivada pela vontade de investir no Inglês e em todas as oportunidades que pudessem trazer-me mais noções sobre o planeta em que crescia. Tinha dez anos quando me apercebi da dimensão da gratidão que sentia pela família que a vida me tinha dado.

Ter crescido em Resende foi uma das melhores prendas que eles me podiam ter dado. Poder crescer perto do campo, com amigos de todas as idades e vindos de tantos contextos diferentes, sempre com noções de partilha. Eu tinha dez anos quando anunciei aos meus pais que ia a uma reunião dos Escuteiros locais. “Mãe vou a uma reunião dos escuteiros”, e fui. E a partir daí fui a todo lado que a vida me deixou, ora de mochila, ora de mala, a dormir no chão ou em cama. O mundo tornou-se a minha concha.

Resende é-me imensamente especial. É o cheiro a pão quente e canela de madrugada, as caminhadas ao anoitecer e o “bom dia menina”, “boa noite menina” dos que me viram crescer.

Antes de voltar à estrada acho que faz sentido falar-te de onde venho, mas agora “Boa noite menino” que me vou deitar.

Um beijo.
Gosto imenso de ti,


B.

Cartas para Vadios é uma série de cartas enviada ao meu incrível amigo Duki, no Kosovo.

Cartas para Vadios// 2

Resende, 4 de junho de 2019

Dear Duki,

São duas da tarde e acabo de acender um cigarro. Meu Deus, a vida realmente ensina-nos a medir as palavras. 

Cresci a adorar a liberdade. Os meus pais falavam-me dela e de toda responsabilidade que ela carrega e sempre me senti absurdamente grata por isso. A liberdade tornou-se um hino que me acompanha em loop de ser e que se fez sagrada. 

Tudo que nos traga vício leva-nos um pedaço de liberdade, pelo que sempre achei que fumar um cigarro seria permitir-me perder um pedaço da ventania que por cá anda. Com o tempo, aprendi a saber usufruir do que, no presente, alguma dessas incongruências acrescentam a este cirandar sem que a liberdade fique comprometida. Já sei como programar-me para não o fazer.

As pessoas dizem tantas coisas… Tenho aprendido cada vez mais a estar calada. Não porque tenha medo do que me vá sair, é só mesmo porque me tenho apercebido cada vez com mais clareza da dimensão de tudo aquilo que não sei que está para vir. Sempre que acho que sei, pimbas. A esfoladela de joelho agora sabe mais a beliscão no braço.

Lá está, a liberdade carrega responsabilidade e só há muito pouco tempo me recordei do verdadeiro poder das palavras. 

Estou na lavandaria sentada de rabo na tijoleira branca, bem junto à janela, com a coluna JBL a tocar uma das músicas da playlist que criei para me acompanhar em toda esta roda-viva que tem sido a minha vida nestes últimos tempos.

O tabaco de enrolar não me sabe propriamente a nada, a não ser ao que na altura me está a apetecer. 

Acabo de receber um mail da Diana com uma foto minha, de há uns tempos, lá onde a terra tem tanto de abençoada como de dor. Adivinha só quem é que está de rabo na tijoleira e cigarro na mão com ar de quem sente a vida às costas, mas com ar de coragem para a atar à cintura que nem mãe que leva o mundo à frente? Ahah, a vida Duki. A vida é incrível.

A minha mãe já se habituou à ideia de que de vez em quando lá irá ver um pedaço de Pueblo na banca da cozinha. Não é que se contente com a minha resposta de que “mamã, não te preocupes. Eu não fumo sempre, mas agora estou a precisar”. E até já acendemos um ao mesmo tempo. Ela é mestra em saber que as coisas não são sempre ou preto, ou branco.

Ontem escrevia-te sobre a minha elasticidade em função do sol e olha, cá estou eu a aproveitar uns raios mais malandros que fogem às nuvens que chegaram ontem para aliviar a tosta dos últimos dias. Ai não acredito. Ah!Ah! Eu acho que nunca tinha visto um lagarto a espreitar aqui na lavandaria. Está aqui, à minha frente, debaixo da janela. Vou mandar-te um story.

Estar em Resende faz-me sempre re-visitar esta dimensão das origens. O ter crescido meia aqui, meia acolá, a aperceber-me que não importa onde esteja, serei sempre eu a criar os meus lugares. É engraçado como perguntas que à partida são dadas como de fácil resposta para tantas pessoas, para mim são as que me causam mais confusão. Desde a epopeia que já conheces associada ao “como te chamas”, às derradeiras “de onde és?”, “onde vives?”, “o que fazes?”.

Às vezes gosto de imaginar como seria responder a tudo isto sem ser como quem decorou uma canção, mas quando isso acontece e o descrevo assim, só por alto, com pouca chama de entusiasmo, é porque ou estou muito cansada, ou não vale mesmo a pena. Mas quando é que não vale?

Tudo à minha volta me faz analisar a forma como vivo a minha vida; com um olhar curioso mas um quanto de pressão para que se compreenda. De repente vejo-me a dar explicações que nem eu tenho. Porque é que os humanos gostam tanto de perceber tudo?

“Eu só gostava de te compreender”, dizia-me um amigo há uns dias em Lisboa, quando lá fui agora para recolher apoios para o filme. Olhei para ele com muito carinho num final de noite bem passada, e bem nos olhos dele ali estava o interesse genuíno de um amigo que gostaria de me compreender. Mas eu também estou a descobrir, não é verdade? Estamos todos no mesmo, só que uns vão pela estrada, outros escolhem a terra batida, há quem vá descalço pelas ervas e quem surfe ondas de flores ora com, ora sem espinhos.  Então eis que lhe respondi “também eu gostava” enquanto me ria à gargalhada.

Fez um ano em Março que a minha vida levou todo o abanão que eu tanto desejava. Eis-me feita à estrada a desbravar mato entre trabalhos e o projecto que de espírito e vontades própria se fez criar.

É a segunda primavera em que o conceito de casa, estabilidade, relacionamentos, enfim as estruturas a que nos habituamos existir estão expostas à indignação da incompreensão dos que me rodeiam e eis que já não me ralo com isso. 

O incrível de sermos flexíveis e seguirmos o caminho que acreditamos ser o melhor para nós, é que nos habituamos a perceber que o que faz sentido hoje, pode já não fazer amanhã. O sítio onde estou hoje pode ter absolutamente nada que ver com o lugar onde vou estar amanhã. Onde é que vou estar amanhã? Já desisti de tentar programar coisas a longo prazo na minha vida, tu sabes disso. Para a semana sigo para o Canadá, depois para lá do Mediterrâneo, planos…Talvez em Agosto, quem sabe?

A sardanisca ainda aqui anda, como eu, debaixo do sol. A natureza está em constante comunicação connosco, se assim a quisermos ver. Quem sempre gostou de histórias, padrões e se fascina pela simbologia das coisas sabe que estar vivo é um constante explorar de estímulos, ora pela arte da vida ora pela estética do passadiço. Chama-me maluca mas estar aqui sozinha, de cigarro na boca e olhos fechados a apanhar sol e de repente ver pela primeira vez um lagartito nesta lavandaria, tem muita piada.

 
Decidi procurar o que é que os antigos mestres de observação e comunhão com a Terra dizem sobre a simbologia do aparecimento de um lagarto num determinado momento do percurso guiado pelo xamanismo enquanto postura de ser, em conexão profunda com a Mãe Natureza que comunica constantemente.

O espírito do lagarto é associado à flexibilidade e adaptabilidade ao ambiente, sinal de superação a circunstâncias adversas, sendo capaz de acompanhar a corrente da vida e o valor inerente de amalgamação na natureza.

São associados à independência, astúcia e introversão. Ahahahah! Que tal? Sentes alguma ligação?

Enfim, hoje é mesmo um daqueles dias. Bendito cigarro. Bendita liberdade.

Logo escrevo-te mais, tenho de ir trabalhar. E fazer xixi.


Gosto imenso de ti. 

B.

Ph: Diana Antunes

Cartas para Vadios é uma série de cartas enviadas ao meu incrível amigo Duki, no Kosovo.

Cartas para Vadios// 1

Resende, 3 de junho de 2019

Dear Duki,

Escrevo-te em português porque é assim que as palavras me saem sem que respirar me custe. Ponderei começar em escrever-te, mas as sincronicidades da vida já me bastaram para perceber que chega de pensar e enfim, façamo-nos à vida. Sabes?

Ora então que decido começar bem pela moda que me é mais natural; admito que cartas à mão me sabem a outra menta, mas para a dimensão da coisa estas mãos foram treinadas toda uma vida. Assim que te escrevo diretamente do computador, como tantas vezes me comunico contigo. Há aqui uma eletricidade sempre presente, já reparaste? Desde o momento em que nos vimos pela primeira vez, há dois anos, no Kosovo. 

Estou de volta a Resende, terra onde cresci e escrevi pela primeira vez num computador. Estes dias estiveram de um calor absurdo. Foram duas semanas de verão em loop de roupas leves e bebida fresca. Eu adoro o calor, derrete-me o sedentarismo de um inverno custoso e mergulhado em sabores que nos aquecem a alma. O calor faz-me mexer, faz-me procurar a água como um peixe sedento de casa e obriga-me a viver o meu lado mais feliz, social, livre. É como se de repente me apercebesse do pequeno sardão que me tornei, numa procura solar constante, como quem precisa que se lhe aqueça o coração.

O frio faz-me mal aos ossos, traz com ele muito menos luz e eis que dou por mim a mover-me para outros climas e lugares, numa tentativa abelhítica de encontrar outros jardins. 

Faltam três minutos para as duas da manhã e como é óbvio estamos a falar pela net. Já não vejo a tua cara há dois anos e é aquele ícone azul indigo arroxeado da tua foto que me transporta visualmente para a tua presença. Nem a tua voz! Duki eu não ouço a tua voz desde que nos despedimos em Pristina em Outubro de 2017. Tenho mesmo de te ir visitar. Como o mundo mudou entretanto…O de fora e o de dentro; sabes. 

Ao abrir o Facebook vejo o título “Já chorei pra caramba”, diz Bolsonaro sobre cinco meses de governo, com ar de quem pede socorro. Ahahah! O mundo, Duki… o que é que se passa com o mundo? Além de todos os rodopios, claro. Dos rodopios nós sabemos. 

Por falar em mundo e rodopios, hoje é noite de Lua Nova em Gémeos. Acabámos de ler o que a Katie escreveu. Dizes-me “Say whaaat? Sometimes is just too real haha”. E é mesmo.

É mesmo fascinante como nos podemos mesmo sintonizar com o universo. Ele está cá dentro, afinal de contas, não é? Mas às vezes parece que nos esquecemos disso. Eu pelo menos, sei lá. Sinto tanto estas coisas, mas é como se por momentos quase me perdesse por entre outras ondas rádio que se vão metendo pelo caminho. Ainda dão aquele “krrr” de quem até se ouve, mas não declama. Felizmente hoje em dia temos Spotify. 

Acabo de saber que vou na próxima semana trabalhar para Montreal, no Canadá. Ai as voltas que a vida dá. Mas esta conto-te quando a processar, preciso de tempo para organizar as ideias.

Olho para as horas são 2:22 da manhã e claro que já comentámos isso. Respondeste-me “it’s on”. Está mesmo, então não está?
A vida tem sido de uma dureza dócil desde que a aceitei sem muito mais porquês. Sinto que este ano cresci várias vidas e hoje lembro-me melhor do que nunca da magia que é estar por cá. No entanto, estou cansada. Mas enfim, quem não está? 

Amanhã escrevo-te mais. Boa noite Duki, estou off. 

Gosto imenso de ti. 

B.

Cartas para Vadios é uma série de cartas enviadas ao meu incrível amigo Duki, no Kosovo.