Migrantes. Na Sérvia o pesadelo ainda não acabou

A fronteira da Sérvia foi a mais complicada de passar. Mandam-nos sair do autocarro, abrem-se todos os possíveis compartimentos e percebemos mais tarde que a situação do tráfico de migrantes assim o exige. Os que trabalham com o assunto contam-nos que a Sérvia está lotada e os que vieram a sonhar com a Europa não têm onde ficar.

Chegámos à Sérvia já era noite, depois de uma viagem de doze horas de autocarro. Os assentos eram desconfortáveis, não havia internet e as pessoas não falavam todas as mesmas línguas, o que dificultava a comunicação. Uma rapariga cigana romani de 23 anos trazia consigo dois filhos, um ainda com meses e uma menina de dois anos. Iam sentados à nossa frente e na fronteira implicaram com o passaporte e sobrenome das crianças, que era alemão, como o do pai.Ao fim de algum tempo deixaram-nos passar até à entrada da Sérvia, mas obrigaram-nos a sair do autocarro e a sentir cada extremidade do corpo a gelar, já que as temperaturas naquela zona eram as mais baixas que sentiríamos durante toda a viagem. Abrem todos os possíveis compartimentos e inspeccionam todo o autocarro.

A partilha deste momento com trocas de olhares empáticos seguidos de suspiros de quem está em sofrimento fizeram com que todas as pessoas, agora fora do autocarro começassem a comunicar, quanto mais não fosse por gestos. Assim conhecemos um professor sérvio sexagenário doutorado em línguas que havia perdido a visão ainda em criança, mas cuja independência era no mínimo inspiradora. Contou-me algumas das suas histórias, a forma como se apaixonou pela mulher que não sofre do mesmo problema, sobre o nascimento das filhas e sobre todos os livros que já escreveu e traduziu em braile.

Chegámos a Belgrado completamente exaustas e assim ficámos no hostel mais barato de toda a cidade, onde pagámos seis euros por noite por uma cama em camarata de oito.

As diferenças de temperatura haviam chegado à falha sistémica dos nossos sistemas imunitários e a partir daí seguiu-se uma temporada complicada no que diz respeito à gestão de energia e curiosidade em conhecer o que havia escondido pelas cidades.

Assim que nos afastássemos da zona do hostel, que era em frente à principal estação ferroviária, os contrastes sociais seriam demasiados. A caminho do centro da cidade, que é moderno, repleto de artistas de rua, livrarias e galerias de arte, conhecemos o lado mais ingrato da cidade.

Num parque à beira rio, debaixo de uma ponte, centenas de homens se aninhavam todos os dias ao final da tarde com cobertores, sacos plásticos e olhos de quem não foi aquilo que imaginou para si. 
A frustração, o desespero e o cansaço são três estados cravados na pele de todos os migrantes que chegam diariamente à capital de Belgrado, com esperança de conseguir ultrapassar a fronteira com a Hungria, ou a Croácia, e assim alcançar a tão sonhada Alemanha. 
O sonho europeu é real e ainda não parou de alimentar uma corrente de gente do oriente cuja dimensão “parece infinita”, dizia Dorde Petrović de 35 anos, responsável pela gestão de trabalho da Crisis Response and Policies Center que trabalha em conjunto com a equipa das Nações Unidas – UNHCR – cuja parceria se centra única e exclusivamente em ajudar todos os que chegam a Belgrado a legalizar a sua situação. Mas não só: é com este grupo de voluntários que se registam todas as necessidades básicas necessárias para que se mantenham de boa saúde, com informações atualizadas sobre a gestão política das fronteiras, bem como sobre os campos que os poderão acolher.

Há dois anos o fluxo migratório na Europa explodiu. A crise humanitária envolveu centenas de milhares de refugiados, oriundos maioritariamente do Médio Oriente e Norte de África que procuravam um oásis na Europa Ocidental.

A situação mais crítica envolvia refugiados, mas hoje a realidade centra-se em migrantes a quem lhes foi vendido o sonho europeu. “Diziam-me que na Europa davam dinheiro na rua às pessoas e que havia mais emprego do que trabalhadores. Como passávamos fome o meu pai juntou o que tinha e comprou uma viagem a um traficante que entretanto me abandonou. Já fui capturado em várias fronteiras, espancado”.

A corrente de pessoas que passa pelo centro de Belgrado “parece não ter fim”, diz Marija Majanovi,ćde 27 anos, voluntária e chefe de comunicação do centro de apoio aos migrantes. “Isto não é nada, antigamente recebíamos grupos de centenas de pessoas todos os dias, sem hora de melhorar à vista”, explica, enquanto comenta a frustração permanente de quem quer ajudar mais e não tem permissão para tal. “O governo proibiu-nos de dar roupa e bens alimentares. No inverno chegaram a estar milhares de pessoas em barracos atrás da estação”.

Ali bem no centro da cidade está montado um centro de acolhimento aos refugiados e migrantes que chegam a Belgrado perdidos num rumo que têm na cabeça, mas que não chega a passar daí. Pelo menos não para os que falam connosco sentados no chão, cobertos com mantas, em pequenos grupos de companheiros de viagem cuja única coisa em comum é o nome do traficante que os levou até lá. Refugee Aid Milesalishe (RAM) é o nome do centro que reune associações e grupos ativos na recepção destas pessoas. “Save the Children” é uma delas e uma dos seus voluntários diz-nos não ter ideia de quantas crianças haverão chegado às instalações do centro sem qualquer adulto.

O centro não está preparado para acolher tantas pessoas durante a noite e é por isso que todos os homens são convidados a deixar as instalações, abrigando-se em parques, debaixo de escadas, ou até mesmo pontes. Zeez, de 17 anos, foi um dos refugiados que abandonou a Síria para fugir de um cenário que se tornou incomportável. O objetivo é encontrar a mãe e os irmãos na Alemanha, mas por enquanto está “preso” na Sérvia, já que a Hungria fechou as fronteiras. Zeez deixou a sua terra em 2010 e desde então está sozinho, por sua conta. O traficante que o trouxe até cá abandonou-o depois de gastar todo o dinheiro na praga de casinos que se estende por toda Belgrado. Foi durante a sua odisseia que descobriu um linfoma a que teve de ser operado de urgência e é graças ao centro RAM que vai conseguindo acompanhar a evolução da doença. Hoje, enquanto a sua história não evolui para um final feliz, decidiu aproveitar o tempo sendo intérprete no centro de apoio onde foi recebido. “É tudo uma questão de sobrevivência. Temos de tentar tirar o melhor possível da realidade e a minha não vai mudar tão cedo”, diz-nos enquanto almoçamos. “Há quem esteja pior do que eu, pelo menos agora tenho onde dormir e já falo bem a língua”.

Quem não está com o mesmo ar é Rawa que deixou os quatro irmãos e o pai no Iraque com esperança de, juntamente com a mãe, conseguir encontrar a irmã que se casou com um alemão há alguns anos. “Viemos num grupo de 14 pessoas a pé, de carro, em malas de camiões e carrinhas, o homem a quem comprámos a viagem não foi isto que nos prometeu. Não era isto que vínhamos para encontrar”, diz-nos com um inglês aprendido graças às canções e aos filmes que via. Mostra-nos o aparelho dos dentes. No Iraque era protésico dentário e conduzia o carro de um advogado. “Espero chegar à Alemanha e conseguir trabalho como protésico para poder mandar dinheiro para casa e dar uma boa vida à minha mãe. Enquanto falávamos chega um grupo de nove paquistaneses. Estão em viagem há um ano e meio. O único que fala inglês acaba de saber que vai ter de dormir no parque: “Temos fome, temos frio, mas pior de tudo é já não termos a esperança que nos fez sair de casa, agora só Deus sabe”.

 

Foto: Diana Tinoco

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Macedónia. Viagem à capital europeia do kitsch

Ao visitar a capital da Macedónia fica-se com a sensação de que as ruas foram invadidas por seres inanimados de bronze, de todos os tamanhos e feitios. A estética é questionável, o número total de estátuas, ninguém sabe ao certo

Saímos de Pristina para Skopje num miniautocarro que bateu recordes de falta de conforto. Era já noite cerrada quando chegámos a Skopje, capital da República da Macedónia – república esta que tem o mesmo nome de uma região da Grécia, tendo-lhe isso já valido uns quantos problemas a nível de política internacional. A República da Macedónia foi, ao longo da História, massacrada por invasões de países vizinhos e, depois da Guerra dos Balcãs, os gregos recusaram-se a reconhecê- -la, já que o país se estaria a apropriar do nome de uma região grega, bem como da bandeira com a estrela de 16 raios amarelos em fundo vermelho de Alexandre, o Grande. Mas o governo da Macedónia não fez caso e Skopje é a área com mais bandeiras hasteadas por metro quadrado que eu alguma vez visitei.Skopje é fria e cinzenta nesta altura do ano. Estávamos à procura de um lugar para jantar quando descobrimos o centro da cidade. É difícil descrever a mistura de sensações que esta cidade me provoca. As pessoas não falam inglês, não se mostram muito disponíveis para conversas e, por isso, passo ao papel de mera observadora. 
O centro da capital dá-nos a sensação de estarmos em plena Disneylândia, há estátuas por todo o lado, umas enormes, outras mais pequenas, há estátuas de todos os tamanhos e feitios, e não é por ser expressão, aqui foi mesmo para inglês ver. Se recuarmos apenas quatro anos, a Macedónia sofreu uma transformação no mínimo “radical” e fora do comum que tinha como objetivo atrair o turismo e lembrar os heróis e ícones nacionais.

Os edifícios recentes têm um estilo neoclássico que não condiz com o que o país viveu nos últimos anos, ignorando grande parte da influência da população da Albânia no decurso da história do país. Há mesmo um enorme Arco do Triunfo, e quem não estiver informado sobre o projeto recente de reabilitação da cidade e não conhecer o investimento de quase 500 milhões de euros gastos na sua decoração fica a achar que está perante uma capital imponente, majestosa, gloriosa. A ideia parece ter sido essa, mas falha tremendamente assim que damos de caras com crianças a pedir dinheiro na rua, quando se vê a miséria dos mais velhos ou até mesmo quando se sabe que o salário mínimo é de 237 euros mensais.

Na cidade já se fizeram manifestações e faz-se a piada à falta de gosto, bem como se apontam severas críticas à forma como este dinheiro foi gasto. O número total de estátuas é um mistério para quem passa, diz-se que há gente que contou mais de 60, e não estamos admiradas.

Do outro lado da cidade parece termos chegado à Turquia, com a elegância e as infinitas cores que se propagam pela luz dos pequenos estabelecimentos do Old Bazar.

Na rua há uma enorme banca de livros que se amontoam sem fim. Uma mulher de poucas palavras encaixa aqui mais um, ali mais outro. Fica difícil perceber como alguém conseguirá escolher um livro naquela enorme montanha de ar tão frágil. Ela chama-se Sonia e garante que ali estão mais de 500 livros que vai trocando de posição todos os dias, talvez como ritual, talvez como método de negócio, não se percebe bem.

Recebo uma mensagem no telemóvel, é um amigo meu que me pergunta onde estou. “Na Macedónia”, respondo-lhe. Ao que ele me responde: “Quão estranha achaste Skopje?” Entretanto, rio-me para um condutor de charrete que já a guia há três anos. “Agora fica bem cavalos a passar aqui. São 100 moedas por dia”, diz Traitche, de 52 anos. Os dois cavalos são brancos com pintas pretas, e têm 13 e 14 anos. “Desculpe, não sei falar bem inglês”, diz-me com ar desconsolado.

Vamos para o hostel e é por lá que conhecemos Guney Baser, um jovem turco de 25 anos que fez um percurso semelhante ao nosso nas últimas semanas. Vive em Munique, onde vai terminar a nossa viagem. Estuda por lá porque queria viver longe das regras e da nova onda política da Turquia.

Conta-nos sobre a educação de esquerda que a mãe lhe deu e como há um enorme preconceito na Alemanha em relação aos da sua nacionalidade. “Acham que somos todos muçulmanos só porque somos de um país muçulmano. A minha mãe nunca me ensinou a rezar e eu nunca entrei numa mesquita sequer”, conta-nos enquanto bebemos chá. Estão apenas nove graus e um rapaz passa por nós de calções e t-shirt. Pergunto-lhe se não tem frio e como consegue andar assim com aquelas temperaturas. “Sou inglês, isto é brincadeira”, responde-me o jovem também de 25 anos, que é cientista e se refere ao seu objeto de estudo como “o meu fungo”.

Será na Macedónia que uma gripe nos apanha desprevenidas. E é precisamente quando estamos a comprar lenços de papel numa espécie de supermercado na estação de comboios de Skopje que Richard, de 72 anos, nos aborda. Tem um ar mais saudável que o nosso naquele momento. Nascido e criado no Kansas, nos Estados Unidos da América, o espesso cabelo branco serve de disfarce à alma extremamente jovem que alimenta com viagens todos os anos. Hoje vai apanhar um autocarro para conhecer a aldeia onde cresceu parte da família do seu amigo da Macedónia. Adora Portugal, onde irá em breve com a filha e netos, mas veio à Macedónia para se encontrar com um amigo que é de cá. Milan, um jovem local de 27 anos, trabalhava no bar que Richard frequentava quando em férias em Skopje, há uns anos. Desde então, ficaram amigos e Richard visita-o constantemente. A amizade não escolhe idades, explica Richard, “porque a idade está na cabeça”.

 

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Kosovo. “Não sonhas com mais quando não conheces melhor”

Eram crianças quando foram enviados como refugiados para outros países, assim que rebentou a guerra. Hoje não há espaço para muitos sonhos, já que não podem conhecer o que há para lá das fronteiras de alguns dos países vizinhos

Acordar em Pristina não é assim tão diferente de acordar numa cidade tipicamente ocidental. Apesar de a população, hoje em dia, ser quase completamente de origem albanesa, culturalmente muçulmana, os prédios são novos, as lojas que vemos nas nossas ruas também estão cá, os carros que circulam são de topo de gama, há poucos vestígios de religiosos por estas bandas. “É o que dá fugir aos impostos”, diz-nos um dos rececionistas do hostel onde dormimos quando lhe pergunto como é que, com uma economia tão fraca, há dinheiro para carros tão bons.O Kosovo é um assunto sensível nos Balcãs: os sérvios torcem-lhe o nariz, os bósnios dizem não saber nada e os cidadãos do Kosovo já se conformaram com a situação. Pelo menos é o que nos dizem as dezenas de jovens locais que todos os dias vêm ao terraço do White Tree Hostel para manter a conversa em dia, entre turnos de empregos que lhes pagam contas e intervalos de faculdade. 
Sentada no terraço, observo muitos deles. Têm estilo, são modernos e ousados. Há muitas raparigas com cortes de cabelo mais rebeldes, curtos, pintados. Os rapazes passariam facilmente por jovens de Lisboa ou do Porto, parecem mais velhos do que a data de nascimento do passaporte indica. Desde manhã cedo até à meia-noite, hora a que tem de fechar o bar do hostel, não há uma única música que venha deslocada ou mal pensada numa playlist. “Isto é da erva que se fuma neste país”, diz a rir-se um dos amigos que passam muito do seu tempo ali.

Juntam-se à minha volta, há cervejas na mão de cada um deles. São mais de sete rapazes e uma rapariga, todos eles curiosos sobre a forma como se vive em Portugal. Digo-lhes que um dia têm de visitar-nos. “Não podemos, somos do Kosovo. Estamos presos aqui”, diz-me Duki, de 25 anos. “Enquanto não nos aceitarem como país, o nosso passaporte não vale nada.” Pergunto-lhe como se sente em relação a isso, se há movimentos juvenis que queiram mudar essa realidade. “Nós crescemos a saber que isto era assim. Não sonhas com mais quando não conheces melhor.” O amigo, Gjin, teve outra sorte. “Quando tu nasceste em Portugal, tranquila, nós nascemos na guerra. Com um ano, eu era refugiado na Macedónia. Depois mandaram-me com os meus pais para os Estados Unidos da América. Foi a minha sorte, hoje tenho cidadania e posso ir onde quero”, explica, enquanto cada um deles partilha os países onde foram refugiados em criança. Toda gente fica em silêncio. Aquele que é o país mais jovem do mundo poderia ser um poço de esperança sem fundo; no entanto, aparentemente dizem estar tudo bem. “Temos ar de gente triste?”, pergunta um dos rapazes do grupo à gargalhada, enquanto acende um cigarro.

“Vocês lá fora têm uma ideia errada sobre nós. Como é que cá chegaram? Na internet lemos tantas coisas erradas sobre o nosso país”, continua, enquanto bebe um gole de cerveja.

Conto-lhes do secretismo da viagem, da nossa surpresa ao encontrarmos uma capital tão nova e moderna. Riem-se à gargalhada, quase se orgulham do cenário cinematográfico. “É o que dá as pessoas falarem do que não sabem: quem vem já não quer ir embora” diz-nos um dos rapazes do hostel, que aponta com os olhos para um finlandês que já lá está há um mês. Faz 53 anos no dia seguinte, viaja numa Honda vermelha, era para ter ficado apenas dois ou três dias, mas não consegue deixar Pristina. “Isto é tão bom. Eu amei Portugal, as pessoas de Portugal, mas não quero ir-me embora do Kosovo, talvez amanhã”, diz-me enquanto bebe um shot de tequila às três da tarde.

Lá fora, um grupo de rapazes fuma erva. Mostram-me fotografias no telemóvel de um amigo que lhes enviou uma fotografia com a descrição “já tenho pequeno-almoço”. É uma tigela de cereais cheia de pastilhas ecstasy. As drogas circulam facilmente nos Balcãs e o Kosovo não é exceção. Um dos jovens conta-me que sonha trabalhar na preservação dos lobos. “Um emprego que dê para comer e pagar contas, mas que me faça feliz”, diz-me.

Almoçámos no hostel por 2,60 euros: uma omelete com queijo e uma dose de batatas fritas. Os preços são tão baixos, os salários residuais, pergunto quanto pagam por um quarto no centro da cidade. “Ronda os 70 euros, ganho 250 aqui no hostel. Dá para viver”, comenta o rececionista mais ativo na conversa.

Ao sairmos do hostel em direção à praça principal deparamo-nos com um largo onde circulam várias miniaturas de carros a bateria conduzidos por crianças. Alguns têm mesmo faróis acesos. Os pais também são jovens, é raro verem- -se idosos na rua. No Polo Universitário, em frente à biblioteca, está a decorrer a gravação de um videoclipe. Há um músico com um citfeli – instrumento de cordas típico da Albânia – na mão. Uma rapariga ainda adolescente veste trajes tradicionais. Parece uma boneca, tem olhos claros e pele branca, quase parece desenhada por um artista cerâmico. “Todos os países têm no YouTube uma versão do Despacito, ainda não há nenhuma daqui. Por isso, vou ser eu a fazê-la”, conta-nos Fatmir Makolli, famoso músico nacional, que está orgulhoso de toda aquela produção de televisão, bailarinas e takes que se repetem continuamente.

Drenis tem 19 anos, é filho do produtor deste videoclipe. Estuda Economia na faculdade e desbrava a história do país e da região. O ódio aos sérvios é notório: “Não é aqui na capital que vocês vão ver o que a guerra nos fez. É nas aldeias.” Lamentamos não ter tempo para explorar o interior do país. “Estão a ver aquela igreja ortodoxa ali? Os sérvios construíram-na em 1995, no meio da guerra, para que pudessem reclamar a área à volta. Têm a mania que são espertos, mas nunca deixámos que a terminassem. Está ali só para nos humilhar e não podemos deitá-la abaixo”, diz com desprezo enquanto olha para a inacabada construção, bem no meio do campus universitário. Em 2016, depois de um incêndio, alguns membros da comunidade sérvia tentaram, sob o pretexto de limpar, reconstruir e pintar a igreja, que sempre permaneceu vazia e que nunca chegou a ser terminada, mas o município impediu que continuassem.

A rapaziada que para no White Tree Hostel não partilha desse ódio aos sérvios. Drin, de 27 anos, não tem paciência para um mundo em que as pessoas se querem mal. “A guerra não foi nossa, eu não lutei por nada. Uma vez, no Facebook, fiz um amigo num grupo e vi que era sérvio. Eu perguntei-lhe, ‘sabes que sou do Kosovo?’, e ele disse que não queria saber. A nossa geração não quer mesmo saber, somos mais inteligentes do que isso.”

Foto: Diana Tinoco

Texto publicado em: https://ionline.sapo.pt/artigo/584922/kosovo-nao-sonhas-com-mais-quando-nao-conheces-melhor-?seccao=Portugal_i

Kosovo. Do secretismo da fronteira à surpresa de Pristina

Crescemos num Portugal seguro, um país de clima invejável, rodeadas de pessoas boas. Em Portugal, qualquer um que junte uns trocos, tem liberdade de voar para onde quiser.

Seja de avião, à boleia, de autocarro ou de comboio, seja de mota ou a pé, de bicicleta ou de carro, os portugueses viajam e, salvo raras excepções, ninguém nos quer mal, nos manda parar em fronteiras porque nascemos no canto errado, não há sentença pela nossa origem. Até hoje, o mais perto de resposta agressiva que recebi por ser portuguesa foi um grito com o nome do Ronaldo, que se seguiu de um sorriso estonteante. Será no Kosovo que vamos ouvir pela primeira vez relatos de gente da nossa idade, nascidos em 1992 e que por serem cidadãos de um país não reconhecido, lhes é negada a possibilidade de ver e visitar outros mundos.

Nos preparativos da viagem, já se sabia que haveria um ponto delicado ali no meio dos Balcãs, que iria exigir de nós bastante mais do que contávamos. Olhávamos para o mapa e a sensação era de uma névoa, um cinzento típico do desconhecido. Se queremos ir ao Kosovo, temos de estar preparados para o que ele tem para nos dar e todos nós, nascidos na década de 90, crescemos com expressões na nossa língua que automaticamente nos indicavam o pior do que por lá se poderia encontrar.

Kosovo foi sempre equivalente a tragédia, confusão, mais anárquico que o próprio Texas, “vai para ali um Kosovo” e o preconceito nasce em nós sem nos perguntarmos bem, quando pequenos, sobre o significado das coisas.

O Kosovo é sempre “muito complicado”, até para os especialistas, os diplomatas, os que tratam dos jogos de xadrez da geopolítica, assim nos dizia mais tarde um norte-americano, marido de uma diplomata a trabalhar com as Nações Unidas em Pristina, capital do Kosovo.

Durante esta viagem que começou a 19 de setembro, sempre que tocámos no assunto “Kosovo” ou se suspirava, ou se bufava, ou nos faziam sinal para falar baixo. “Ninguém fala disso aqui, nós nem podemos lá entrar”, diziam-nos na Bósnia e Herzegovina. Se era ou não assim tão grave, não percebemos bem. A verdade é que toda gente se recusava a informar-nos sobre como lá chegar. Na internet a informação era residual. Nas ruas ouvíamos constantes “não sabemos de nada”.

Em Mostar, o nosso anfitrião disse-nos que o melhor sítio para passar a fronteira pela Bósnia era por Novi Pazar, área muçulmana da Bósnia e Herzegovina: “Pela Sérvia é impossível, eles recusam-se a aceitar a existência deles como um país independente”. Seguimos a pista que nos diziam para irmos até à estação de autocarros de Sarajevo e por lá procurámos um que nos levasse até Novi Pazar. Quando chegámos ao autocarro, íamos a pousar as malas quando um senhor, que não o condutor, nos sussurrou: Pristina?

Afinal o assunto estava ao nível de segredos aos ouvidos. O Kosovo é uma nação recente e ainda existem muitos países que não lhe reconhecem a independência da Sérvia conquistada de forma unilateral em 2008, tais como a Rússia, o Brasil, a Espanha e a China que temem movimentos separatistas do género e que este seja considerado um exemplo internacional.

O autocarro não ia cheio como é costume. A maioria das pessoas eram já de idade avançada e ninguém falava inglês. Por dentro, a cor era de um vermelho aveludado, dando uma sensação mística à viagem. No meio da viagem o senhor que nos perguntou sobre o nosso verdadeiro destino começou a vender bilhetes. Quando chegou a nós pediu-nos sete euros. Ainda tínhamos marcos bósnios e, por sorte, lembrei-me que tinha comigo alguns euros guardados. Apesar de não fazer parte da Zona Euro, os habitantes do Kosovo começaram a utiliza-la assim que a Alemanha o fez, ainda em 2002.

Assim que nos disse sete euros houve uma gargalhada geral. Falava-se albanês e percebemos que estavam a rir-se de nós. Pela primeira vez em toda a viagem não sabíamos se estávamos no roteiro previsto ou no autocarro certo, muito menos com as pessoas certas. Ninguém falava inglês, riam-se de nós a comprarmos um bilhete e quem nos garantia que íamos mesmo para Pristina? Restou confiar.

Como a viagem ia ultrapassar as doze horas e era já noite cerrada, acabei por adormecer tão profundamente que quase não dei conta de pararmos em Novi Pazar. Quando dei conta, tinha uma polícia a pedir-me o passaporte dentro do autocarro.

Estávamos a sair da Sérvia. Lá fora estava um nevoeiro cerrado. Não percebi se era um rio, se era um lago que nos acompanhava. Mas estávamos no meio do nada. Veem-se uns contentores, nitidamente prontos para serem transportados assim que necessário, a servirem de pouso administrativo. Os passaportes voltam a ser recolhidos e agora carimbados. Do outro lado, quem vem de lá para a Bósnia, tapam-se as matrículas dos carros. Estamos oficialmente no Kosovo.

O salário mínimo por aqui é o mais baixo de toda a região, 130 euros para pessoas com menos de 35 anos e 170 para os que são mais velhos. Segundo o Eurostat estes valores não se alteram desde 2011. O contraste é enorme quando comparado a outros países dos Balcãs a ocidente, como a Eslovénia que conta com um salário mínimo de 805 euros, ou a Croácia com 433 euros mensais. Mas o Kosovo não está assim tão desfasado de países como a Albânia cujo salário mínimo é de 155 euros.

Apercebemo-nos nos outros países que existem vários mitos sobre a população do Kosovo que, pelo menos ao que vamos conhecer, não correspondem com a realidade. Falam-se em clãs de famílias, em subsídios pós guerra que sustentam o desemprego. Explicam-nos que o ódio instalado nos Balcãs é milenar. E sobre a população albanesa que reclamou o direito ao Kosovo como independente desenha-se a ideia de uma população preguiçosa, limitada, pouco informada.

As capitais nunca representam dignamente o que é um país, já que todo o crescimento se costuma concertar por lá, mas as pessoas que iremos conhecer vieram de fora da cidade, para procurar emprego e uma vida mais digna. Quando pergunto, mais tarde, a Drin Halipi de 27 anos, a viver em Pristina e a trabalhar como assistente técnico de uma empresa de telecomunicações sobre estes factos a cara dele é de choque. “É claro que dizem isso sobre nós, sem nunca terem posto cá os pés”, diz-me enquanto fuma um charro. Pergunto-lhe sobre a existência ou não de mitos, sobre a hipótese de propagação de informação falsa e quais seriam os motivos para que tal acontecesse.

“Nós recebemos apoio das nossas famílias que emigraram e enviam-nos dinheiro, mas que eu saiba mais nada”, responde. “Eu trabalho num emprego onde não sou feliz para me sustentar. O desemprego é altíssimo mas os meus amigos que não estudam trabalham todos. As pessoas são loucas. Somos provavelmente as piores criaturas à face da Terra”.

Foto: Diana Tinoco

Publicado em ionline

Mostar. “Nesta cidade não havia espaço para a morte”

Quando a guerra chegou a Mostar, em 1993, não havia espaço para enterrar os que partiam. Os parques onde as crianças brincavam tornaram-se cemitérios, numa altura em enterrar os entes queridos se tornava uma missão de risco.

Enquanto caminho de mãos atrás das costas e semblante carregado por estes caminhos que nos levam ao centro da cidade de Mostar, lembro-me que Saramago perguntava de que servia o arrependimento, se o puro e simples acto de quem se arrepende em nada pode mudar o que se havia já passado. “O melhor arrependimento é, simplesmente, mudar”, dizia. Em Mostar, os nossos corpos reagiam sempre que cruzávamos novas ruas.

Cada passo equivalia ao relembrar constante de que o tempo não pode apagar a memória do que tudo mudou. Os estômagos encolhem. Inscrições por toda a cidade pedem para que a história não seja esquecida. “Remember 93” aparece em paredes, caixotes do lixo, na entrada da Ponte Velha que, quando destruída, materializou o orgulho ferido, toda a dor e revolta dos que por lá viviam.

Ainda perto da casa de Armar, onde estávamos hospedadas, nos destroços que ficaram de um edifício cujas paredes não venceram a força da gravidade lê-se: “Narnia is closed”. Permanecemos em silêncio a mastigar o que as palavras desenhadas a spray não conseguiram digerir. Nas estradas que circundam a cidade ainda existem avisos para o perigo de minas.

Armar, enquanto nos descreve o que era Mostar antes da guerra a que assistiu aos 13 anos, conta que havia vários parques para as crianças brincarem, “todos eles foram transformados em cemitérios, nesta cidade não havia espaço para a morte”.

“Em tempos de guerra não há tempo para velórios ou funerais à luz do dia. Tínhamos de ir às duas e três da manhã, sem luz, enterrar os nossos e esperar que ninguém morresse enquanto o fazíamos. Era um risco dizer adeus”, descreve enquanto dobra o mapa onde marcou a caneta conselhos para comer bem e barato.

Na Bósnia e Herzegovina os preços das refeições deixam-nos boquiabertas, é tudo tão barato. Uma refeição inteira fica-nos por cinco euros. Almoçámos num restaurante ao ar livre, chama-se Saray e tem à porta o menu em inglês e alemão. Por cá come-se essencialmente veado, mas para quem não come carne também se encontram soluções agradáveis ao paladar. O sol bate-nos nas costas, a funcionária avisa que não se vendem bebidas alcoólicas porque o restaurante fica colado à mesquita que iremos agora visitar.

O tecto não é o original, foi renovado porque o anterior foi bombardeado. Um antigo professor de História guarda a entrada de uma das dezenas de mesquitas da cidade. Esta foi construída em 1557 e guarda o mais antigo Corão em toda a Bósnia, oferecido pela Turquia depois da calamidade. “Um país tão forte tornou-se nada. As pessoas quando estão em guerra ficam loucas, tudo a que se podem agarrar é a Deus”, diz o antigo professor que ora mistura inglês, ora lhe mete uns ares de italiano à mistura.

Na Bósnia e Herzegovina ficaremos sempre a meias que perdidas em traduções mal arranhadas. São poucos os que entendem e falam inglês, mas todos fazem um enorme esforço por comunicar. Quando há falta de melhor vocabulário, os gestos e os sorrisos de quem não faz ideia do que lhes estão a dizer lá nos safam.

Um rapaz de 28 anos, Hasar, trabalha o cobre num pequeno estabelecimento onde há mais objectos do que espaço livre. O constante martelar ensurdece-nos, mas sempre dá para perceber que se trata de uma arte de família, de há várias gerações. Hoje, ele e o primo mantêm o negócio da família, segredos de um ofício que o pai lhe passou como legado. Nas ruas do centro sentem-se as influências turcas. Há bazares de um lado de do outro, com artesanato, sacos de alfazema, lamparinas, serviços de chá e bijuteria. Raparigas com Hijabs na cabeça olham os manequins que exibem belas túnicas coloridas. Um grupo de crianças ciganas romenas pede enquanto sentadas no chão, junto da mãe cujo ar cansado pede um tostão como ajuda.

O turismo em Mostar foi sempre forte. Conta-se que a virgem Maria apareceu em 1981 a umas crianças numa localidade muito perto da cidade, conhecida por Medjugorje. Católicos de todo lado aproveitam a proximidade do local das aparições à cidade e visitam-na.

Subimos à famosa ponte. O vento corta-nos as caras que não conseguem desviar os olhos da paisagem que se vê dali. Duas comunidades separadas por uma ponte que não separa nada do que se passou ali. “O lado negro foi um só para todos”, dizia Armar mais tarde quando lhe descrevemos a nossa percepção do que se viveu ali. “A Jugoslávia só era má para os que estavam de fora, os que viviam aqui eram felizes”, afirma enquanto nos conta histórias sobre as cinco gerações da sua família que sempre viveram em Mostar. “A minha família tinha várias casas, hoje das que não foram destruídas fizemos hostels, recebemos pessoas nelas, na Bósnia adoramos receber gente em casa”.

Despois da ponte, do lado croata, as ruas são mais cinzentas, há menos lojas e não há sinal de mesquitas. Passámos por um quiosque, está um homem mais velho e um mais novo a espreitar. “English?”, perguntam-nos. Sim, respondo. Somos portuguesas. “Ah Portugalia…”, grita seguindo-se uma lista de todas as cidades portuguesas cujas equipas de futebol se lembrassem.

Porto! Benfica! Sporting!, a estas estamos habituadas a ouvir, mas de repente: “Braga. Guimarães. Setúbal. In Porto…Boavista!!” O nosso ar de espanto. Eu olhava para a Diana, ela para mim. Como é que de forma tão aleatória, do nada, nos chamavam por casa?

Durante a tarde, quando passeávamos por um dos terraços da principal Mesquita da cidade, aproximámo-nos de um dos bazares e trocámos boas tardes com uma mulher muito bem arranjada e que falava um claro inglês.

Arnela, fugiu de casa aos 14 anos, juntamente com a família para se abrigarem da guerra na cidade, onde sempre era mais protegido. Entre um turbilhão de trocas e voltas que vida lhe deu, Arnela, de 39 anos, juntou-se à missão de paz da ONU, onde acompanhava as equipas internacionais da International Police Task Force”e as mediava com as locais. Era um “mundo de gestão logística, de conflito, de terreno. Geríamos desde a luta contra o tráfico humano, quanto os conflitos em jogos de futebol onde as claques lutavam por mais do que futebol”, descreve e completa: “Comigo trabalhava um português”.

Arnela diz-nos que a sua história é demasiado longa, mas que ficou sem trabalho e agora, finalmente, irá deixar o trabalho da loja que gere com o marido, para poder voltar ao trabalho de cooperação internacional, numa ONG de apoio a mulheres na Bósnia e Herzegovinha.

Depois de receber uma entrega de pizza com a inscrição “Porto Pizza”, que nos oferece, olha para fora da loja que lhe foi oferecida por um amigo, quando o marido andava desesperado à procura de emprego e todos prometiam, mas ninguém ajudava. “Depois, do nada aparece este amigo e diz: eu não preciso de três lojas, sabem? Fiquem com esta e tratem bem da vossa vida”, conta Arnela com ar de quem percebe que ninguém está habituado a tal grau de bondade.

“Por cá, temos um ditado antigo que traduzido é algo como: “Se fores demasiado brando, talvez devas repensar a direção, porque podes estar a caminhar para baixo”.

Foto:Diana Tinoco
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Mostar. A cidade que renasceu das cinzas

A memória dos habitantes de Mostar não deixa que se apaguem as marcas de uma cidade fustigada pela guerra. As fachadas dos prédios ainda mostram as cicatrizes de quem testemunhou o pior lado da humanidade

Chegar à Bósnia e Herzegovina é perceber que não percebemos nada. Sabíamos que íamos sair do conforto da União Europeia, em que não há nada com que tenhamos de nos preocupar, está tudo assegurado pela universalidade das regras e das normativas de um mercado único que uniformiza muito do nosso dia-a-dia sem que nos apercebamos.Passamos a fronteira e estamos no desconhecido. Sobre o país, sabemos o que os media, os professores e os livros que lemos nos ensinaram. Nada se assemelhará aos testemunhos vivos que encontraremos nas ruas daquele que é o país que até hoje mais me pesou. A guerra foi-nos sempre um conceito distante. O sítio onde nascemos foi-nos dado por um fortuito acaso, mas nem todos tiveram a mesma sorte dos que nasceram na bela costa ocidental europeia.

Tudo o que virá a partir desta fronteira será de aprendizagem permanente, choque cultural, avalanche de informação e overdose de emoções. Os novos eram demasiado novos quando a guerra lhes chegou, mas a memória demasiado forte para que se esqueçam, os velhos eram demasiado velhos para que não se esqueçam. Estão abertas as cicatrizes dos tiros, das bombas, os edifícios ainda têm marcas de horror e pobreza. Tudo o que vemos e visitamos brotou da resiliência e da luz de um povo que é demasiado bom a receber estranhos.

Ainda no autocarro de Dubrovnik até Mostar, que nos custou 101 kunas croatas – aproximadamente 13 euros –, senta-se ao meu lado Øystein Nybø. De grande porte, olhos azuis e uma careca a descascar graças ao sol que apanhou no sul da Croácia, o norueguês de 55 anos sorri enquanto distribuem os passaportes, depois de passarmos a fronteira para a Bósnia e Herzegovina. “Aposto que nem vai tentar ler o meu nome”, diz-me a rir-se. Estava certo. Depois de pronunciar tudo que era nome de gente naquele autocarro, a senhora que distribuía os documentos de identificação bem tentou, mas acabou por desistir e guiar-se apenas pela fotografia. Øystein deu uma gargalhada: “É sempre assim.”

Daí surgiu a conversa que só terminou quando saímos, em Mostar. Øystein continuaria até Sarajevo e daí voltaria à Noruega. Nunca foi a Portugal, mas conta-nos que um amigo encontrou o seu grande amor em Lisboa, enquanto passava férias e trazia uma t-shirt com a inscrição “I love Sydney” vestida. “Ele vivia em Sidney e não se tinha apaixonado, é preciso ir a Lisboa com uma t-shirt daquelas para uma australiana ir ter com ele, a perguntar se conhecia a cidade, para até hoje ainda estarem casados”, conta, entusiasmado. Já ouviu falar muito bem da comida e da história portuguesa. Mas é um apaixonado pela Bósnia e Herzegovina e esta é já a quarta vez que vai a Sarajevo. Trabalhou para a NATO numa missão de paz no norte da Croácia na altura do pós-guerra, já depois de 93. Escreve artigos para revistas militares e garante que este país que estou prestes a conhecer “é a verdadeira pérola da Europa, sem que nada se assemelhe a ele”. Mais tarde vou perceber porquê mas, por enquanto, apenas me aguça a curiosidade.

Despedimo-nos e trocámos contactos. O autocarro chega finalmente a Mostar.

Chegámos à estação de autocarros da cidade, levantámos dinheiro e levámos logo com uma taxa de seis euros por estarmos fora da rota da UE. Recebemos a mensagem do roaming, um megabyte de internet equivale a seis euros, acabaram-se os dados móveis e tudo será feito offline. Um marco conversível bósnio (KM) equivale a 50 cêntimos. Com a ajuda da tecnologia, mais uma vez, com o mapa offline descarregado do Google Trips, seguimos até ao Hostel Lovely Home. Poupam-se uns quantos trocos em usar mapas digitais; caso contrário, teríamos colecionado mapas a viagem toda.

Mostar é verde e, embora cidade, parece uma aldeia grande, onde as ruas são cobertas por uma calçada irregular, de pedras gordas, redondas.

Depois de andarmos 600 metros virámos por uma rua que nos levou a uma viela apertada, com quintais e portões grandes, até que uma criança de cinco anos, com óculos redondos, numa bicicleta já sem rodinhas, nos pergunta com um enorme sorriso “Hostel Lovely Home?”, enquanto com o braço nos faz sinal para a seguirmos.

Já à porta aparece o pai do miúdo, nosso anfitrião. Armar tem 39 anos, mas a idade pesa-lhe no rosto. “As primeiras bombas caíram tinha eu 13 anos, quem cresce na guerra nunca mais esquece, compreendes? Oh, claro que não compreendes. Fico feliz que não compreendam”, diz-nos enquanto nos serve café feito por ele, à moda do seu país, com uma valente borra no fundo. Enquanto nos recebe desenha-nos no mapa tudo o que precisamos saber sobre Mostar.

“Esta cidade era linda, era a capital da Herzegovina. No tempo da Jugoslávia éramos tão, tão felizes. Destruiu-se tudo, hoje somos assim, pobres, não temos nada”, lamenta, enquanto mostra vídeos do bombardeamento da imagem de marca da cidade: a famosa Ponte Velha, construída no tempo do Império Otomano e que se erguia no rio Neretva há 427 anos até que foi completamente destruída pela Guerra da Bósnia em 1993.

Armar fala-nos da situação política do país, que foi mais tarde confirmada por todos os habitantes da Bósnia e Herzegovina que viríamos a conhecer: “É caótica, tudo funciona muito mal. Vejam que Mostar não tem eleições desde 2008!”, descreve com indignação.

O transparente rio Neretva é a fronteira natural que divide os bósnios muçulmanos e os sérvios dos croatas. Depois do conflito a maioria dos sérvios deixou a cidade, mantendo-se apenas uma pequena porção desta comunidade étnica. Hoje, apesar de separadas pelo rio, as três etnias vivem em paz, sendo a maior porção da população croata.

Ainda ao pequeno-almoço, Armar diz que as estatísticas são feitas só para o poder e os jornalistas: “Nós nunca quisemos saber da etnia de ninguém, vivíamos todos felizes e misturados. Sabemos respeitar o conceito de multiculturalismo. Até que quiseram separar-nos a todos. E conseguiram. A guerra levou-nos tudo.”

Foto: Diana Tinoco

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Dubrovnik. Da antiga república à loucura de Game of Thrones

É a cidade mais cara de toda a Croácia. A História consagrou-a como especial e hoje em dia é atração da indústria cinematográfica. De “Game of Thrones” a “Star Wars”, eis a viagem à antiga República de Dubrovnik

A manhã começa muito cedo em Dubrovnik e as ruas já se transformaram num mar de gente.

A “Old City”, como todos lhe chamam sem traduzir para qualquer outra língua, tem uma entrada imponente, mas na primeira noite ficámo-nos por um hostel fora das muralhas de Dubrovnik.

Ao pousarmos as mochilas decidimos descansar o corpo por algumas horas. Mais tarde, deparámo-nos com a realidade mais óbvia: estamos na cidade mais cara de toda a Croácia. Aqui não haverá bolso que aguente comer fora, daí que o segredo é ir ao supermercado comprar o habitual salvador dos pobres e oprimidos: o atum.

A sensação em Dubrovnik é a de estarmos numa espécie de parque de diversões. Chamam-lhe a Pérola do Adriático.

À volta, tudo é verde, as encostas estendem-se mar adentro, e quem vê ao longe a imponência das muralhas sente-se hipnotizado.

Dentro das muralhas há milhares de turistas que se empurram e tropeçam para tirar a melhor selfie no melhor ângulo possível. Há lojas alusivas a “Game of Thrones” em todo lado. Veem-se curiosos de todas as idades.

Uns chegam cá pelo que Dubrovnik representa na história do mundo, outros vêm matar a sede de quem vê muito cinema e televisão.

Dubrovnik tem sido cenário principal da série “Game of Thrones”, mas também “Star Wars” foi este ano filmado dentro das muralhas e contam-nos em segredo que se diz que as filmagens do próximo James Bond podem passar-se lá. Afinal de contas, diz-se que o espião jugoslavo Dusko Popov – nome original da personagem histórica que deu origem ao herói das telas de cinema criado por Ian Fleming – viveu em Dubrovnik a certa altura.

Em Split, um senhor que conheci num café tinha-nos dado o contacto de uma pessoa em Dubrovnik para que pudéssemos encontrar um guia de qualidade. Depois de entrar em contacto com esse número e de essa pessoa entrar em contacto com outra pessoa que conhecia a pessoa certa, eis que se marcou o tal encontro. Na manhã seguinte, bem cedo, o sol já queimava. Depois de nos mudarmos para um quarto dentro das muralhas, aproveitámos para lavar a pouca roupa que trouxemos.

Não tardámos a reparar que o esforço das tentativas de contacto com os guias turísticos valeu a pena.

À nossa frente teríamos uma guia sensacional que, na verdade, estava longe de ser uma especialista em turismo aleatória. Jelena Šimac, ex-jornalista premiada de 36 anos, sentava-se à nossa frente para um café e falava-nos do quanto se dececionou com a forma como se faz jornalismo hoje em dia.

“Já não se vai para a rua. Eu queria um jornalismo de pessoas, de contacto humano, mas fechavam-me na redação.” Recebeu em 2013 o prémio da Croatian Association of Journalists como melhor jornalista online, juntamente com a colega Ana Benaci, mas a profissão já não a fazia feliz e decidiu enveredar pelo ensino. Mais tarde, quis algo diferente e decidiu certificar-se pelo Ministério do Turismo da Croácia para poder trabalhar como guia turística em Dubrovnik, de onde é natural.

Jelena adora viver na cidade, ainda que hoje em dia seja economicamente impossível viver entre muralhas. Há quem assegure que o custo de vida em Lisboa consegue ser 13% superior ao de Dubrovnik nos dias que correm.

A beleza natural rodeia Dubrovnik, bem como todo o movimento da cidade. “Mas a História, isso sim, enche o espírito”, repete-nos Jelena com um sorriso no rosto. As muralhas foram construídas no séc. xii, para que a então República de Ragusa se defendesse de ameaças de invasores. Já em 1120 se elegiam os seus governantes. Jelena fala-nos do poder dos mercados marítimos da antiga república, das técnicas diplomáticas que a tornaram famosa e das amizades económicas com povos distantes, como os da Índia.

A ex-jornalista está grávida de seis meses, mas continua a fazer o percurso diário de três horas a pé, entre escadas e fortalezas, para acompanhar os turistas que querem saber mais sobre a origem daquele pequeno paraíso.

Jelena conta-nos que a cidade não teve de se recompor apenas do terramoto que a deixou em mau estado em 1667. Entre 1991 e 1992, a guerra também chegou a Dubrovnik, apanhando toda a população desprevenida. “Ninguém achou que chegaria aqui, então ninguém tinha armas, mantimentos, esconderijos.” Hoje, a UNESCO tem os olhos postos na cidade que, apesar de pequena, conserva monumentos de vários estilos arquitetónicos, como o gótico, barroco e renascentista.

Jelena conta-nos que a antiga República de Dubrovnik era muito avançada para a época, sendo pioneira em várias instituições públicas. “A abolição da escravatura é um dos grandes marcos da nossa história. Em Dubrovnik foi completamente proibida qualquer espécie de escravatura em 1418”, conta-nos, orgulhosa.

Fazemos a Free Walking Tour – “Secrets of Dubrovnik” com Jelena e torna-se óbvia a paixão que nos descrevia pelo contacto humano e a história da cidade. Há quem se vista a rigor pelas ruas de Dubrovnik, os que dançam e cantam, na fortaleza veem-se os preparativos para um casamento. Mais tarde passeamos pela cidade e somos surpreendidos por uma tempestade. A chuva cai sem piedade e abrigamo-nos numa loja de souvenirs.

Karla tem 18 anos, mas parece bem mais velha. Com um sorriso doce, diz-nos para nos chegarmos mais para dentro, não vá o vento surpreender-nos também. Abrigadas connosco e bem-dispostas estão quatro inglesas de alguma idade. Tal como o rapaz do hostel do norte da Croácia que estudava Engenharia, Karla faz este biscate para pagar a faculdade.

A chuva não abrandava e decidimos correr pelo labirinto de ruas e ruelas, agora completamente vazias. São demasiadas esquinas e as esplanadas e os pontos de referência haviam desaparecido todos. Não nos lembramos de como chegar ao hostel, abrigamo-nos num toldo. Víamos o dilúvio e lembrávamo-nos da recente alegria de quem tinha visto um sol quente que anunciava secar a nossa roupa estendida, finalmente lavada. A ironia dos timings. Daí a nada, desanimadas e de roupa colada ao corpo, lá demos com a nossa pequena e acolhedora fortaleza, para onde corremos com os pés submersos num rio prestes a desaguar no Adriático.

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Croácia. O romantismo de Split sai caro

Águas límpidas, paisagens dignas de postais, uma inundação de turistas e preços que nos assaltam a carteira e a calma. Do amor à História à paixão pela natureza, a Croácia confunde-nos com uma mistura de emoções.

Foram demasiadas horas de estrada para quem vai encolhido no banco de trás de um carro. Quando finalmente chegámos perto de Split, já era hora de jantar. Tínhamos encontrado no Booking um apartamento a dez minutos da cidade e ficámos por lá; chamava-se Apartmani U Kastelina.Os croatas não têm feições muito simpáticas e muitos dos sorrisos que damos não têm resposta de volta, mas de vez em quando aparece uma cara mais feliz que compensa as outras todas.

Os senhorios eram um casal bastante peculiar. Ela com ar de nova, bastante maquilhada, com umas calças justas que lhe realçavam as curvas. Ele, bem mais velho, parecia ter um metro e noventa, pernas finas, calções demasiado curtos e uma barriga empinada numa camisola interior antiga, de alças. Viríamos a perceber que os homens croatas são de grande porte, no geral. Estávamos em Hrvatska, a casa ficava mesmo em frente a uma praia, dois quartos e uma casa de banho ficaram-nos por 35 euros. O jantar foi numa pizzaria com um terraço verde em frente ao mar. Na entrada havia uma dançarina e o Restaurant Ballet School mostrou-se um canto agradável, embora os funcionários não nos tenham mostrado muitos dentes. Há bastantes gatos na rua, a Diana diz que lhe faz lembrar a Grécia.

As águas do mar da Croácia são efetivamente límpidas mas, habituada às praias portuguesas onde passei tantos verões, fica muito difícil sentir-me impressionada. Até porque, até então, tudo o que vimos foram praias de pedra; areia, só daquela que parece terra: castanha escura, fina, como chocolate em pó.

Essa noite foi mais difícil, havia muitos mosquitos, mas estávamos tão cansados que nem deu para notar as picadelas, só ao outro dia, quando elas se tornaram enormes caroços espalhados pelo corpo todo.

Seguimos em direção a Split, mas antes decidimos parar na fortaleza de Klis, onde se fizeram as filmagens da cidade de Mareen em “Game of Thrones”. O castelo fica numa colina perto de Split e tornou-se uma enorme atração turística graças à série da HBO. Um jovem chamado Mate, sócio de um pequeno café local, diz-nos enquanto olha para as fotografias com os atores da série numa moldura que aquela pequena localidade bateu recordes de dormidas no ano passado, algo que o seu negócio tem agradecido. Um euro equivale a sete kunas croatas e, nesse dia, começámos a perceber o que nos esperava. As porções de comida eram mínimas, ao contrário do que nos pediam por elas; os snacks nos supermercados acabariam por salvar-nos.

O Miguel e o amigo iam em direção a Dubrovnik e, por isso, deixaram-nos em Split, a segunda maior cidade do país. O centro da cidade está entre muralhas. O Palácio de Diocleciano, mandado construir pelo imperador homónimo, está tão bem conservado que nos faz recuar ao tempo entre a Antiguidade clássica greco-romana e aIdade Média. Lê-se em folhetos sobre a cidade que o imperador romano Diocleciano ordenou que se construísse este palácio para que pudesse usufruir dele depois de se retirar do poder. Dentro das muralhas impõe-se um minucioso labirinto de ruas apertadas onde centenas de lojas e restaurantes se encaixam para receber os milhares de turistas que por ali passam todos os meses. A cidade, porém, vai além das muralhas e as 2800 horas de luz solar durante o ano atraíram ao longo dos tempos multidões que se decidiram a viver por lá. Hoje contam-se cerca de 180 mil habitantes, que nomearam Split “Flor do Mediterrâneo”.

Mais uma vez, encontrar o hostel não foi fácil e acabámos por perceber que na Croácia as receções tendem a não ser no local onde se dorme. Temos, por isso, de andar mais um pedaço de mochila às costas até podermos finalmente descansar. No hostel conhecemos uma canadiana de 28 anos; chama-se Danielle e começou a viajar sozinha em 2015, aos 26 anos. Tem viajado pela Europa, já visitou 30 países e conta-nos que, hoje em dia, nunca se viaja sozinha porque se acaba sempre por se conhecer gente em todo o lado. Algo que temos comprovado, já que em todos os sítios que passámos temos trazido gente no coração e adicionado números e contactos de Facebook durante toda a viagem.

Na manhã seguinte, os nossos corpos agradeceram que tivéssemos ido ao supermercado recolher mantimentos para o nosso pequeno-almoço. Iogurtes gregos estão em todo o lado e nunca pensei que os cereais que como todos os dias em Portugal viessem a saber-me tão bem fora de casa. Aproveitámos algumas horas da manhã para trabalhar e, um pouco mais tarde, daria de caras com o Robert, um norte-americano que conheci no Generator Hostel, em Veneza, e cujo hostel em Split era a cem metros do nosso. Ele estava de ressaca, tinha voado de Roma nesse dia e ainda não tinha almoçado, por isso fez-nos companhia num restaurante que nos serviu uma pasta incrível. O Robert, que veio do Arizona, é engenheiro e tem 25 anos. Despediu-se do trabalho e decidiu viajar durante três meses. Acompanha-nos enquanto falamos com pessoas nas ruas de Split e, mais tarde, jantámos todos juntos. Estamos todos cansados, há demasiadas pessoas na rua, demasiados selfie sticks, demasiados souvenirs.

O dia acaba na varanda do nosso hostel, enquanto bebemos uma cerveja e comemos amendoins. Não é tarde, mas o dia já deu o que tinha a dar. Ao longe está o mar, as ruínas de Split e uma lua a crescer com uma estranha tonalidade laranja. Marca-se o despertador para cedo. Amanhã seguimos para Dubrovnik.

 

Foto: Diana Tinoco

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Croácia. O homem que nunca viu o oceano

Ao quarto dia de viagem, depois da primeira noite em Velenje, levantámo-nos e fomos ao Lúcifer, o mais famoso lugar para ir beber café e ainda provar um doce da casa, já que é lá que se produzem os tão famosos (ficámos a saber) chocolates eslovenos Lúcifer. Esta chocolataria pertence ao filho do socialista fundador da cidade, que infelizmente não estava lá para falar connosco. Passeámos por Velenje, outrora conhecida como “o milagre comunista”, criada em 1959, de onde restam várias filosofias e medidas socialistas. O nome da cidade foi mudado para Titovo Velenje, a Velenje de Tito, em 1981, como homenagem ao líder jugoslavo Josip Broz Tito, que a havia visitado e elogiado várias vezes – líder esse que tem direito a uma praça e à maior estátua do mundo, bem no centro da cidade.

Em Velenje não se pagam transportes públicos, saúde ou educação. Os jovens têm uma cultura de voluntariado ativa e juntam-se nas várias iniciativas culturais que o município apoia. Imagine-se que quem tiver uma banda tem direito a um espaço por cinco euros mensais. Alguns artistas pediram para renovar uma padaria antiga e agora têm um espaço cultural mantido por eles.

Há festivais e dezenas de desportos gratuitos, há sete escolas primárias espalhadas pela cidade para que as crianças não estudem longe de casa e preza-se ao máximo a qualidade de vida dos que lá vivem.

Escrevemos um minilivro de memórias ao casal que nos adotou em Velenje e deixei-lhes as sementes de canábis oferecidas por Pavle, não iria querer problemas na fronteira, certo? Certo.

Ao dar-lhes as sementes, fiquei a saber que na Eslovénia é mais que usual o consumo de canábis. Apesar de ser proibida, a droga vende-se a preços baratos e está ao alcance de todos, o que explica a oferta de sementes pelo sem–abrigo. Mal sabíamos nós que o assunto ia marcar o dia.

Eu e a Diana seguíamos para Split, na Croácia, e apanhámos boleia com o Miguel e o amigo, que mais tarde seguiriam para o sul. Com eles viria também um português a quem iam dar boleia, apanhando-o já depois de Velenje.

O Miguel, como advogado responsável que é, perguntou se alguém trazia consigo algo que pudesse comprometer-nos na fronteira. Todos respondemos negativamente até que o tal rapaz, que por motivos óbvios se manterá anónimo nesta crónica, diz que “só traz três gramas de canábis”.

O que se seguiu foi um delírio de leis e responsabilidades civis, cortesia do nosso amigo advogado. Foram cerca de 30 minutos em discussão. O rapaz trazia a erva comprada na Eslovénia, “por um preço singelo”, embrulhada num lenço com aroma de menta, como se isso fosse suficiente para esconder fosse o que fosse.

Entre risos e caras sérias, lá se chegou ao consenso geral de que o melhor seria aquilo ser atirado porta fora. Algo que a personagem que deu origem a toda esta odisseia mais tarde viria a lamentar o caminho todo, não fosse a fronteira um suave olhar pelos nossos passaportes sem qualquer tipo de barulho. Passadas várias horas de viagem, chegámos à terceira maior cidade da Croácia, Rijeka – uma cidade portuária e cinzenta, cheia de enormes cargueiros e com a poluição que isso traz às águas.

O contraste entre fronteiras dos dois países não podia ser maior. Depois de termos saído de um paraíso de conforto e acolhimento, ao chegarmos à Croácia vimos, por duas vezes, o nosso alojamento ser cancelado, ficando por isso à nora, sem saber onde dormir.

Estávamos doridas e de ombros a arder quando finalmente demos de caras com um hostel muito fraco, mas com um bom colchão que nos ajudou a passar a noite. Na receção recebeu- -nos um tímido jovem de 19 anos que estudava Engenharia Civil. Explicou- -nos que Rijeka é sobretudo uma cidade universitária onde vivem aproximadamente 128 mil pessoas.

Ao outro dia chovia. Fomos a um supermercado e às 11 da manhã já só se viam homens de vinho e cerveja na mão – disseram-nos que os eslovenos e os croatas bebem quando não sabem o que fazer. Seguimos para sul numa viagem que duraria mais de seis horas. A trovoada e a chuva acompanharam–nos todo o caminho e parámos para almoçar numa pequena aldeia à beira- -mar chamada Karlobag. Atrás de nós estavam as montanhas e respetivo parque nacional, habitat de ursos-pardos, lobos e cobras venenosas. À nossa frente, um cenário paradisíaco e, por momentos, veio o sol.

A olhar para o mar estava um mergulhador de 65 anos. De boné posto e ar hipnotizado, apontou para um cardume de atuns que saltavam no mar. Mais tarde, o dono do restaurante local explicaria que, “há uns anos, os atuns desapareceram, mas agora voltaram porque fogem das redes dos chineses”.

O homem, que preferiu guardar o nome dele no silêncio, perguntou-me de onde era. “Sou de Portugal”, respondi.

Continuou em silêncio até me olhar nos olhos: “Que sorte.”

Admirada, perguntei-lhe porquê. “Tens o Atlântico aos pés, filha. Eu já nadei em sete mares, mas nunca vi o oceano”, respondeu-me sem tirar os olhos dos atuns que já não saltavam, voavam. Então sorri, olhei para o chão e pensei nas sortes de que só nos apercebemos ter ao pé quando outros nos falam delas.

Velenje. Fomos adoptadas na Eslovénia

Ao terceiro dia de viagem, depois de duas boas noites em Ljubljana, fizemo-nos à estrada mais uma vez. Apanhámos boleia com um casal esloveno que não falava inglês e não fazemos ideia de como correu a viagem porque a fizemos toda a dormir, mais uma vez. Passadas cerca de duas horas estávamos a pagar os quatro euros pela boleia enquanto tentava entrar em contacto com a Tina.

Não acredito, por muito que já me tenha esforçado, que as coisas aconteçam por puro acaso ou coincidência. Com todo o historial de coisas extraordinárias pelas quais tenho passado, com as encruzilhadas, os sarilhos em que me meto e as pessoas inacreditáveis que me aparecem pelo caminho, com todas as lições e chapadas nesta cara de miúda meio parva, meio feliz, parece-me improvável que toda esta sorte chegue até mim só porque sim, só porque calhou. Prefiro acreditar que cada tropeção, cada vez que esfolo os joelhos, cada vez que sou ajudada por pessoas lindas é porque tenho algo a aprender com isso. Não me revejo na conceção de um deus, de uma história já escrita, mas quero acreditar que a energia das coisas é enorme e que nos faz atrair uns aos outros.

Quando, em junho, viajei até Forlì, em Itália, para um encontro sobre jornalismo e comunicação, tive um desses tropeções “kármicos”. O grupo de portugueses que ali se formou era de uma unicidade inexplicável e o primeiro contacto que tivemos com o grupo de eslovenos indicava que aquilo não ia ser só mais uma pseudoamizade de circunstância. Foi lá que conheci a força da Tina, a calma da Anna, a timidez do Lukas, a genialidade do Theo, a doçura do Matija e a loucura do Marcus. Foram dias de partilha e, quando nos despedimos, prometemos que não tardaria até nos vermos de novo. Explicaram-me o quão fundamental era que os visitasse, já que viviam em Velenje (lê-se Valenia), cidade em que encontraria vários tipos de conteúdos para a minha escrita.

Agora, ao fazermos esta viagem, todos estranhavam quando lhes dizia que de Ljubljana íamos para Velenje. Nunca tive paciência para turismo de massas, gosto pouco de confusões e já tenho tido provas de que alguns dos locais que vêm nos guias turísticos são sobrevalorizados. Vai daí que me pareceu perfeito seguir os conselhos deles e sugeri à Diana que os visitássemos.

A Tina veio ter connosco ao McDonald’s. Nenhuma de nós entrava nesta cadeia de restaurantes há meses, mas calhou termos fome e estar ali à mão. O cheiro a batatas fritas tornou-se estranhamente familiar e, de repente, não sabíamos bem se estávamos em Velenje, no meio das montanhas, ou no Rossio. Descobrimos que, na Eslovénia, o molho de salsa para as batatas não existe, mas há umas dez variedades que lhe tentam fazer jus.

Quando a Tina chegou demos um enorme abraço que matou saudades, mas ao mesmo tempo fez parecer que não nos víamos desde o dia anterior. Ela tem 28 anos mas é muito “old school”, não gosta de tecnologias e evita as redes sociais, por isso, durante estes meses, o mais normal seria termos perdido ligação, o que não aconteceu de todo. Seguimos no carrinho cor de laranja dela até à casa que descreveu como um cantinho modesto. Quem nos dera a nós algum dia conseguirmos um cantinho modesto daqueles para viver. Eu e a Di vivemos em Lisboa, onde se paga um ordenado por cada quarto alugado. Eles, por volta de 200 euros, têm um apartamento confortável, equipado e com direito à presença da Fiona, a boxer mais querida com quem já partilhei espaço.

Depois de nos termos acomodado, levou-nos a almoçar num restaurante no lago Škalsko, do qual deixarei mais detalhes na reportagem sobre esta cidade utópica pela qual acabámos por apaixonar-nos. No restaurante, tudo o que era peixe veio diretamente das canas de pesca dos vários pescadores que se estendem pelas margens e foi aí, no meio de uma cidade perdida do norte da Eslovénia, que ouvimos gritarem-nos “surpresa!!!” no meio da cidade. E assim, sem saberem o que dizer, dois queixos caíram.

O Miguel, com quem partilhamos casa em Lisboa e que andava em viagem pelo centro da Europa e nos bombardeava com localizações diferentes todos os dias na janelinha do messenger, aproveitou uma das que lhes enviámos e apareceu–nos à frente, com um amigo português.

As reações épicas ficaram registadas numa fotografia que nos tirou sem autorização prévia, e juntaram-se a nós sem que contássemos. O jantar ficará para sempre nas memórias dos nossos corações e estômagos.

O namorado da Tina, Josip, não só se revelou um coração de ouro como também se mostrou um cozinheiro de mão- -cheia e preparou-nos uma refeição maravilhosa, não só para nós os quatro mas para os restantes membros do grupo que conheci em Forlì e que se juntaram para o convívio. Éramos quatro nortenhos de Portugal em completa confraternização com seis nortenhos da Eslovénia.

Explicaram-nos o quão importante é para eles acolher pessoas nas suas casas, a felicidade que lhes traz o proporcionar uma boa estadia a amigos que lá passam. Pela comida, vinho, cerveja, licores e sobremesas, pelas conversas e discussões sobre a origem do mundo e a capacidade da natureza de unir seres humanos, não restava qualquer dúvida.

Partilharam-se músicas de cá e de lá, projetaram-se tours de amigos músicos para o futuro e à nossa frente estava não só uma rapariga aleatória do norte da Eslovénia. À nossa frente estava a compressão de vários seres num só. Jornalista. Amiga. Mãe. Guerreira. Uma menina. A mulher e todo o seu espírito feminino.
Enquanto pensava na minha sorte e me sentia orgulhosa por poder apresentar pessoas tão especiais e juntá-las no mesmo contexto, eu olhava-a com admiração.

Senti o conforto da família que escolhemos ao longo da vida, sem ligações de sangue ou genética à mistura. Até que me apanhou a olhar para ela e me disse: “Sabes que mais, Balolas? Sinto que podiam ficar cá para sempre, e assim poderia adotar-vos como minhas.”

 

Foto: Diana Tinoco

Ljubljana. “Não é com os olhos que se vê a natureza das coisas”

Está sol. Há luz em todo lado e as montanhas estão cobertas de neve. No nosso quarto,um casal de viajantes com alguma idade arruma as coisas para ir embora, não me dizem mais do que um bom dia sorridente. A Diana ainda dorme, viajou quase 48 horas seguidas. Desço as escadas e dou de caras com um bar de hostel cheio de locais a almoçar. As refeições fazem-se mesmo cedo, as pessoas comem a uma velocidade estonteante e às dez da noite, por ser tarde, já não se servem cafés nos restaurantes.

Saímos a pé para conhecer Ljubljana. Não quisemos ver fotografias antes de chegar, sabemos apenas que não podemos perder a oportunidade de conhecer o Museu das Ilusões que abriu há um ano. As ruas de Ljubljana são limpas, não há trânsito, as pessoas parecem-nos um pouco carrancudas, mas não tarda até percebermos que não é mais do que um lamuriar instintivo contra a chegada do outono.Passeámos pelas pontes, sentimos o ar fresco do rio gelado. Um senhor de 70 anos passeia três cães terapêuticos. “São educados para ajudarem a fazer as pessoas felizes, podem pegar-lhes”, diz-nos, com um sorriso enorme no rosto. Crianças aproximam-se, a terapia baseia-se em não deixar que a solidão “nos coma os ossos”.

Em viagem tudo é posto em perspetiva. Eu, que sempre adorei viajar sozinha, sem correntes, sem horários, sem planos, temia que viajar em equipa, em trabalho, fosse tornar-se um peso ao amor que tenho pela minha solidão. Mas vai daí que é impossível sentir-me mal quando a sincronia se compara a dois membros de um só corpo, ao ponto da Di se apresentar como Ana e apontar para mim como Diana e logo se aperceber da barbaridade que acabou de deixar escapar. Dizem-se frases ao mesmo tempo e as pessoas riem-se com a simbiose de duas colegas e boas amigas.

Sentamo-nos numa esplanada à beira rio e começa a nossa jornada de adoração ao café por estas bandas – mais tarde haveríamos de perceber que, talvez fosse a sorte, talvez seja a norma, o café da Eslovénia mostrar-se-ia como algo a repetir. De repente as ruas estão cheias de pessoas felizes, que passeiam em bicicletas, de mãos dadas, com os filhos. Tantos filhos, tantas crianças, tanta vida.

Comem-se gelados com casacos compridos vestidos, há livros nas mãos dos que se encostam em recantos luminosos. A época do turismo desenfreado já terminou e consegue-se perceber a rotina dos que cá vivem.

Lembrei-me de mandar mensagem à Olga, eslovena com quem vivi três meses em Roma, na casa do Davide, italiano que nos acolheu nessa altura. Já não a via há seis anos e reencontrá-la foi não só refrescante à alma como também nos deu uma enorme ajuda, já que com o jantar viria um enorme conjunto de conselhos sobre a viagem. No Museu das Ilusões revivemos a infância e a admiração com que olhámos para as novidades quando éramos crianças. A ideia surgiu em Zagreb, de dois amigos arquitetos que queriam criar algo único e o resultado são mais de 40 tipos de ilusão de ótica, hologramas, jogos da mente, criando um conceito único de diversão e aprendizagem em toda a Europa.

A Olga estava mesmo em Ljubljana e veio ter connosco. No meio das ilusões, estávamos de volta ao mundo feliz e universal, como o que nos faz recuar aos dias de praia em que brincávamos com estranhos, mesmo que não falássemos a mesma língua, ou das tardes em jardins com crianças que não conhecíamos a atirar pão aos peixes em lagos turvos. Não houve como sentir constrangimento da distância e do tempo que passou estando no meio de tanta alegria. Fomos jantar a um restaurante tailandês, já que a comida tradicional eslovena, segundo os próprios, é um terrível aglomerado de carnes.

Estava à procura de maneira para chegar a Velenje, mas não havia BlablaCar nenhum. Foi aí que a Olga nos explicou que, na Eslovénia, a app mais famosa de boleias é a Prevoz, criada há muitos anos por um estudante universitário. Encontrámos logo boleia para lá por apenas quatro euros.

Depois de nos levar de carro até às muralhas do castelo de Ljubljana, despedimo-nos da Olga já à porta de Metelkova, o bairro alternativo onde ficava o nosso hostel. Era o regresso noturno àquele lugar e por isso, já que esta noite havia luzes, queríamos descobrir música e pessoas. Num placar lia-se uma ordem para não se tirarem fotografias, a cerveja ficou por um euro e vinte. Sentámo-nos a observar os tantos jovens que circulavam até que um homem passa com ar de quem está com a cabeça num sítio longe dali.

À primeira não nos falou em inglês, respondia em esloveno, mas insisti. Não me disse a idade, pediu-me que adivinhasse mas como nunca faço ideia das idades das pessoas tive de lançar uns simpáticos 35 anos para o ar. Riu-se à gargalhada, tínhamo-lo conquistado.

Pavle nasceu em Ljubljana há muitos anos, assistiu ao governo a tentar demolir Metelkova e aos estudantes que mobilizaram a população através da rádio para salvarem o bairro que era de ninguém e de todos. Tem viajado por onde pode e a casa vai alternando conforme os dias.

Os biscates trazem-lhe “as bananas e o leite mais o pãozinho” que comprara naquele dia. Não nos pede dinheiro, não nos chora nada. Fala só com um sorriso enorme no quanto agradece poder ser vivo e saudável. Diz ser feliz. Fala-nos da sua paixão pela Bósnia, pelos rios que chegam a Ljubljana e conta-nos lendas de dragões e castelos.

Não quer cerveja porque tem com ele o sumo que conseguiu comprar com o que recebeu pelos talheres que lavou no último restaurante. Há quatro dias comprou um telemóvel novo, é dos antigos, sem internet. Pede-nos uma fotografia com ele, mas não há câmara para selfies – é mesmo com o telemóvel virado ao contrário. No fim, despede-se com abraços, a falar das árvores centenárias e das flores que não são de lá.

Já de bicicleta em andamento, encontra-nos na estrada e pede-me que abra a mão. Sementes verdes, reconheço o cheiro. “Sabe o que é isto, menina?”, pergunta. Sei muito bem, embora nunca tivesse visto sementes, apenas o que se faz das folhas e das flores. “Mas eu não tenho dinheiro para lhe pagar isto”, digo-lhe, sem saber o que fazer com as sementes de canábis que tinha na mão. “Não quero dinheiro nenhum. Isto é para que possa ver a vida como ela é, não é com os olhos que se vê a natureza das coisas, rapariga”, respondeu-me. “Então mas e o que lhe posso dar em troca?”, perguntei. E já ao longe, enquanto pedalava sem olhar para trás, respondeu: “Mandem fotografias da Bósnia.”

 

Foto: Diana Tinoco

Publicado em: https://ionline.sapo.pt/artigo/581962/ljubljana-nao-e-com-os-olhos-que-se-v-a-natureza-das-coisas-?seccao=Portugal_i

 

A chegada a Ljubljana

Os aeroportos sempre me fascinaram. Lembro-me perfeitamente de ser criança e participar numa visita de estudo do infantário para conhecer o espaço e a logística que tornavam possível os aviões levarem pessoas para outros lugares. Foi nesse dia que se me desvaneceu o mito, que eu própria havia criado, de que os aviões sabiam as direções certas porque as nuvens tinham placas devidamente assinaladas. Este seria apenas um dos primeiros choques que a realidade traria com o tempo. No final da visita ao Aeroporto Sá Carneiro, quando os meus pais me foram buscar, mal sabiam que, pela nossa vida em diante, muitas vezes me iriam ver a descolar e a voltar àquela pista.Adorava começar este diário de bordo a explicar que adoro viajar sem procurar o que visitar nos locais, sem criar qualquer tipo de expectativa sobre o que vou encontrar, mas a verdade é que desta vez não tive mesmo tempo para preparar absolutamente nada. Quando propusemos à direção deste jornal viajar pelos Balcãs durante um mês, com registo jornalístico e produção de conteúdos constante, limitei-me a aproveitar o pouco tempo que tinha disponível, quando saía da redação ao fim de um dia de trabalho, para estudar melhor a História e os contextos do que iríamos encontrar. Eslovénia, Croácia, Bósnia, Kosovo, Macedónia, Roménia, Sérvia, Hungria e Alemanha: um mês numa viagem que ainda nem tinha começado e já nos alertava para o início de toda uma nova vida.

Chegar a Veneza não foi difícil: bastou apanhar um comboio na Estação Central de Milão. Esperavam-me cerca de três horas de viagem numa carruagem vazia, que me deixou respirar o alívio de quem corre a toda hora contra o tempo e que tantas vezes tarda em encontrar-se pelo meio. O pior foi mesmo orientar-me por Veneza, onde os barcos e as gôndolas não chegam para a invasão de turistas que tão pouco podem informar aqueles que andam desorientados à chuva.

Estava sozinha e já passava da meia noite. Não conseguia perceber como haveria de chegar ao Generator Hostel e o que me valeu foi um casal de italianos idosos que, com muito boa vontade, ampliaram o meu Google Maps e me orientaram pelos barcos até Zitelle, onde me esperava, finalmente, uma cama em condições por 35 euros. Não é possível discutir o quão bonita é Veneza, desde as cores das impermeáveis dos que passeiam pelos edifícios antigos ao nascer do sol a que mais tarde assistiria. Bem sei que a tudo se habitua um ser humano, mas os nervos e o cansaço gritavam-me perante o cenário tão pouco prático que é o de termos de nos deslocar de barco, com todos aqueles barulhos, abanões e, pior de tudo para o meu estômago, aquela maldita ondulação.

Nas escadas do hostel estava um australiano a cair de bêbedo e um norte-americano mais jovem a fumar um cigarro. Deram-me as boas-vindas e falaram-me das suas estadias prolongadas pela “cultural e extravagante Europa”. Com o hostel a abarrotar, foi uma sorte ter encontrado onde dormir. Na minha camarata mais sete jovens viajantes deixariam ao outro dia o quarto para prosseguir viagem. Uma camarata cheia de norte-americanos a desbravar território europeu.

A Diana, minha companheira de viagem, finalmente chegou a Itália. Encontrámo-nos em Santa Lucia para apanhar um autocarro para Veneza Mestre, onde teríamos de encontrar o nosso autocarro para Ljubljana. Entre telefonemas e correrias pedi-lhe que me fosse comprando o bilhete. De impermeáveis e mochilas gigantes às costas, com computadores, máquinas de fotografar, filmar, baterias suplentes, carregadores e outros gadgets que tais, abraçámo-nos em pleno autocarro como se não nos víssemos há mais de vinte anos. Todos nos olhavam com estranheza e de repente a viagem até Mestre parecia interminável. Ao relembrar como arranhar o meu italiano de outrora, decido perguntar quanto tempo nos restava para a estação. “Estão a ir na direção errada, já deviam ter saído há muito”. De repente vi os bilhetes do autocarro para a Eslovénia a esvoaçarem pela carteira fora. Saímos do autocarro em pânico, a tentar relembrar todas as orações que os nossos avós faziam em momentos em que precisavam de chamar a sorte. Quando apertado, até um ateu reza e assim fomos nós a cambalear até outro autocarro que em contrarrelógio nos levou até Mestre. Bendita seja a pontualidade italiana, devemos dizer, já que não só não chegámos atrasadas como ainda deu para esperar à chuva e comprar jantar. O hostel que havia marcado para a primeira noite na Eslovénia afinal foi cancelado e escolhi o primeiro que o Hostel World me recomendou.

Da viagem lembro-me pouco, já que a passei de boca aberta e olhos fechados. Mas a chegada à Ljubljana foi épica. Eram duas da manhã, queríamos comer e os preços do Box Bar diziam que era ali mesmo que devíamos parar para um enorme hambúrguer vegetariano por três euros e meio. Seguimos as coordenadas e com a ajuda da tecnologia lá fomos as duas a pé até ao bairro que deveria ser o nosso.

Devo dizer que por vezes é um perigo confiarmos à tecnologia o discernimento de se virar para a direita ou para a esquerda. Ali estávamos nós. Exaustas, curvadas, de pés inchados, com impermeáveis e kispos, enquanto a seta nos indicava para virar à direita. Desse lado havia um portão de ferro, um monte de cartazes que me eram familiares de festivais de Metal e Hardcore, pinturas em todas as paredes. Não se via vivalma, só um monte de instalações metálicas, representações daquilo que nos pareciam aliens, com expressões de horror e mãos enormes. O silêncio era aterrador e a Diana agarrava-se a mim como se um abraço nos pudesse salvar do apocalipse. “Que sinistro, que cena do mal”. Não fazíamos ideia de onde estávamos e temíamos por todo o material que guardávamos connosco. E ser mulher nunca ajuda nestas alturas. Um homem saiu da escuridão, saltámos – hostel nem sinal dele. Há escadas, não há escadas. Há perigo, não há perigo. Um suspiro de alívio: vemos luzes acesas. Estamos vivas e vamos dormir.

Ao pequeno almoço, um funcionário fala-nos em português e tudo se torna mais familiar. Vem de Cabo Verde. Ao sairmos pela porta, a realidade faz agora mais sentido. Estamos no coração de Metelkova, o bairro alternativo que já foi terra de ninguém, centro da vida antissistema e da pseudoanarquia, o pulsar do limite da sociedade. Estamos no coração da arte e da resistência. Metelkova ao nascer do dia, afinal, é só cor. Tudo o que nos faltava era um pouco de luz.

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