Croácia. O homem que nunca viu o oceano

Ao quarto dia de viagem, depois da primeira noite em Velenje, levantámo-nos e fomos ao Lúcifer, o mais famoso lugar para ir beber café e ainda provar um doce da casa, já que é lá que se produzem os tão famosos (ficámos a saber) chocolates eslovenos Lúcifer. Esta chocolataria pertence ao filho do socialista fundador da cidade, que infelizmente não estava lá para falar connosco. Passeámos por Velenje, outrora conhecida como “o milagre comunista”, criada em 1959, de onde restam várias filosofias e medidas socialistas. O nome da cidade foi mudado para Titovo Velenje, a Velenje de Tito, em 1981, como homenagem ao líder jugoslavo Josip Broz Tito, que a havia visitado e elogiado várias vezes – líder esse que tem direito a uma praça e à maior estátua do mundo, bem no centro da cidade.

Em Velenje não se pagam transportes públicos, saúde ou educação. Os jovens têm uma cultura de voluntariado ativa e juntam-se nas várias iniciativas culturais que o município apoia. Imagine-se que quem tiver uma banda tem direito a um espaço por cinco euros mensais. Alguns artistas pediram para renovar uma padaria antiga e agora têm um espaço cultural mantido por eles.

Há festivais e dezenas de desportos gratuitos, há sete escolas primárias espalhadas pela cidade para que as crianças não estudem longe de casa e preza-se ao máximo a qualidade de vida dos que lá vivem.

Escrevemos um minilivro de memórias ao casal que nos adotou em Velenje e deixei-lhes as sementes de canábis oferecidas por Pavle, não iria querer problemas na fronteira, certo? Certo.

Ao dar-lhes as sementes, fiquei a saber que na Eslovénia é mais que usual o consumo de canábis. Apesar de ser proibida, a droga vende-se a preços baratos e está ao alcance de todos, o que explica a oferta de sementes pelo sem–abrigo. Mal sabíamos nós que o assunto ia marcar o dia.

Eu e a Diana seguíamos para Split, na Croácia, e apanhámos boleia com o Miguel e o amigo, que mais tarde seguiriam para o sul. Com eles viria também um português a quem iam dar boleia, apanhando-o já depois de Velenje.

O Miguel, como advogado responsável que é, perguntou se alguém trazia consigo algo que pudesse comprometer-nos na fronteira. Todos respondemos negativamente até que o tal rapaz, que por motivos óbvios se manterá anónimo nesta crónica, diz que “só traz três gramas de canábis”.

O que se seguiu foi um delírio de leis e responsabilidades civis, cortesia do nosso amigo advogado. Foram cerca de 30 minutos em discussão. O rapaz trazia a erva comprada na Eslovénia, “por um preço singelo”, embrulhada num lenço com aroma de menta, como se isso fosse suficiente para esconder fosse o que fosse.

Entre risos e caras sérias, lá se chegou ao consenso geral de que o melhor seria aquilo ser atirado porta fora. Algo que a personagem que deu origem a toda esta odisseia mais tarde viria a lamentar o caminho todo, não fosse a fronteira um suave olhar pelos nossos passaportes sem qualquer tipo de barulho. Passadas várias horas de viagem, chegámos à terceira maior cidade da Croácia, Rijeka – uma cidade portuária e cinzenta, cheia de enormes cargueiros e com a poluição que isso traz às águas.

O contraste entre fronteiras dos dois países não podia ser maior. Depois de termos saído de um paraíso de conforto e acolhimento, ao chegarmos à Croácia vimos, por duas vezes, o nosso alojamento ser cancelado, ficando por isso à nora, sem saber onde dormir.

Estávamos doridas e de ombros a arder quando finalmente demos de caras com um hostel muito fraco, mas com um bom colchão que nos ajudou a passar a noite. Na receção recebeu- -nos um tímido jovem de 19 anos que estudava Engenharia Civil. Explicou- -nos que Rijeka é sobretudo uma cidade universitária onde vivem aproximadamente 128 mil pessoas.

Ao outro dia chovia. Fomos a um supermercado e às 11 da manhã já só se viam homens de vinho e cerveja na mão – disseram-nos que os eslovenos e os croatas bebem quando não sabem o que fazer. Seguimos para sul numa viagem que duraria mais de seis horas. A trovoada e a chuva acompanharam–nos todo o caminho e parámos para almoçar numa pequena aldeia à beira- -mar chamada Karlobag. Atrás de nós estavam as montanhas e respetivo parque nacional, habitat de ursos-pardos, lobos e cobras venenosas. À nossa frente, um cenário paradisíaco e, por momentos, veio o sol.

A olhar para o mar estava um mergulhador de 65 anos. De boné posto e ar hipnotizado, apontou para um cardume de atuns que saltavam no mar. Mais tarde, o dono do restaurante local explicaria que, “há uns anos, os atuns desapareceram, mas agora voltaram porque fogem das redes dos chineses”.

O homem, que preferiu guardar o nome dele no silêncio, perguntou-me de onde era. “Sou de Portugal”, respondi.

Continuou em silêncio até me olhar nos olhos: “Que sorte.”

Admirada, perguntei-lhe porquê. “Tens o Atlântico aos pés, filha. Eu já nadei em sete mares, mas nunca vi o oceano”, respondeu-me sem tirar os olhos dos atuns que já não saltavam, voavam. Então sorri, olhei para o chão e pensei nas sortes de que só nos apercebemos ter ao pé quando outros nos falam delas.

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