A propósito da Ansiedade

Resposta a algumas perguntas feitas pela jornalista Rita Neves Costa para o artigo Millennials: mais vulneráveis, mas sem medo do burnout” publicado na Notícias Magazine

Quando te foi diagnosticada ansiedade? E qual foi o primeiro episódio em que notaste algum sintoma?

O meu primeiro ataque de pânico foi aos 17 anos, em Resende, a uma semana dos exames nacionais de décimo primeiro ano. Aconteceu em casa, estava sozinha, senti que o tempo tinha parado, o coração ia sair pela boca e deixei de ver por uns segundos. Liguei para o primeiro número dos registos do meu telemóvel. Só anos mais tarde ia perceber o que se tinha passado. Os sintomas da ansiedade eram maioritariamente cefaleias absolutamente impossíveis de controlar, as conhecidas enxaquecas que me deixavam de rastos, tinha de estar isolada, sem luz, um filme. Foram as cefaleias que me levaram ao hospital de São João, no Porto, onde acabei por estar internada 15 dias para exames, porque a dilatação de uma veia no cérebro obrigou a despistar possibilidades de aneurisma e afins.

A história é longa mas basicamente estava tudo bem com o meu cérebro, provavelmente já nasci com aquela veia assim e não havia perigo. As dores e aquele episódio eram, afinal, sintomas de ansiedade. Medicaram-me a partir daí com intuito de controlar as enxaquecas. Mas só em 2016, aquele que considero ter sido o pior ano da minha vida, é que decidi pedir ajuda de especialistas em saúde mental e me foi diagnosticado Síndrome de Ansiedade  Generalizada e Agorafobia. 

Foi o meu primeiro ano em Lisboa, cheguei a ter insónias de 32 horas, houve semanas em que tinha um ataque de ansiedade por dia. 

De que forma mudou a tua vida, o teu quotidiano? E de que forma te afeta?

Os piores episódios de ansiedade vieram sempre que eu me senti desalinhada e afastada da minha essência. Sempre que estive em negação do presente. Felizmente, hoje em dia recuso-me a aceitar o título diagnosticado, só porque não quero que isso me defina. Estou há mais de um ano e meio sem qualquer tipo de medicação, depois de ter feito desmame acompanhada. Nunca mais tive um ataque de ansiedade. Ironicamente, nunca na minha vida vivi tantas situações propícias a tê-los.

Para te ser sincera, sou bastante grata a tudo que a ansiedade me ensinou. Porque se não tivesse sido esse pedido de socorro da minha mente/corpo/espírito não teria tido oportunidade de me conhecer com a profundidade com que me conheço hoje. 

A ansiedade é um estado de negação do presente. A tua mente recusa-se a funcionar de forma lógica e alimenta-se de todas e quaisquer inseguranças. Todas as tuas crenças limitadoras, tudo aquilo que te torne vulnerável é sugado por um loop de pensamentos negativos que são castradores. Ou te martirizas acerca do passado, ou ficas presa na antecipação do futuro.

E, obviamente, tudo isto é uma bola de neve. A ansiedade descontrolada trouxe-me as insónias, a incapacidade de me relacionar socialmente, evitava a todo custo situações sociais e se as tinha, recorria ao escapismo aceite pela nossa sociedade e o mais perigoso, o álcool.

O problema, em 2016, foi eu ter demorado cerca de dois meses a perceber que tinha de pedir ajuda.  Foram as insónias que me paralisaram e acenderam o rastilho, porque a verdade é que eu já me tinha habituado aos ataques de pânico, à pastilha SOS que me haviam receitado há muito. A ansiedade já fazia parte de mim e eu cheguei a achar normal andar medicada tantos anos. 

Quando fui a um psiquiatra, em 2016, pela primeira e única vez,  ele falou comigo 10 minutos e receitou-me um “anti-depressivo fraquinho”. Tive um ataque de choro de raiva e não queria acreditar que era assim que tratavam quem estava a precisar de ajuda. Tomei a medicação porque estava desesperada por dormir e voltar a mim, mas tive de dizer aos meus pais que precisava de um terapeuta. 

Estou para sempre grata pelo psicólogo que me recomendaram. Dos melhores seres humanos e profissionais que eu podia ter conhecido na altura. Fui acompanhada cerca de sete, oito meses. 

Decidi que iria investir em conhecer-me e perceber de onde vinha tanta ansiedade e comecei um processo incrível de auto-descoberta. Desde cursos, a terapias alternativas, alterações de hábitos alimentares, rotinas, aprender coisas tão básicas quanto a respirar e a meditar, a minha vida mudou drasticamente e nunca me senti tão saudável. 

Eu passava a vida doente, em hospitais, olho para trás e não reconheço a pessoa que era há cerca de três, quatro anos. Sinto-me conectada, orientada e se não tivesse sido a ansiedade eu nunca teria dado esta volta na minha vida. Ou teria demorado muito mais tempo. 

És acompanhada por alguém?

Não, desde 2016. No entanto, tenho vários amigos incríveis com quem brinco a dizer que fazemos terapia uns aos outros, porque como estamos espalhados pelo mundo com vidas agitadas, fazemos vídeo chamadas em que partilhamos de forma muito aberta e sincera o que se passa nas nossas vidas e vamos ajudando-nos. Algo a que tive de me habituar, porque naturalmente sempre fui de guardar o que sentia para mim, costumo preferir ouvir, mas agora esforço-me por falar.

Parece-me que falas abertamente sobre o assunto. Sempre foi assim?

Eu nunca tive problemas em dizer que tinha tido um ataque de pânico, normalmente quando me acontecia e tinha alguém comigo, a pessoa ficava mais nervosa que eu. Eu é que ainda tinha de os acalmar (risos). 

A escrita sempre foi a minha melhor amiga e, em 2016, nesse tal pico de ansiedade, explodi completamente e escrevi um post sobre “O tormento de viver com ansiedade”. Nem me passava pela cabeça que aquilo ia ser partilhado por toda parte e que me iam chover centenas de mensagens de pessoas de todo lado a dizer que viviam o mesmo. 

Para mim esse momento foi fundamental, percebi que não estava sozinha no mundo. Pode parecer estúpido, mas na altura eu nem sonhava que havia tanta gente tão próxima de mim a passar pelo mesmo. Foi aí que eu percebi a dimensão do tabu e que comecei a partilhar com total transparência diversos materiais sobre saúde mental. E sempre que experimento uma nova terapia, tenho uma nova experiência, encontro um artigo que leio e me identifico, o que for, eu partilho sempre porque gostaria que fizessem o mesmo comigo.

Costumo dizer que o meu lema é “sharing is caring” (partilhar é cuidar), há sempre alguém que pode beneficiar daquilo, mesmo que comigo não tenha resultado. Ter opções é um privilégio.

Parece haver uma maior abertura dos jovens para falar em questões sobre saúde mental, quase como se tentassem combater o estigma e não o esconder. Concordas com isto? Achas que é uma realidade?

Sem dúvida. A minha geração (a dos Millennials) veio ao mundo para libertar correntes e mudar paradigmas. Somos todos “ovelhas negras”, cada um à sua maneira e medida. Prefiro chamar-nos ovelhas coloridas, na verdade (risos). Nós não nos conformamos e muito menos ficamos calados. Nativos da era da informação, a percebermos que há mais gente a viver dentro de buracos negros, tivemos de explodir e falar das coisas. 

Repara que os nossos pais podem ter dado o melhor que sabiam, mas eles viram o mundo mudar drasticamente em muito pouco tempo. E pelo meio, estavam a criar filhos. O impacto que isso teve na nossa geração foi brutal. As expectativas que puseram nesta geração eram irreais. As taxas de divórcios, a incapacidade de gestão financeira… eu tenho amigos meus há anos a pagar dívidas dos pais! Como é que não hão de viver com ansiedade e como é que hão de sobreviver a tudo sem falarem do assunto?

Os memes são outro fenómeno surreal e olha as chamadas de atenção que fazem à saúde mental através do humor. Claro que é um perigo generalizar-se o que seja, mas a meu ver, para o bem e para o mal, fomos a geração mais auto-consciente da história. E a internet salvou- nos na medida em que nos fez perceber que não estamos sozinhos.

A saúde mental é encarada de forma diferente pelas diferentes gerações? Qual é a tua opinião?

Sim, principalmente no tratamento. Eu acho que as gerações mais velhas foram convencidas que os diagnósticos são eternos e o bem estar está dependente dos medicamentos. Atenção, eu não sou contra a medicação. A medicação é necessária em muitas situações. Eu sou é contra o alimentar o discurso da dependência da medicação. 

A medicação apazigua sintomas, não vai à raiz do problema. Eu já tentei conversar sobre o assunto com inúmeras pessoas de gerações mais velhas que se recusam sequer a considerar mudar hábitos, a reverem os seus sistemas de crenças, a considerar abrirem-se quanto às suas emoções, experiências, muito menos traumas. Toma-se a pastilha, sorri-se e faz-se de conta que está tudo bem, isto no mundo em que a saúde mental é um privilégio.

E diga-se que há muita falta de afeto e de pessoas disponíveis para ouvirem e estarem presentes para o próximo. A solidão é tremenda e as pessoas têm vergonha de se sentirem sozinhas. 

Juntando tudo isto a uma sociedade extremamente machista, em que os homens são completamente castrados e castradores na expressão de sentimentos e fragilidades emocionais, isto tem repercussões gigantes.  

Felizmente as gerações mais jovens são cada vez mais livres de sentir e de se expressarem e isso terá efeitos positivos na forma de se lidar com a saúde mental.

Alguma vez sentiste que sendo jovem a ansiedade ou qualquer outro problema mental foi menosprezado pelos outros outros? Quase a célebre frase do “nunca faltou nada a esta geração” e por isso, a saúde mental não deve ser sequer um problema….

Claro, já ouvi comentários absolutamente desnecessários, mas sinceramente são fruto do desconhecimento e falta de inteligência emocional próprios e consequências de um assunto tabu. Não é preciso que nos falte alguma coisa material para que se sofra de ansiedade. A ansiedade é pura e simplesmente um estado constante de armadilha da nossa mente. Podes estar na praia mais linda e paradisíaca do planeta, em silêncio, e ter um ataque de ansiedade.  

Felizmente esses comentários nunca afetaram negativamente a minha forma de lidar com o assunto, mas são um perigo, como toda a desinformação é. 


Entrevista realizada peja jornalista Rita Neves Costa para o artigo Millennials: mais vulneráveis, mas sem medo do burnout” publicado na Notícias Magazine

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Balolas Carvalho

Tenho uma imensa sorte em me cruzar com pessoas extraordinárias em momentos extraordinários e só quero poder partilhar essa sorte com o mundo.

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