Filha do rio

Quando eu era pequena tinha medo do rio. Dois primos da família morreram nestas águas, um a tentar salvar o outro e aquilo ficou gravado.
O medo dá-nos uma falsa sensação de segurança, mas na verdade tende a impedir-nos de viver completamente.
Aos 21 anos um dos meus piores medos concretizou-se. Uma daquelas mãos que jurámos pôr no fogo ardeu completamente e ficaram apenas as cinzas que me assombraram de trevas. Eu aprendia da pior forma que não podemos oferecer ao fogo nenhuma das nossas mãos em nome de ninguém e enquanto os velhos paradigmas se rendiam, uma menina de outrora tornava-se drasticamente mulher. Sempre fui menina de mar, era tão mais agressivo, imprevisível, sedutor, só me atrevia a sair da água quando a pele gritava de tão enrugada, massacrada. Mas estas águas d’ouro eram assombradas. Eu via os miúdos todos a saltarem do cais, as gargalhadas, os sons de corpos a saudar a água e ficava roída a absorver tudo enquanto me sentava na toalha só a ver.
Nesse verão dos 21 anos a minha irmã, que sempre foi menina de rio, estava na água e gritava para me convencer. Todos ouviam e eu corava, não do calor, mas por não ter aquele tamanho e um medo maior do que eu. “Salta mana! Estou aqui! Já passaram tantos anos!” E eu pensava na ironia da vida. Lembrava-me de sermos miúdas, ela com não mais de 4 anos e quase termos morrido afogadas numa piscina. Ficámos sem pé de repente e ela, que vinha ao meu colo, puxava-me para baixo numa tentativa desesperada por respirar. Foi o meu tio que se apercebeu e nos arrancou da água. Lembro-me da agonia e de pensar que já não ia aguentar mais, mas nunca guardámos medo das águas de cloro, sabíamos que tinha sido descuido nosso. Agora estava ela ali a chamar por mim. “Anda lá mana! Aquilo já foi há tanto tempo”. Mas que sabemos nós sobre o tempo? Passa a correr e ninguém nos garante que ouviu as nossas preces. Lá fechei os olhos e saltei. A mão queimada não doía, a dor era só lembrança. O medo rendeu-se e a minha ligação à Terra maturou por fim. Mergulhou-se menina, saiu de lá mulher. O rio deixou de ser medo para passar a liberdade. É que quando eu era pequena tinha medo do rio, mas hoje… sou filha dele.

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Categorias:portugal, Tropeções

Balolas Carvalho

Tenho uma imensa sorte em me cruzar com pessoas extraordinárias em momentos extraordinários e só quero poder partilhar essa sorte com o mundo.

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