Presentes da aldeia

Crescer no norte, onde as almas são mais rijas que os corpos, é já de si uma sorte imensa. Nós não escolhemos onde nascemos nem onde os nossos pais nos decidem criar.
Se viver no Porto já é de si especial, escolher vir para uma vila nas margens do Douro, é decidir fazer parte de uma família maior. As mesquinhices e as coisas pequeninas do ser também têm vozes mais vorazes por cá, mas quando somos educados a saber lidar com essa parte da matéria, deixa de ter importância.
Por cá os ovos que se comem são caseiros, oferecem-se frangos criados em hortas como prendas e até a doutora da farmácia traz a casa com carinho um medicamento que seja mais urgente.
O espírito de comunidade vê-se na vizinha que fez biscoitos e nos bate à porta com uma latinha cheia deles, no saco de batatas que o meu pai traz das terras a mais para distribuir pelo prédio, e agora, que é Natal, a campainha não pára de tocar com gente que nos bate à porta ora com mais umas couves, ora com mais um bolo rei.
Ontem ao pequeno-almoço o meu pai foi lá em baixo, como sempre, buscar a saca do pão. Os padeiros por cá ainda nos deixam o pão fresco à porta. Apareceu com um enorme cacete junto da encomeda habitual.
-Pai olha que isso devia ser para os vizinhos. A mãe este ano não encomendou cacetes porque vamos ter rabanadas da Belinha.
– Podia ser um presente da padaria.
Ri-me com a inocência com que disse aquilo. Em época de Natal, em que os cacetes são tão importantes para os doces de família, era bom ser um presente, mas não me cheirava.
O meu pai tomou-me em consideração e foi deixar o dito cujo no sítio onde o encontrou, não fossemos nós comer o pão que não nos dizia respeito. Em Lisboa, estou tão habituada a pagar por cada espirro que dou que nem me passou pela cabeça que nos pudessem estar a oferecer…um cacete.
Ora lá fomos todos às nossas vidas e não me lembrei nunca mais do tal mistério da padaria.
Hoje, quando acordei, fui à gaveta do pão que o meu pai já tinha recolhido da porta bem cedinho. A minha mãe ao dar-me os bons dias diz-me que havia chegado um presente para mim.
Como detesto ir às compras fiz todas as prendas de natal pela internet, ora daí ter pensado logo que devia ter chegado uma das minhas encomendas.
Não vinha em caixa de papelão nem tão pouco em correio verde. Estava preso à saca do pão e para que não houvesse qualquer dúvida, trazia um recado.
“Dentista é para si, podia pegar-lhe ontem”.
Rimos juntas à gargalhada. Senti-me mal porque ter recusado o carinho da padaria com a minha desconfiança. Mas que haveria eu de pensar?
– Já não estou mesmo habituada a que me ofereçam nada, não é? – perguntei à minha mãe.
–  É para te lembrares destas e outras coisas que é tão bom voltares a casa.
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Balolas Carvalho

Tenho uma imensa sorte em me cruzar com pessoas extraordinárias em momentos extraordinários e só quero poder partilhar essa sorte com o mundo.

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