Andorinhas

É setembro e em Resende não estamos habituados a ver gente de mochila às costas a pedir boleia. Os turistas que cá vêm normalmente têm dinheiro, param em grandes quintas, nem se veem na rua, cruzam-se connosco em restaurantes ou nos barcos que conduzem pelo douro enquanto saltamos do cais para a água. 

Eu já não ia matar saudades da terra há mais tempo do que me agrada. Estava a morrer de saudades de casa, do silêncio, do canto dos galos da dona Idalina que ecoam pela minha rua. Daqui a duas semanas vou de mochila às costas com a Diana em reportagem por 19 países dos Balcãs e Europa central e não podia esperar mais por ir ao ninho matar saudades.

No sábado à tarde tinha adormecido a ouvir os ensinamentos do filósofo indiano Krishnamurti, que defende o amor na sua plenitude é a compaixão e a inteligência e a direcção do mundo está na adoração da liberdade. Sentia-me inspirada. Mais tarde, estava eu com os meus pais e irmã, primos de quem morria de saudades e amigos na esplanada do Quórum, que ao longo dos anos tem sido ponto de encontro em várias épocas e por diferentes motivos, quando um casal novo chegou esbaforido, cheios de calor, com um cão lindo de morrer e sem saberem muito bem para onde ir. Estavam de mochila, com costas curvadas, pulseiras nos braços e cristais ao pescoço. Decidiram sentar-se na esplanada. Troquei uns olhares e uns sorrisos com eles, tinham uma vibração linda. Ele com ar de quem pensa muito antes de falar, de fita na cabeça porque o calor era muito, ela de olhos verdes e ar de quem respira liberdade.

Fui ter com eles e perguntei-lhes de onde eram, se precisavam de alguma coisa. Andam a viajar por Portugal à boleia, o que não é propriamente fácil num interior normalmente desconfiado e pouco habituado a ver gente assim. Não lhes queria roubar espaço, despedi-me deles, ficaram com o meu contacto caso precisassem de alguma coisa.

Fui jantar com os meus pais e a minha irmã, relembrar a incrível Francesinha do Sangens, minha excepção óbvia no consumo de carne e, quando voltámos ao Quórum para encontrar o resto da família, eles ainda lá estavam. Na mesma mesa, com ar mais relaxado, agora sentados com o meu tio, a quem a vida também se encarregou de afastar, mas que estava lá de férias. Dizem que o Natal é quando a gente quer e o nosso estava só a começar.

De repente a mesa era pequena para tanta gente, juntámo-nos todos naquela mesa, falávamos inglês, francês, português, faziam-se gestos e perguntas a uma velocidade típica de quem vive no norte e tem o coração cheio. Todos estavam fascinados e curiosos com o modo de vida do Márcio e da Cilia. Ele português, a viajar pelo mundo sem destinos propriamente definidos, ela belga, com a atitude de quem nasceu para mudar o mundo. Conheceram-se no Sri Lanka. Enquanto ele esfregava uma casa-de-banho de um hostel onde estava a trabalhar em troca de estadia, aquela miúda de olhos verdes e cabelo claro passou por ele. “Fiquei completamente parvo”. Nunca mais se largaram. Embora o Márcio não tenha telemóvel e tenha ido viajar pela Austrália enquanto e Cilia foi viajar pela Ásia, voltaram a encontrar-se, apaixonados, sem esperar um do outro mais do que cada um está disposto a dar. 

Resende não tem parque de campismo. Já era tarde e tudo indicava que iam passar a noite num cantinho, à beira das piscinas municipais, abrigados do frio, com a tenda que trazem às costas. Sabem aqueles momentos em que já somos adultos e surge a oportunidade de vermos se os nossos pais acreditam mesmo na educação que nos deram? Os meus ensinaram-nos a amar os que nos rodeiam sem esperarmos nada em troca, a viver em espírito de comunidade, já que tudo faz pouco sentido se não formos uns para os outros. E vai daí que o Natal é quando a gente quer e enquanto toda gente ria, fazia perguntas e os olhava com admiração, cruzei olhares com a minha mãe e li-lhe os pensamentos.
– Sim mãe, por favor.
E ela sorriu-me. 

Quando a minha mãe ficou doente, há 13 anos, não imaginávamos que o consultório em que crescemos a vê-la trabalhar, um dia, havia de fechar. Brinquei várias vezes naquela secretária enquanto ela atendia os doentes de boca aberta, depois subíamos num instante a casa, fazia-nos um bolo de chocolate quentinho e quando o próximo doente viesse a campainha tocava e ela descia. Há uns anos lá veio a decisão de fechar e todos sabemos o quanto lhe custou admitir que era tempo de parar. O consultório passou a ser uma extensão de nossa casa, onde estão todos os resquícios das minhas mudanças de 19 casas, onde estão as nossas roupas de inverno, de quando éramos crianças, livros, até a minha máquina de escrever está lá.

O consultório agora é um enorme quarto, com cama, armários, quarto de banho, mas apenas as nossas memórias haviam lá dormido até então. Até que o Márcio e a Cilia pararam naquela esplanada e entraram pelas nossas vidas. Se eu tivesse casa só minha nem pensava duas vezes, estou habituada a que os meus cantos sejam a casa do povo. Os meus instintos não me têm enganado e as pessoas a quem tenho aberto as portas não me têm mostrado estar errada. Mas ali era a nossa casa, o nosso ninho e nunca tinha acontecido darmos abrigo a estranhos que por ali andassem.
Vi a minha mãe segredar o meu pai, conversarem sobre o assunto e quando me apercebi da decisão, abracei-os. Sempre vi os meus pais ajudarem quem lhes pedia ajuda, mas tudo neste momento foi diferente. Talvez pareça um pouco tonto da minha parte, mas o orgulho que senti deles e em ver que afinal não era tudo teoria, que na hora da verdade o cristianismo e os ideais que apregoam também são postos em prática mesmo que seja com pessoas que nunca viram na vida, deixou-me feliz.

-São tão parecidos contigo, podias ser tu – disse-me enquanto olhava o casal, o meu primo que só não é meu irmão porque a vida assim não quis.

Vimos todos juntos o fogo de artifício das festas de Mirão, uma aldeia perto da vila, e depois lá fomos mostrar-lhes os aposentos. De manhã, tomámos o pequeno-almoço juntos, passeámos pelas ruas da vila e a minha mãe ofereceu-lhes almoço. Bebemos vinho da zona, partilhámos formas de ver e estar na vida, filosofámos sobre a nossa geração e o quanto podemos fazer as coisas de maneira diferente, se assim estivermos dispostos.

Falámos sobre o amor, sobre o quanto custa acreditar hoje em dia na possibilidade de encontrarmos uma parceria assim, em como é fácil perder-se a esperança e se encontram as melhores pessoas quando não estamos à espera. Conversámos sobre a solidão, a juventude, as pedras que trazemos ao pescoço, sobre cristais e estrelas. Falámos da selva, das montanhas, sobre a origem da vida e do caminho do ser humano. Ao imaginar que seria difícil encontrarem boleia até à Régua, ainda para mais com um cão de grande porte, o meu pai ofereceu-se para os levar, mais tarde, até à Régua, onde vão procurar trabalho.

O Natal é quando a gente quer e dali se fez o nosso. Até a minha irmã que é mais desconfiada e não se dá tanto a conhecer, se rendeu aos encantos daquele amontoado de inspiração. Os meus tios ligaram para quintas para os ajudar na procura de trabalho, os meus pais a tratarem-nos como filhos e eu fascinada com as histórias deles, com tanto que tínhamos em comum e com tudo o que se estava a passar naquele ninho que tanto amo e teimo em abandonar por alguns períodos de tempo.

O Márcio tem feito de tudo, da carpintaria, aos hotéis para cães, já trabalhou em vários ofícios, sabe muito de tudo um pouco. A Cilia que estudou psicologia, dedicou-se a estudar os que vivem nas piores ruas da Bélgica, mas a mente dela não tem parado e tem ido mais longe do que isso. Antes do almoço, ao saber do meu problema de coluna, ofereceu-se para me fazer uma massagem terapêutica, que aprendeu a fazer na Malásia. Explicou-me que gastou o último dinheiro que tinha naquele curso de massagens, para poder ajudar os que estão em dor na mente e no corpo.

Fui ao céu. Ali estava eu, no chão do quarto dos meus pais, ao som de música clássica indiana, com a mente vazia e o coração cheio.
Quando chegou a hora da despedida todos sentíamos a intensidade de quem não se cruzou por acaso. Eu trazia na mão uma pulseira para ele e mais um mineral para ela trazer ao pescoço, que um hippie havia trabalhado em colar. Quando nos aproximámos para lhes dar esta lembrança para que me levassem na viajem deles, também ela tinha feito à mão uma pulseira para o meu tornozelo, com búzios e pedrinhas que havia colhido em Bali.

Os abraços foram longos, mas não se disse adeus. Quem sabe não nos cruzamos nas próximas viagens?

No fim da tarde também eu abracei a minha mãe, ao despedir-me para o regresso a Lisboa. Não importa quantos anos já passaram desde que saí de casa dos meus pais, a minha mãe chora sempre que me vê ir embora. De olhos molhados e abraço apertado lá lhe disse.
– Amo-vos muito. Que orgulho em ter-vos como pais. Obrigada por nos deixarem acolhe-los cá no nosso canto.

– Nunca os deixaria a dormir ao frio, filha.  Daqui a duas semanas, vais estar como eles e vais voltar a voar-me dos braços, promete-me que não dormes na rua.

-Prometo mãe, há de aparecer gente linda como vocês por lá também.

– Espero que sim, há gente boa pelo mundo todo. E é que passados tantos anos, tanto tu como eu sabemos por experiência própria, que todas as andorinhas, até as mais livres, precisam de bons ninhos para poisar.

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