Sobre a luz

Quando estávamos em 2012, lembro-me de estar numa praia na Galiza, com a água pelos joelhos a falar com uma pessoa a quem queria muito bem. Estávamos a mexer na água com os nossos pés, as águas do mar da Galiza são límpidas e deixam-nos ver o reflexo dos nossos corpos. Discutíamos as teorias sobre o fim do mundo que tanta gente apregoava a sete ventos. É curioso como, volta e meia, há sempre uma enorme vontade do ser humano em anunciar um fim. No livro de um dos amores da minha vida, “Intermitências da Morte”, de José Saramago, levanta-se a enorme questão do que é, afinal, feita a essência da vida senão da existência da morte.


Sempre fui fascinada pelo conceito de vida e morte, quando o professor de física e química no oitavo ano nos falou da lei de Lavoiser os meus olhos brilharam. “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Era exatamente assim que eu via o mundo, saber que alguém séculos antes pensou assim inspirou-me para sempre.
Mais tarde, ao ler Saramago, a sensação repetiu-se. A morte sempre me inspirou a viver. O conceito de vida eterna, de imortalidade sempre me pareceu absolutamente aborrecido. Eu não quero viver para sempre, se não houvesse um fim, como haveria eu de sentir tamanha necessidade em absorver tudo o que posso enquanto cá estou? Que seria da saudade, do amor, se não houvesse sempre um medo de nunca mais nos voltarmos a ver, a tocar? No fundo esta forma de ver o mundo é em algo semelhante à vida de uma borboleta, que passa por um processo de metamorfoses e quando finalmente voa, não tarda em morrer. Então vive tudo demasiado bem, com demasiada força. O que é viver se não isso mesmo?

Talvez o ciclo de esperar por um apocalipse se repita porque estamos à procura de assistir a algo magnífico. A morrer que seja no fim dos fins, não é? A presenciar o mais extraordinário cenário da natureza. Mas não é isso que nos está reservado. Ainda nos falta um caminho demasiado longo e conturbado. O ser humano ainda é uma larva em metamorfose.

Enquanto mexíamos na água eu partilhava com a pessoa que estava ao meu lado que não acreditava num final assim, que via tudo isto como o fim de um ciclo, como descreviam as civilizações antigas, mais especificamente a dos Maias. Eu não sou especialista, sou só alguém que perde muito tempo a pensar e a desenhar possíveis cenários. Tive a sensação que, mais uma vez, o filtro de uma sociedade sem espiritualidade – atenção que não me refiro a qualquer religiosidade – mas à forma mais livre de ser, não deixou que interpretássemos como deve ser as profecias dos nossos ancestrais.
Eles falavam na mudança de uma era, o final das trevas, um despertar de consciência e eu estava em crer que sim, isso faria finalmente sentido.

A minha vida mudou muito desde esse ano. De alguma forma, garanto sem qualquer dúvida que eu mesmo acordei. Depois de passar pelos anos mais dilacerantes e perturbadores de toda a minha vida, em que bati muito além do fundo do poço, eu senti, finalmente, um renascer.
Eu fui o casulo, a larva que enoja tanta gente, fui a dor de corpo e alma, até que voei, muitas das coisas que eu via, acreditava e sentia deixaram de ser comparáveis ao que a minha mente e personalidade se tornaram depois do trauma. No fundo o nascer da fénix depois das cinzas.

Apercebi-me não só da minha paz e da luz que senti dentro de mim estes últimos anos da minha vida, mas sobretudo da dos outros. Eu escrevo e hei de continuar a escrever porque a minha vida, apesar de simples e só porque eu me deixo levar por ela, dá-me oportunidades de ver, sentir e conhecer dimensões extraordinárias da humanidade.

Quando tenho este tipo de conversa perto de pessoas mais céticas, mais terrenas, presas a um raciocínio de segurança, que eu respeito, compreendo e aceito de coração, sou sempre vista e sentida como uma alucinada. Eu sorrio, abro o peito à partilha do que melhor tenho cá dentro, o amor. Não há nada desta vida em que eu não me esforce por responder com amor. E assim tento explicar que, se Lavoisier estava certo, se há teorias que nos explicam que todo o universo nasceu de uma explosão de matéria que nem sequer existia antes, nós mesmos somos feitos dessa matéria.
A lua influencia as marés, os nossos antigos, antes de serem invadidos por ondas de colonialismo e destruição, andavam de mãos dadas com a terra e o céu. Admiravam a sabedoria dos astros, previam colheitas boas através dos pontos que viam no céu.
Se a Lua que é lua pode influenciar a vida na terra, se toda a vida na terra é energia e matéria, porque raio eu como filha desta unidade não haveria de receber influências dela?

Normalmente pergunto o signo às pessoas e a menos que sejam dos signos mais abertos e sensíveis, a pergunta é sempre a mesma: “Não me digas que acreditas nessas coisas”. Eu sorrio. Quando nascemos, naquele único e exato momento, todo o universo vivia. Os planetas giravam e estavam numa determinada posição quando vi a luz do dia e berrei pela primeira vez. Se tenho certezas? Nenhumas. De nada. Mas porque não pôr a hipótese de que, se calhar, somos muito menos e muito mais do que nos imaginamos? Eu sou apaixonada pela minha insignificância, pelo quão volátil, substituíveis, pelo desprezo com que simplesmente a nossa existência pode acabar, num ápice.
O que está à nossa volta é tão maior que nós. Nos últimos séculos o homem conseguiu evoluir tecnologicamente, inventámos curas de doenças, construímos obras de arte com as nossas próprias mãos, desenhámos máquinas para tudo, mas as perguntas continuam as mesmas. Fazemos as mesmas perguntas que os filósofos da Grécia Antiga faziam, identificamo-nos com personalidades e formas de ver de gente que já não passa de pó.

Porque não importa o quão grande conseguimos construir um prédio, seremos sempre pontos mínimos neste enorme cenário.
Há uma semana, numa reportagem para o jornal em que trabalho, sobre pescadores ilegais, eu falava com dois homens, em pé. Estava a tentar conquistar-lhes a confiança quando vejo um senhor magrinho, de cabelo branco, comprido, apanhado num rabo de cavalo a observar-me.

Dirigi-me a ele.
– Também é pescador?

– Não sou não senhora. Qual é o seu signo?

Achei fascinante como é que naquele cenário alguém que me responde pela primeira vez se sai logo com esta pergunta.

– Sou peixes.

-Eu sei. Também eu sou. A menina tem a bondade toda nos olhos. Os peixes são todos assim, olhe que eu sei muito sobre estrelas.
Ao ouvir isto, sentei-me ao lado dele e perguntei.
-E o que é que elas lhe dizem sobre este mundo maluco?

– Acha o mundo maluco, sente-se perdida?

-Até sinto. Mas cada vez menos, tenho conhecido muita gente diferente que me dá alento.

Ao olharmos para as águas do rio, cheia de gente que se movia para buscar do que viver, suspirou e respondeu-me:

  – Pois é e sabe porquê? Está tudo a mudar menina. São novos tempos, hora de acordar. Sabe o que diziam os antigos? Aproximam-se momentos de luz.

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