A galope

De todo o passado foste o único fragmento de tempo que me apagou da história. Apagar uma mensagem que não gostei de ler não significa que me esqueça que a li, mas também não me faz acreditar que dói menos. Mas eu respeito, como tento respeitar tudo o que não entendo.

Ao longo dos anos fui aprendendo a aceitar o meu passado, os eu’s de quem não me orgulho, as vicissitudes que uma alma inconsequente me foi dando enquanto me moldava ao tempo e ao espaço que nasci para ser.
Cresci com um calor imenso no corpo. Começa no peito e sinto-o espalhar-se por cada veia, emergir por cada poro. É um calor que nem sempre é cómodo, por vezes queima, sufoca. Quero sempre viver tudo como se não me permitisse respirar e parar para absorver todas as partículas de ar fresco que cada experiência nova me dá. Mas eu sou mesmo assim, não me posso negar.

Como aprendi a respeitar o meu passado e, sobretudo, a aceitá-lo, não guardo mágoas de ninguém, nem mesmo de ti.

É engraçado que desde pequenina eu sonhava que galopava um cavalo selvagem, numas montanhas acidentadas, estava sempre com medo, a olhar para trás. O sonho que se repetiu durante anos, acontecia sempre no meio de muitas batalhas. Eu estava sempre a combater junto dos locais contra invasores e morria sempre com uma facada, um tiro, uma machadada nas costas. Sempre, sempre, sem excepção. Durante mais de vinte anos acordei a transpirar com a sensação de negligência, por nunca chegar a perceber quem é que me matava. Como é que me podia distrair daquela forma e deixar que me destruíssem da forma mais vil de todas? O sonho que se seguia quando voltava a adormecer, porém, era sempre de alívio. Do tormento padecia a paz e eis que dormia sossegada a partir de então.

No dia em que te conheci, sonhei que estava numa praia, havia uma casa enorme onde estavam todos os meus amigos e família. A casa começava a arder e todas as minhas pessoas entravam num estado de loucura e emergência desesperada. Eu, calmamente, caminhava entre as pessoas e dizia-lhes: “Não tenham medo, isto é o meu sonho, não é real. Posso fazer chover”.

E vai daí que várias gotas espessas começaram a cair, mas a casa ardia na mesma. Eu não estava preocupada, habituei-me às maravilhas dos sonhos lúcidos e à confusão de guardar memórias deles, baralhando-me várias vezes com o que já terá sido, ou não, real. Faz parte da vida dos que sonham muito, habituarem-se ao limbo e à rendição à fantasia.

Lá no meio da confusão, a caminhar à beira mar aparecias, com o ar mais calmo e natural do mundo. Quando finalmente chegavas ao meu lado, envolvias-me num abraço e o incêndio da casa desaparecia num ápice, como se nunca tivesse lá estado.
Quando estive, há pouco tempo, numa situação de trabalho que me fez ver casas, carros e sonhos queimados, lembrei-me várias vezes deste sonho e da agonia que será não termos quem nos abrace em momentos de sufoco, quando a vida grita por socorro mas ninguém nos ouve. É quando sentimos a dor verdadeira da condição humana, não é? Quando nos vemos ou imaginamos sozinhos no meio do caos, do delírio, da morte. Afinal das contas, ninguém vai connosco na hora de partir. Não há abraços que nos valham, a alma não resiste, nem mesmo ao toque.

E eu há seis anos era uma miúda, impressionada por uma casa que continuava a arder, mesmo num sonho lúcido, mesmo quando fazia chover e que só parava quando me guardavas nos braços. Há seis anos era uma menina. Um casulo de uma larva em resguardo para o que a vida me guardava. Só soube o que era viver quando me dilaceraste em pedaços, como só a traição do amor nos faz sentir, e nunca mais sonhei com facadas nas costas. Nunca mais morri em sonhos, nunca mais casas arderam na minha noite. Os meus sonhos foram durante anos contigo, até que desapareceste e me deste a paz que eu mereço. A ironia dos símbolos e da arte da mente são de arrepiar. Explorarmos a massa cinzenta dá trabalho mas faz-nos chegar ao ponto da montanha em que o nevoeiro ficou para trás, lá bem em baixo. Vemos as cores reais de que somos feitos e não há amor que nos valha, a verdade é crua e não tem de ser apreciada. Ela não quer saber.

Há seis anos, neste mesmo dia, cruzávamos as linhas onde as sinas são registadas, segurávamos as palmas das mãos como se corrêssemos o risco de cair daquela fusão de corpos e emoções. Como se houvesse mãos que nos salvassem.

E o bonito disto é que te deixei ir, sem te esquecer porque não me esqueço de nada ou de alguém, mas sem saudade, sem vontade de te ver, sem qualquer filamento do passado em suspensão.
Deixar ir é um processo que nos tira anos de vida, é deixar uma droga, um vício que nos mente sobre o que era ou não saudável, sobre o que era ou não amor. Mentimo-nos porque nos agarramos a uma nostalgia que nos padece. Acredito que se todos nos permitíssemos perdoar, sentir toda a dor que nos está gravada nas palmas das mãos e nos deixássemos seguir o caminho aceitando que é tempo de deixar ir, todos seríamos menos presos à saudade, ao que podíamos ter sido, aos amores que nos dilaceram o peito.

Eu não fui feita para ficar presa a nada, muito menos a alguém. Eu vim aqui para sentir o calor dos peitos, para os deixar extravasar pelos poros, para contagiar os que me rodeiam, sem que os permita deixar feridas abertas.

Foi por isso que aprendi que a honestidade, o dizer o que me vai na alma, o nunca guardar para mim o que sinto ou penso é o melhor caminho de libertação. Falar com o coração na boca, sem medo da rejeição, sem me guardar aos caminhos da repressão alheia e da vergonha, o simplesmente viver sem temer que me fujam tem sido o caminho mais libertador, mais feliz e o que me tem dado o melhor da vida. Claro que nem sempre é fácil, há tropeções que me deixam marcas. Mas o melhor que aprendi desde que me partiste em pedaços, foi a viver, a respirar. Talvez nunca tivesse aprendido a aproveitar tanto os momentos que a vida me dá, por mais fugazes que sejam, se não tivesses despedaçado todas as certezas que tinha.

Ninguém tem que ficar, a menos que esse seja o seu maior e incontrolável desejo e, enquanto não houver quem se sinta assim, é porque não é para deixar ficar. É para deixar ir.

Nada, mas absolutamente nada tem o sabor da liberdade que tenho em mim hoje. E, deixa-me que te diga que hoje, seis anos depois da primeira vez que fizemos amor, voltei a sonhar com o cavalo selvagem. Montava-o, a galope, numa enorme planície verde, coberta de flores brancas. O cavalo já quase não pousava as patas no solo. Voávamos. E sempre, absolutamente sempre sem  que eu tivesse a preocupação de olhar para trás.

 

Foto: Diana Tinoco

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