Bempostinha

Sou bastante mutável, é o que diz o meu signo. Para quem não liga um chavo aos signos é uma piada, para quem liga é só mais uma das milhões de características que os clubes do Zodíaco têm. Mas eu sou mutável e gosto disso, sinto que nunca me vou cansar de mim, todos os dias posso aprender comigo, como se fosse possível existirem várias minis “mim”s aqui dentro. Admiro tanto quanto me assusto com a mutabilidade das pessoas, das coisas. Mas é um susto bom para quem tem medo do aborrecimento e da monotonia da vida.

Lembro-me de detestar chá, sabia a coisa de adulto, uma água choca cheia de tonalidades em chávenas bonitas. Os adultos nunca me fizeram sentido e o chá era só mais um detalhe que me ultrapassava. Há uns anos, numa noite de inverno, na casa de uma das muitas famílias que já me acolheram cheias de amor, ofereceram-me um chá.

Gosto de dar várias oportunidades à vida, tenho sempre esperança que o desfecho um dia seja bom. E claro que não é preciso ser um génio para adivinhar que isto já me causou muitas nódoas negras na pele e na alma. Mas nessa noite fria aceitei a água escaldada que todos bebiam com cara de quem lhes aquecia mais do que o dia. Aquilo fervia, mas sabia bem, como quase todas as coisas que fervem. Foi um dia bonito esse, o dia em que me apercebi do quanto adorava água choca com cor. Lembro-me de me rir, a chávena nem era assim tão bonita,mas estava-me a aperceber que era possível estar a tornar-me em mais um desses adultos que não fazem muito sentido e são difíceis de entender.

No ano passado, detestei Lisboa. Não a compreendi, olhava para ela com os olhos de quem não via lá muito bem. Tinha frio. A zona em que morava não me fazia sentir em casa, os trabalhos que fazia não me enchiam o peito, as pessoas por muito boas que pudessem ser não me tiravam o ar. Então decidi que Lisboa era o sítio perfeito para ser triste, para me perder, para me massacrar com dores que já nem me lembrava magoarem tanto. Os dias só eram dias quando apanhava comboio para casa, a luz de Lisboa não me dizia olá. Havia uma senhora simpática a trabalhar no café da esquina mas era tudo muito pouco pessoal, faltava-me o jeito bonito das pessoas simples, humildes, que sabem como é difícil mastigar as amarguras da vida com poucos dentes bons.

Fui embora aliviada e pensei que não voltaria tão cedo àquela que é tão desejada pelos que não são de cá, tão difícil de adaptar aos que são do meu Norte querido.
Mas este ano não estou na mesma Lisboa. Estou na rua da Bempostinha, que é um nome por si só bem postinho. Estou numa rua cheia de prédios sem gosto, com marquises de quem não tem muito dinheiro para luxos, onde há cafés podres, velhinhos, cheios de amor. Não estou na zona empresarial, não estou na zona da arquitectura bonita, não me cruzo com senhores de barba feita e pescoço engravatado.

Os meus vizinhos são gentes de todo mundo, de todas as cores, de todo o tipo de dificuldades que só uma vida dura traz. Há amor naqueles paralelos pisados. E é na esquina da minha rua que está o meu sítio preferido da cidade. É minúsculo, é velho, é podre, é lindo.O Frangueiros não tem sequer espaço para mais de quatro mesas. Há pouco mais do que muita cerveja, mas tem o sorriso da Dona Teresa, que é de Chaves e cá está há muitos anos, todos os dias. Quando lá fui viu-me logo o sangue do norte, diz ela que se nota à distância, que bom que é ouvir disto por cá.

Eu nem sou de pequenos almoços fora de casa, mas a Dona Teresa prepara-me tão bem o pão com queijo das minhas manhãs lisboetas, sempre com o mesmo ritmo vagaroso, mas com um carinho de estranhar numa cidade que me doía tanto há um ano atrás. A Dona Teresa dá-me a alegria de um bom dia em família e não há nada que o pague. Todos os dias há personagens diferentes que partilham, em pé, aquele meu pão com queijo, e eu vou lhes conhecendo as palavras, as vozes e as histórias que me trazem com o Correio da Manhã na mão e as tragédias de mais um dia que passou.

À noite a rua está parada, eu chego muito cansada, embora a vizinhança possa ser de desconfiar, já que o Intendente não tem fama de grande espingarda, eu nunca me sinto insegura.
No outro dia, chegava à Bempostinha a pé e já estava a ver um casal de vizinhos meus, lá ao longe. Éramos as únicas três pessoas ao fim do dia na nossa rua. Ele era daqueles magricelas com cara de maus, um piercing de mau gosto na sobrancelha, um cabelo que não precisava daquela massa de gel, um fato de treino digno de um rótulo menos simpático. Ela trazia o cabelo apanhado, um casaco de couro vermelho, um ar exausto, um joelho à mostra. Mesmo quando tentamos eliminar os preconceitos ao máximo, a verdade é que é difícil fugirmos aos clichés de quem vê caras antes de ver corações.

Iam os dois com cara de quem não tem muitos amigos, ele rezingão, voz grossa.
– Ouve lá, o que é que almoçaste hoje?
– Oh pah estou cansada…
-Anda lá, diz-me o que almoçaste.
Pensei logo para mim “mais um bruto”. Mas que raio.
– Bebi um chá e comi um bolo de arroz.
Estavam a entrar no prédio ao lado do meu, passei por eles nesse preciso momento. Ela abria a porta e ele estava encostado à parede das campainhas.
– Isso não pode ser percebes?
-Oh. Já é tarde, deixa-te de coisas.
-Não pode ser. Isto não é vida, tu vais só ver. Agora em casa tu vais ver.
-Vou ver o que pah?

Eu também queria saber o que é que ela ia ter de ver em casa. O tom de voz dele era de quem me dava razão, a imagem dele não ajudava e não é que eu pudesse fazer alguma coisa extremamente especial por ela, mas pelo menos estava lá. Então abrandei, como quem vai ao telemóvel distraído, de mão no bolso, a enrugar a cara como quem teme um estalo na cara. Temi pela resposta dele.

Mas daí que ouvi e parei. De repente, já não me interessava disfarçar o meu ouvido,já não ia em pés de lã. Cá dentro quis que se soubesse que ouvi e ouvi bem. Ouvi e gostei, porque foi inesperado e foi bonito. E as minhas armas caíram e as dela também. Cruzámos os três o olhar e ambas sorrimos ao ouvi-lo dizer:

-Tu vais só ver miúda. Vais chegar a casa, vais para o sofá e eu vou fazer-te uns ovinhos mexidos com fiambre, miúda. Isto não é vida.

Fui de coração cheio para casa, a imaginar os ovos mexidos da mesa dos meus vizinhos e quando cheguei a casa, a Di já lá estava. A Di que é já quase um membro de mim, porque além de irmã de amor, é colega no trabalho e partilhamos a casa mais bonita da cidade, já tinha feito o jantar. Lá comemos, sentámo-nos na sala de canecas quentes na mão e, enquanto bebíamos água choca para adultos que agora amo, perguntou-me:
– Esta casa sabe mesmo a casa, não é?
– É, sabe mesmo. Adoro esta rua e é estranho sentir-me em casa em Lisboa. É bom isto.
– É nossa. E é diferente.
– É… É diferente. Olha… Sabes o que é?
– O que?
-É bempostinha.

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