Vento na cara

DSC_2153.jpg

Fotos: Joana Jorge

Dois dias antes de viajar para a Alemanha apanhei um grande susto e, pela primeira vez em muito tempo de partilhas na internet, ponderei se haveria de escrever este texto; porém, por respeito e admiração a todas as pessoas que passam por situações semelhantes e infelizmente sem a minha sorte, decidi escrevê-lo.

Sempre tive muitas dores de cabeça, desde miúda. Mais tarde vieram as enxaquecas com tudo a que dão direito. Aos 17 anos, na época dos exames nacionais de décimo primeiro ano, as características das minhas dores mudaram e eu deixei de conseguir dormir, tive mesmo um episódio em que deixei de ver por uns segundos, vários momentos que mais tarde descobri serem ataques de pânico e, pronto, estava mais que visto que devia ir ao médico.

Marcada a consulta no hospital de S.João, eu e a minha mãe fomos juntas de comboio de Resende para o Porto, na maior tranquilidade, lembro-me que nem carteira levei comigo. O plano era irmos ao hospital, depois passearmos pela baixa onde compraria o habitual bilhete para o Paredes de Coura e lá voltaríamos felizes da vida para Resende.

A neurologista que me viu era conhecida da minha mãe, fez-me os exames clínicos todos, mas por via das dúvidas achou por bem mandar-me fazer uma TAC. Quando tive de repetir o exame, agora com contraste, lembro-me de dizer à minha mãe que aquilo não me parecia ter sido bom sinal.

Passados uns 40 minutos de espera, numa sala para onde me tinham encaminhado, uma médica de cabelos aos caracóis (que mais tarde se veio a revelar uma das melhores médicas e pessoas do mundo) e um médico magrinho de olhos claros dirigiram-se a nós com a notícia que me tinham encontrado um vaso dilatado no cérebro, que não sabiam o que era, nem se o sangue que circulava era venoso ou arterial, podendo ser um aneurisma e que por isso eu teria de ficar internada para fazerem mais exames, sem haver a hipótese de sair dali sem que tudo fosse esclarecido.

Eu acho que todos os dias, quando acordo, me lembro da sensação que aquele momento me trouxe. São precisos apenas microssegundos para vermos toda a nossa vida passar-nos em frente dos olhos, como quando acelerava o “rewind” do VHS lá da sala de jantar. O chão foge-nos, lembramo-nos de todas as pessoas a quem queremos o melhor do mundo e, de repente, o que nos atormentava e as comichões de ontem são imperceptíveis. A relatividade das coisas passa a ser monstruosa.

Eu reajo sempre muito calma a situações que prometem o caos, talvez por guardá-lo dentro de mim desde que me conheço,  mas a minha mãe estava em pânico e ainda teve de voltar para Resende, lá haveria de me preparar um saco, já que nem carregador do telemóvel tinha e, entretanto, a minha tia Mena cheia de carinho levou-me um pijama ao fim do dia. Eu lembro-me de assistir àquilo tudo sem grande alarido, embora por dentro gritasse.

Eu não sabia sequer se tinha de ir à segunda fase dos exames, havia tantos planos para as férias, que ridículas me pareciam todas essas preocupações agora que estava deitada naquela cama de hospital. A ala de internamento de neuro estava lotada e por isso fiquei internada no piso de gastro. Eu era a mais saudável de todas aquelas pessoas embrenhadas em lençóis brancos, com famílias a chorar, máquinas a apitar, noites inteiras a vómitos e gemidos.

Estive internada 15 dias e talvez, se um dia escrever um livro, possa dedicar as páginas merecidas aos dias extraordinários que lá vivi, assim como explicar a mudança que trouxeram na minha vida tanto as pessoas que vi morrer, as lições das histórias que partilharam comigo doentes que lá estavam há meses, as visitas inesperadas que me fizeram pessoas que eu não esperava, o amor que senti de tanta gente, ou até mesmo o episódio em que fugi às escondidas, a meio da madrugada, com outras duas raparigas pelos corredores do hospital, porque uma delas tinha ouvido falar de uma janela aberta no piso de traumatologia e nenhuma de nós sabia o que era sentir o vento na cara há muito tempo.

Felizmente, no final das contas, o tal vaso dilatado era a minha veia de Galeno, o sangue que lá circulava era venoso como era suposto e parece que este tamanho estúpido teria já sido defeito de fabrico, tendo sido a pressão compensada pela Mãe Natureza.

Eu era uma miúda a crescer em Resende, no meio do verde, do rio, só queria jogar voleibol e divertir-me com os meus amigos. Nunca tinha apanhado uma bebedeira, nunca tinha feito grandes maluquices, gostava de dançar descalça e de correr no meio das árvores das terras do meu avô. Era péssima a expressar sentimentos, era pudica, pensava demasiado em  vez de arriscar, guardava tudo cá dentro e era bastante responsável e prudente. Escusado será dizer que a  minha percepção em relação à vida mudou drasticamente. Se desde criança a vontade de me mexer, de conhecer e de viver era já de uma imensa força, a partir do episódio desse verão, a minha dedicação a saber aproveitar o facto de estar viva e a demonstrar o bem que queria aos que me rodeavam quadruplicou.

Era uma larva, saí daquele hospital borboleta e deixei de guardar os sentimentos para mim, evitei ser bruta como de costume, transformei toda a confusão que estava guardada em mim em amor e energia para ser alguém melhor.

A minha insignificância sempre me fascinou, a nossa pequenez nesta imensidão de matéria e espaço, a volubilidade com que passamos de vivos a mortos, a falta de sentido em todo este processo de existir, mas eu ainda não tinha sentido o respeito que estar vivo merece, precisamente por ser fruto de uma aleatoriedade tão fortuita.

Saí daquele lago de água fria a sentir-me abençoada pela sorte, como quem se safou por um triz de levar com uma cacetada e a primeira coisa que fiz quando entrei no carro do meu pai foi meter a cabeça de fora da janela e sentir o vento na cara pela primeira vez na vida. De olhos fechados pensei nas minhas companheiras da fuga nocturna, elas não teriam a mesma sorte que eu tão cedo.

Depois deste incidente, a cada unha encravada que me aparecesse eu não hesitava em ir ao médico. Claro que estou a exagerar, mas basicamente nunca mais adiei uma ida ao médico, acho que é normal depois de apanharmos um susto e admito que acabo por ter pouca paciência com pessoas que se recusam a ir ao médico, quando há coisas graves que podem ser tratadas a tempo se as pessoas tiverem cuidado.

dsc_2190

Felizmente de todas as maleitas que vou tendo, desde operações aos pés, a hérnias numa coluna que me dá muito que fazer, a verdade é que são sempre coisas menores, nada comparáveis aos centenas de carcinomas que já vimos aparecerem em familiares, amigos, mães e pais de amigos, vizinhos, conhecidos.
Cresci com uma mãe que acompanha tudo que é gente ao IPO, ouvi sempre falar da Rosa Maria, uma das melhores amigas da minha mãe, com quem partilhava quarto na Universidade, que faleceu com cancro, vi muitas pessoas que me são queridas morrer cedo demais com cancros pesadíssimos, o meu avô foi um sobrevivente que vinte anos depois viu o pesadelo voltar com toda a força, por isso cá em casa sempre tivemos um enorme respeito por este monstro que assombra tantas famílias.

Dois dias antes da minha viagem, estava já com as malas a meio, decidi ir deitar-me. Já sei que mesmo que esteja com muito sono, quando chego à cama há sempre um processo delicado de me fazer desligar da realidade. À noite a minha mente acelera e tudo que é possibilidade remota, decisão mal tomada no passado ou preocupação surge nesse instante.
Aprendi com o tempo a amar dormir sozinha e por isso tenho o hábito de, para relaxar, fazer festas em mim. Acho que é muito saudável sabermos tocar no nosso corpo, sentirmos os nossos pés, os joelhos, os ossos das ancas, sentir-me a barriga, o umbigo, o recorte do meu peito. 

Foi precisamente quando cheguei ao meu peito que o meu coração parou. A exata sensação daquela tarde em frente a dois médicos desconhecidos com uma novidade que me fez rever cada pedacinho do meu passado, mas agora ali sozinha, no quarto da casa que ia deixar dali a duas semanas.
Dei conta que por baixo da minha mama esquerda estava um nódulo, um dos que apesar de invisível aos olhos, metem respeito e nos mandam ir a correr ao médico.

Se fosse uma situação normal eu jamais teria esperado um minuto que fosse até ligar para a minha mãe, no entanto, eu tinha a viagem para a Alemanha daí a um dia e achei que o melhor era guardar o segredo comigo. A verdade é que sendo o nódulo benigno ou maligno, não fazia sentido eu perder aqueles 8 dias só para mim, tão merecidos, porque nada iria mudar. Ele estava ali, eu sabia agora da presença dele e restava-me encarar a realidade sem deixar a minha família em agonia durante tanto tempo.
Nessa noite dormi muito pouco, aliás eram sete e meia da manhã quando fechei os olhos. Fiz uma enorme meditação sobre tudo, acabei de fazer as malas e concentrei-me em tudo que de melhor tenho na vida.

No dia seguinte fui almoçar com um amigo, ele estava absolutamente longe de imaginar o que me ia pela cabeça, sabia apenas que ao outro dia eu ia viajar. Ele faz parte do clube que não acha piada ao que escrevinho e estávamos a falar nisso quando ele me disse:

-Não é por mal sabes, mas irrita-me a tua forma positiva de encarar a vida. És demasiado optimista. 

Eu sorri, a olhar para a cerveja que tinha em frente, peguei nela, dei um gole como quem tem bastante sede e respondi-lhe:

-Não é por mal sabes, mas é demasiado bom poder sentir-me viva, só gostava que os outros pudessem sentir-se assim também.

DSC_2138.jpg

Quando voltei de Berlim, depois de uma viagem intensamente introspectiva, com muita maluquice, festa, tempo para estar sozinha, depois de muita meditação e tempo para organizar todos os pensamentos que me passavam pela cabeça, mostrei à minha mãe o nódulo já sabendo que lhe iria tirar o sono essa noite.
Por milagre, a médica que só vem uma vez por mês a Resende estava cá no dia seguinte e viu-me.  Felizmente foi mais um susto, o nódulo é benigno e tem apenas de ser vigiado. 

Quando saímos do hospital de mãos dadas, as duas, como naquela tarde em que fomos para o Hospital de S.João, estávamos em silêncio com um grande sorriso de alívio.
A minha mãe apertou-me a mão com mais força e disse :
– Naná, é mesmo bom sentirmos o vento na cara outra vez, não é?

5 Comments

  1. Balolas,

    Gosto muito de ler o que escreves. És genuína do mais genuíno que há. Não percebo como há um clube de pessoas que não gosta de te ler. Não acho que exponhas demasiado da vida. As nossas vidas são todas muito parecidas, podemos encara-las é de formas diferentes e tu encaras a tua de frente. Não me parece que partilha-la com os outros lhe roube a intimidade que te é devida. Nem acho que te esforces para a expor. Escreveres sobre as tuas experiências não é abrires a porta de tua casa. Mas passa muito por sabermos partilhar e acreditarmos que do outro lado alguém está a precisar de ler pensamentos positivos, cheios de amor e dessa energia que gostas de transmitir.

    Desde que criaste este teu blogue que o leio com muita atenção. Está história hoje fez-me chorar, não de tristeza, mas de felicidade, por estar tudo bem contigo e por estar tudo bem comigo e podermos as duas sentir o vento na cara. Não tenho ninguém na família que tenha morrido com uma doença como o cancro mas tenho conhecidos e amigos que já lutaram contra ele, uns ainda estão cá, outros não. Pergunto-me se todos já sentiram o vento na cara? Espero que sim, que tenham sentido, que tenham tido algum momento de epifania como conforto. Porque mesmo que o mal nós aconteça acredito que sabermos que o mal ainda não nos levou, que podemos fazer-lhe finca pé e, no máximo, dar um bocado de luta já nos faz sorrir. Eu vou continuar a fazer finca pé a tudo o que me queira drenar energia. Como tu fazes.

    Um abraço e beijinhos

    Gostar

  2. É maravilhosa a forma como consegues transmitir-nos a alegria de viver. Parabéns Balolas! Continua assim. É um privilégio poder ler o que escreves.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s