Mais sorte que juízo

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Hamburgo – Dia 1 e 2

Quando comprei o bilhete para esta viagem, estava acampada no pseudo escritório de minha casa, com um lindo casal de brasileiros a passar o fim-de-semana no meu quarto, através do Airbnb.
Sentia-me presa, cansada. Bem, na verdade, exausta é a melhor palavra.
Soa a cliche, mas as viagens fazem-me bem, fazem-me sentir viva, seja pelo bem ou pelo mal, embora por algum motivo especial, o universo tenda a que seja sempre pelos melhores motivos.
Ontem meti-me no avião para uma viagem de oito dias, dois em Hamburgo e seis em Berlim. Viajar sozinha é, para mim, das melhores opções para quem quer sentir o que é a liberdade em pleno. Pelo menos parece-me a possibilidade mais próxima de a atingir. Não há nada que se assemelhe a chegar a um país com língua e culturas diferentes, só de mala na mão e com um friozinho na barriga por não fazermos ideia do que vem a seguir.
Meti-me no avião, estava cheio de emigrantes que regressavam a casa depois de uma estadia de longa duração para matar saudades dos seus. Ouvia-se uma mistura engraçada de palavras em português e alemão, soavam a Agosto, ainda que de luvas e cachecol  vestidos.
A primeira vez que viajei sem adultos tinha 14 anos e fui para Cambridge, durante 15 dias, para um curso de verão de inglês. Éramos quatro ganapas, o meu inglês era péssimo e o que me fascinava era a ideia de estarmos sozinhas, ainda que não imaginássemos que íamos mesmo ter a liberdade total de fazer o que bem nos apetecesse.
No meio de imensas histórias e peripécias, conheci o Kiko. Demo-nos especialmente bem, o sentido de humor dele era hilariante, eu acabei por me aproximar imenso mas tudo mudou quando ele declarou a sua paixoneta.
Ora, a última coisa com que eu sabia lidar aos 14 anos era com um rapaz a declarar-se, pelo que o Kiko não podia ter feito coisa pior que demonstrar afecto romantizado por mim.
Com o tempo aprendi a lidar com esse tipo de situações e o Kiko passou a ser um bom amigo, a quem pedi desculpa pela falta de jeito em gerir sentimentos, ainda que só tivesse 14 anos.

Crescer é um processo extraordinário.
De repente vais à farmácia pedir socorro e quem te atende é o Rui, teu amigo de infância com quem jogavas às escondidas, estás na fila do médico e vês o teu primo de bata vestida a falar com doentes, na televisão em directo está o Ruica com quem fazias vídeos estúpidos no Erasmus em Roma e enfim, ainda ontem estava em Cambridge, sem saber como lidar com a paixoneta do Kiko e agora estava a ouvir a hospedeira do avião a anunciar que era esse mesmo Kiko a pilotar o avião que me levava às minhas suplicadas férias.
A viagem podia ter começado melhor? Claro que não.

A meio do voo, caí na tentação de comprar uma raspadinha da Ryanair. Óbvio que não me saiu nada, mas valeu pelo facto de fazer com que a senhora que estava ao meu lado começasse a falar comigo. Ela nunca tinha jogado e tentou ali a sorte dela, também não lhe saiu nada.
Era professora universitária, especializada nas matérias das nossas complicadas cabeças e a viagem passou sem nos darmos conta, sendo que ela tinha as melhores respostas para as minhas mais que muitas perguntas. Nasceu em África, os caracóis dela impunham-se sobre os olhos esverdeados e sobre o sorriso de orelha a orelha.
Às tantas um Holandês enorme, careca, alegadamente alcoolizado, começou uma enorme confusão, quis bater (chegando a bater) num rapaz novo, e às tantas já queria agredir toda gente que aparecesse à frente. A tripulação do avião com a maior classe e profissionalismo lidou com todo aquele stress até à chegada da polícia, assim que aterrámos.

Estava à espera da minha companheira de viagem para me despedir dela, já que me esperava cerca de uma hora de viagem em metros e autocarros até ao Hostel onde ia ficar hospedada, quando ela chega e me oferece a boleia do amigo que a ia buscar ao Aeroporto.

Eu sei que é mesmo puxado lidar com tudo o que a vida nos traz, mas há uma magia e uma ligação entre nós humanos que realmente não tem tradução.
Eis que saímos da zona das chegadas e ali está ele: um homem lindo, Persa, alto de casaco comprido a condizer com a cor da barba cinza, de rosa vermelha na mão à espera daquele que, passo a saber minutos depois, foi o seu primeiro amor, amor esse que já não via há 23 anos e que conseguiu reencontrar graças ao facebook de um familiar.
Pronto e ali estou eu, parada, petrificada vá, a assistir a um reencontro digno de ecrã de cinema, com uma intensidade capaz de tirar a respiração até aos mais resistentes, com energia e amor suficiente para que no meio daquilo tudo, por acaso, ainda me ofereçam boleia até à porta do hostel, mesmo sabendo que fica a uma valente pedaço do aeroporto e da rota que iam seguir.

Cheguei ao Instant Sleep Backpackers Hostel (onde paguei 23€ por duas noites), ainda meia atarantada com o que tinha acabado de acontecer e com as histórias e fotografias que me tinham acabado de mostrar durante a viagem, e fiz check in.
O ambiente estava super calmo, fui guardar as coisas, fazer a cama e  descer à rua para comprar cerveja e jantar. Fui a um restaurante asiático, onde ninguém falava inglês e cujo  menu estava todo em Alemão. Uau. Estava um pouco tramada, não fosse a filha mais nova da dona do restaurante chegar e arranhar algumas palavras em inglês, suficiente para me arranjar uma bela refeição sem carne por 5 euros.
Quando cheguei ao hostel ouvi um brasileiro dizer que não estava a achar grande piada ao Porto, porque era demasiado provinciano e ele vinha de São Paulo, ora está claro que pediu a minha intervenção. Ele conversava com um rapaz de Guimarães, que vim a descobrir ser espetacular e que, por acaso, veio no mesmo avião que eu, sem a sorte de ter boleia directa para o hostel, mas com direito a vista privilegiada para a confusão do avião, com a oferta um murro no braço incluída.

Às tantas já estávamos todos a beber cerveja na varanda, a curtir os dois graus negativos e a perceber que estava gente de todas as partes do mundo naquele cantinho de Altona North.
Entre eles estava o Mango, um sueco que quer ir viver para uma aldeia no norte de Portugal e criar a sua própria quinta, talvez a pessoa com a melhor capacidade de unir pessoas que já conheci em toda a minha vida.

Porque o mundo é lindo, conheci um Colombiano que tem contactos na selva amazónica e me vai poder proporcionar a estadia com tribos de indígenas específicas incluídas na investigação da minha tese de mestrado, a minha mãe repete constantemente que tenho mais sorte que juízo e eu não posso negar, não é?
Depois de irmos renovar a quantidade de cerveja disponível, descobrindo que no meio de centenas de qualidades diferentes de cerveja lá para o meio da loja de conveniência estava a autêntica Super Bock, a conversa passou por vários estágios e o último deles foi a história sobre pessoas que alegadamente fazem sexo com patos (?) e sobre golfinhos que já violaram humanos depois de snifarem um químico que um determinado peixe liberta (?).
A noite terminou com um dos Colombianos a proporcionar aulas de salsa e a dar alto espetáculo com uma Californiana bailarina profissional que apanhou os truques todos em segundos, os Brasileiros a contarem a viagem pela Europa em 27 dias e mais umas quantas conversas cujos temas se tornaram um bocado suspeitos.

Hoje de manhã acordei e estava tudo branco. Achei por bem ir visitar a irmã do meu avô, que está em Hamburgo há mais de 40 anos, com o marido, e que não estão habituados a receber muitas visitas de Portugal por cá.
Senti que estava mais que nunca ligada ao meu avô, que se despediu de mim há já tanto tempo, com todo o amor que as mãos da minha tia me transmitiam sempre que me apertavam enquanto esboçava um sorriso demasiado doce para ser descrito num blog sobre viagens de um joelho esfolado.
Levaram-me a almoçar a um restaurante Português, do senhor Celso, onde matei as saudades do que é um verdadeiro bife de atum e, depois, fui passear de braço dado com a minha tia, pelas ruas bonitas do centro de Hamburgo.
Uma senhora amiga deles deu-me boleia para o hostel, depois de me contarem as aventuras e desventuras de quem deixou tudo para trás à procura de uma vida melhor .há décadas atrás, e onde a promessa de voltar é assunto diário de planeamento familiar.

Não é incrível como podemos sentir-nos em casa, mesmo estando num sítio onde não percebemos patavina do que nos dizem, do que as tabuletas têm escrito, do que os sinais da rua indicam?

Está a nevar outra vez.
Tenho mais sorte que juízo mãe, tens toda a razão.
Como sempre.

 

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