Se por aí não nascessem poetas

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Los Angeles, 2 de Outubro de 2016

Hoje conheci uma senhora com 60 e tal anos que nunca se apaixonou. É casada, tem filhos, é daquelas pessoas cheias de luz, que só de olhar já nos abraçam.
Quando era adolescente, os pais arranjaram-lhe o casamento, nunca ninguém quis saber a sua opinião, como é de esperar nos casamentos negociados.
Nunca me tinha cruzado com ninguém cuja liberdade emocional lhe tivesse sido tirada, muito menos em miúda. Fiquei paralisada.
É claro que todos temos a noção que existiam e existem, ainda em várias partes do mundo, garotas que são obrigadas a casar com quem não escolheram, mas diferente é termos à nossa frente, de carne a osso, alguém a falar do assunto em primeira mão com um sorriso ingénuo, olhos brilhantes e voz séria.


Enquanto caminhávamos, como me apercebi que estava disposta a falar do assunto, fui fazendo mais perguntas.
Com uma vida atribulada, crescida no médio oriente, numa família pobre, o amor e a paixão não faziam parte dos planos mais urgentes. Eu, crescida no meio de tanto amor e tão embrenhada na minha forma de encarar as paixões ao longo dos anos, nunca tinha parado para pensar no amor como um privilégio.
– Então mas nunca se apaixonou, nem por fora do casamento?
– Não, dediquei todo o meu amor aos meus filhos, esse é o amor mais puro que se pode sentir por alguém.
-Não consigo mesmo imaginar a minha vida sem me apaixonar. Por muita dor que venha a seguir, é um sensação alucinante. Como uma droga.
-Eu sei, eu sei!!! É tão mágico.
-Mas deixe-me perguntar-lhe: se nunca se apaixonou, como é que sabe?
-Pelos livros, ora. Eu já vivi os maiores dos amores, os meus preferidos são os do Tolstoi.

Congelei.
Ela continuou

-Os livros trouxeram-me as paixões mais fortes e arrebatadoras. Vivi-as a todas como se fossem minhas. Eram minhas, enquanto as lia. São todas minhas. E tenho-as na minha memória como minhas. Sofri amargamente com os finais de algumas personagens.
-Não sei o que dizer, não imagina a importância que os livros têm na minha vida, estou sem reacção.
– E a poesia? Querida, a poesia já me levou muito longe.
– A poesia vem do céu, não acha?
-Querida Balolas, a vida é dor, luta, sobrevivência. O que é o amor? É cuidar, respeitar, é entregar e dar sem limites. Eu fico feliz por saber que tantas pessoas sabem o que é o amor, mas será que sabem? Eu sei amar os meus filhos, mas o amor romântico não foi para mim. Não estava escrito ser. Mas houve quem escrevesse o amor para mim. Amei e amo muito nos livros, oh dear! Os livros!

Embora me seja super difícil chorar, foi impossível não ficar com os olhos banhados em sal, enquanto me sentia completamente desarmada por aquelas palavras. Ao ver-me assim, fez-me uma festinha no rosto e fez xeque-mate.

-Balolas querida se este mundo é doente assim, não vamos querer imaginar o que seria de nós se volta e meia por aí não nascessem poetas.

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