Valentins

 

Estávamos as três sentadas no sofá, a partilhar os últimos quadrados de chocolate que restavam no prato do costume, encostadas umas nas outras.

A Xaninha ao meu lado direito, de costas para o braço do sofá, com os pés debaixo do meu rabo, eu sentada de pernas à chinês encostada à minha mãe que se sentava sobre as suas próprias pernas, enquanto me fazia festinhas na cara. Nós tão quentes e lá fora a promessa constante da aparição de uns flocos de neve.
Partilhávamos experiências nossas, histórias de amor, umas felizes outras que nunca chegaram a deixar a magia do platonismo. Cá no ninho não há segredos, não sabemos o que são tabus, contamos tudo uns aos outros, do mais privado ao mais embaraçoso.

Estávamos a rir, outras vezes perto de chorar, enquanto nos orgulhávamos do privilégio de poder estar naquele sofá, de membros entrelaçados pelo sentimento mais puro de todos.
O amor é tudo nesta casa, o que mais se admira, pelo que mais se luta, o que mais se reclama. O nível de amor desta casa nunca pode descer, seja o amor por nós próprios, ou pelas plantas que temos nos vasos antigos da sala de jantar, ou simplesmente pelos dias bonitos.

O requisito para se estar nesta casa é única e exclusivamente amar.
Falávamos sobre o quão cada vez mais lidamos de perto com pessoas que sofrem de violência nas suas relações, sobre o quão desleal é tornar o amor em comércio, tão feio quanto rodear mesquitas e santuários com lojas e tendas de souvenirs. Importou-se mais um dia que não era nosso, que vale, encaixa e serve numa sociedade com cada vez menos tempo para amar.

Para uns, só mais um dia de carinho e trocas de mimos, para outros a tentativa de compensar a falta de disponibilidade, de jeito ou de noção.
Amar, amar, amar mas aprender a distinguir o que é ser amado bem e ser amado mal.
Do fazer amor, ao descompromisso, do carinho, ao companheirismo, o respeito, o respeito. O respeito.

A uma certa altura, quando o relógio já ia muito mais para lá do que seria razoável, a minha mãe esticou os braços, entrelaçou os dedos finos, ossudos, calejados e meigos nos nossos e fizemos silêncio.
Tenho demasiada sorte,pensei. Que mais posso querer na vida?
Apertou as nossas mãos com mais força, aninhámo-nos como um puzzle carnudo e, com as testas unidas, disse-nos com um tom carinhoso e determinado:
– É exatamente e precisamente por isto que havemos sempre de ser os nossos melhores valentins.

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