Rumo a LA

Quando nasci, eu e a minha mãe andávamos de um lado para o outro: meia semana ela trabalhava no consultório do Porto, e a outra metade íamos de comboio para Resende, para que a minha mãe trabalhasse no seu consultório dentário de lá, o primeiro a abrir na vila. Sempre me habituei a andar de um lado para o outro, mal nasci. A Xaninha nasceu e os meus pais tiveram de optar. Escolheram Resende, escolheram bem. Ofereceram-me a primeira bicicleta sem rodinhas e o Sandro, meu vizinho, demorou semanas a conseguir que eu andasse naquilo sem me matar. Era amarela, com um cesto, toda retro, todos a adoravam e ir buscar o pão quente das 17h de óculos redondos e dentes em bico era, com ela, todo um desfile de estilo.
Crescemos na rua, nunca tivemos playstation, mas tínhamos tudo desde o peão ao diablo, aos elásticos e às cordas, às bolas de futebol, ao arsenal de balões de água ou à colecção de tazos e berlins e obviamente as cassetes todas da Disney. Tínhamos campo, tínhamos terra, flores, árvores. Adorávamos a biblioteca, adorávamos preencher os papeis que requisitavam livros, o cheiro a velho dos livros antigos e crescemos felizes, responsáveis, sem telemóvel para nos chamarem para casa, quem mandava era o anoitecer que nos avisava do jantar pronto a servir.
Quando eu tinha por volta dos 8 ou 9 anos, o meu pai comprou-nos um computador. Ainda existe, é enorme, com um magnífico Windows 98 instalado, o que na altura foi, para nós, um delírio tecnológico. As disquetes tornaram-se um dos meus vícios, ainda tenho algumas, e todos queríamos experimentar as maravilhas de um Solitário ou simplesmente o êxtase de escrever um texto no Word. Havia toda uma arte por descobrir no WordArt e poder jogar o Hugo, para cima e para baixo, para a esquerda e para a direita, sem ser a vê-lo pela televisão, era absolutamente extraordinário.
Nunca deixei de ir brincar para a rua, obviamente, mas o meu amor por aquele computador foi instantâneo. Foi lá que comecei a escrever os meus contos, as minhas poesias, onde escrevi peças de teatro, tudo naquela cadeira de madeira antiga, forrada de um tecido cor-de-vinho (tinto, o melhor, claro), tudo ali, no quarto dos meus pais, fosse verão ou fosse inverno, pelo menos meia hora por dia, só eu e aquele trambolho existíamos no mundo.Mais tarde veio a primeira ligação à internet, fazia um barulho insuportável, ainda ecoa na minha cabeça, demorava uma eternidade, mas valia tão a pena a espera e lá ia tudo a baixo quando a minha mãe recebia um telefonema. E ela sempre recebeu tantos. O meu pai criou o meu primeiro e-mail, que ainda existe, o triste, piki e miserável nanacarv5.
Entretanto, em Resende, criou-se o Espaço Internet, com meia dúzia de computadores. Chegávamos lá, dávamos o nome e esperávamos horas para poder ter uma hora de internet gratuita, só para nós. Era incrível e acabávamos por compensar o tempo de espera com umas caçadinhas ou com umas escondidinhas level hard. Lembro-me da primeira vez que usei o MSN, para falar com o meu colega Valente, que estava precisamente no computador à minha frente, uau, que mundo incrível o nosso. Jogávamos, falávamos em chats e pesquisávamos coisas sobre o próximo livro do Harry Potter.O nosso primeiro portátil veio bem mais tarde, era de um tio, era gigante, lento, adorávamo-lo. Mas a internet não chegava ao quentinho da cozinha. Quando finalmente chegaram as placas de internet, começámos a visitar cada vez menos o trambolhinho do quarto dos meus pais, só para imprimir trabalhos ou em caso de termos perdido a vez no novo trambolho ambulante.
O meu primeiro portátil veio com a e-Escolas. De repente, a Escola Secundária já não tinha fichas para tantos portáteis. A maioria dos alunos estava a ter pela primeira vez um computador e os intervalos transformavam-se em dezenas de adolescentes sentados com extensões ligadas a extensões que se ligavam a extensões porque a biblioteca já estava cheia, os outros corredores cheios estavam e todos estavam apaixonados. Quando fui estudar para a Maia no 12º fiquei mesmo surpreendida por não ver estudantes sentados no chão agarrados aos portáteis, mas depois lembrei-me que estava na cidade, muita gente já teria tido portátil muito antes, muita gente teria experimentado a internet muitos anos antes de nós, e a maioria, com certeza, teria luz em casa.
O que é certo é que sempre fui apaixonada pela tecnologia, nunca larguei a minha relação com a rua e a natureza, mas comecei a querer compensar todo o conhecimento que não tinha, toda a informação possível de absorver, todas as culturas, todas as bandas, todos os sites, fóruns, todas as invenções, notícias, pessoas, tudo o que dava para ver, sem sair da minha própria casa.
Sempre liguei muito ao contexto das coisas, das pessoas, sempre apontei os pormenores, sempre me dediquei aos detalhes, talvez numa busca constante de respostas, talvez numa necessidade sedenta de atribuir alguma lógica a este mundo trapalhão, a esta vida atribulada, a esta misturada de eventos, lugares, pessoas, que se cruzam e descruzam, que vão e vêm, que nos têm.
Há três dias, estava eu com o meu novo portátil, sentada à braseira a estudar (vamos todos acreditar que estava efectivamente a estudar) quando o dono da empresa que me abordou, em Outubro, para uma possível participação minha no projecto dele, no qual entretanto assinei contrato de confidencialidade, fiz formação e não quis depositar muitas esperanças para mais tarde não me desiludir, diz que precisa de falar comigo urgentemente.
A minha mãe tinha cá uma amiga e eu tinha uma chamada urgente para atender. Peguei no portátil, dirigi-me ao quarto dos meus pais e atendi. Enquanto ele falava comigo, sobre o que pensava do projecto, sobre a data de lançamento, sobre o que tinha aprendido sobre mim e o meu trabalho e sobre a vontade dele em que eu pertencesse à equipa principal da empresa, assumindo um cargo de co-founder e Journalism Director em Los Angeles, a minha noção de tempo e espaço parou. Passados tantos anos sem me sentar naquela secretária, de repente, eu era outra vez uma miúda perplexa, de coração acelerado, sentada na cadeira de madeira antiga, forrada de tecido cor-de-vinho, e, à minha frente, lá estava o sem rugas mas velho, ainda mais amarelado, para o qual já não olhava há tanto tempo, computador outrora tão presente na minha vida, a olhar para a mim com um sorriso de quem me reconheceu, de quem se orgulha de me ter visto crescer.
– Ana, estás a ouvir-me?
– Sim, desculpe. Estou a ter um momento emocional.
– Oh, por favor. Tens todo o tempo para pensar.
– É que estou precisamente no sítio onde usei a internet pela primeira vez e agora está-me a fazer essa proposta, do outro lado do mundo, no mesmo sítio onde abri um word pela primeira vez.
– Oh, fantástico. Isso quer dizer o quê?
– Que sim. Que aceito.
A vida até podia não ter significado nenhum, até pode ser uma perfeita salgalhada de açúcar e agri-doce, mas eu teimo em acreditar, que por muitas voltas que isto tudo dê, mesmo que no fim dê tudo exatamente ao contrário do que imaginámos, são estes momentos que fazem tudo valer a pena. E admitamos que todos estávamos a querer um Balolas Fest II

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