O céu

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12 de Abril de 2016, Visnes, Noruega

As expectativas que criamos em relação a tudo na nossa vida têm, por tendência, o efeito de nos condicionar a aproveitar os momentos e as pessoas que nos rodeiam da melhor forma possível. É por isso que, pelo menos no meu caso, as passagens de ano são sempre uma desilusão e as melhores noites da minha vida foram as que aconteceram por acaso, sem grandes combinações ou grandes apetites.

Sempre fui de pôr muitas expectativas em tudo, nos passeios da escola nem conseguia dormir com a excitação que os antecedia e, na verdade, esses eram os únicos dias em que acordar cedo não era sinónimo de pesadelo.
Embora sempre tenha sido miúda de reparar nos mais pequenos detalhes e quisesse ao máximo aproveitar tudo, o que é certo é que ia tendo várias desilusões em relação a pessoas, a momentos e a lugares.


Quando ia ao cinema, adorava ficar no lugar mais na ponta. Imaginava sempre o quão incrível poderia ser a pessoa que se ia sentar ao meu lado. Claro que me lembro perfeitamente que era sempre uma desilusão. Ou o lugar nem sequer chegava a ser ocupado, ou era um ser ressonante, ou era um daqueles tagarelas que comentam o filme todo, ou então era um dos que sujava tudo a comer pipocas. Também sempre que esperei por uma grande conversa de comboio, ou de avião, acabava por ser uma companhia desagradável, ou nem chegava a existir vivalma. Hoje olho para esse entusiasmo ingénuo com alguma estranheza, já que se há coisa que eu ame na vida é o silêncio. A falha, noto hoje, estava única e exclusivamente em mim que, sem me aperceber, projectava o que eu era e o que eu gostava, no que eu desejava que os outros fossem.Foi num momento muito particular da minha vida que tudo ganhou uma nova perspectiva. É claro que já levei e levo imensa porrada da vida como quem gosta de levar, mas eu tento mesmo tirar o melhor possível do que de pior há à minha volta.


Ao crescer, apercebi-me que só podia ser levada a sério pela vida no dia em que começasse a aceitar tudo o que não era o que eu sou, penso, quero, desejo ou sonho. É exatamente nisso que me concentro e, consequentemente, todas as expectativas em relação ao que me rodeava começaram a diminuir, até quase não existirem.
Sonho e sonho muito, mas o meu lado racional sabe, hoje, intervir a tempo de não tornar os meus sonhos em planos que não dependem só de mim. Subo lá bem alto, fico bem longe daqui, mas já não caio em queda livre. Hoje, quando o pára-quedas está a dar de si, já só esmurro os joelhos de menina perdida.É demasiado fodido crescer e, cada um de nós, lá tenta safar-se da melhor forma. Se partilho este tipo de experiência é só e unicamente porque me sou muito melhor, sentimento que desejo a cada ser desta terra giratória.
No meio de tantas inacreditáveis surpresas, desde encontros com pessoas desconhecidas que me encheram a alma, a trabalhos pelos quais não dava um charuto e me trouxeram tanta alegria, desde comidas às quais torcia o nariz pelo aspecto e que se tornaram nos meus pratos favoritos, basicamente a vida tornou-se muito melhor quando deixei de me querer em todo lado.


Hoje, depois de mais uma viagem sozinha com mais que histórias para contar, depois de sentir aquela adrenalina toda de quem está por sua conta, depois de ver lá do céu lagos gelados, montanhas brancas, vales escuros, profundos e sentir o silêncio como nunca tinha sentido antes, decidi caminhar. O sítio onde estou alojada está assim num sítio que, à partida, parece ter pouco para oferecer. As casinhas, que na verdade são uma escola, são acolhedoras e bonitas, mas parece não haver grande coisa para mostrar à volta, além, claro, do que eu já naturalmente gosto. Verde, verde, verde. E casas incríveis de gente que adora o verde tanto ou mais que eu. Nisto, enquanto ia sei lá onde, vi assim uma coisa com mau aspecto, parecia um género de pedreira abandonada, um buraco enorme. Havia uma porta de madeira vermelha aberta e um corredor escuro lá para dentro. Os pés enterraram-se ligeiramente na areia húmida. Não sei muito bem porque é que entrei, mas a curiosidade foi mais forte. E eu fui sem pedir nada. E ainda bem. Porque cheguei ao céu.

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