Dona Saudade

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 Lisboa, 22 de Julho de 201

Acontecem-me coisas surreais, isto claro, visto pelos olhos de quem é fascinada por esta vida engraçada.

Eu sempre acreditei naquela máxima do “quem está mal muda-se” e baseio as minhas decisões nela, hoje mais do que nunca. Acho importante termos a capacidade de perceber o que nos é bom ou não, e daí optar por procurar caminhos alternativos que nos sejam mais saudáveis.

E assim tenho feito em relação a tudo na minha vida. Quando não estou bem, mudo-me. Mas o engraçado disto tudo, é que ultimamente calha-me ter de mudar precisamente quando estou bem. Este ano em Lisboa foi uma trapalhada, não me dei com a energia da cidade quando cheguei, não percebia como é que tudo podia ser tão frio e fechado e não queria acreditar que a minha vida se ia resumir a um mestrado sendo, portanto, difícil querer ficar cá.

Não me encaixo, nem sonho fazer o jornalismo convencional. Eu quero andar pelo mundo, contar às pessoas a realidade humanitária que tentamos esquecer todos os dias, mas que não podemos. Quero abrir os olhos. Mas enquanto não posso nem consigo tal, sempre insisti em obrigar-me a fazer outras coisas enquanto estivesse por Portugal. Escrevendo como freelancer sobre histórias que me interessavam contar, mas sobretudo empregos noutras áreas, pondo-me à prova constantemente, adaptando-me. Lisboa foi a cidade em que me mantive distribuída por 4 empregos em simultâneo e 1 mestrado e, a sério, jamais me vou esquecer da loucura que é uma pessoa dividir-se desta forma. Descobri que adoro ensinar, ao ter, pela primeira vez, dado explicações de todas as disciplinas a um miúdo que adorei conhecer, descobri que consigo aconselhar mamãs sobre o que os seus pikis devem e podem vestir, fiz prendas à mão, comecei um novo projecto do outro lado do mundo a partir do meu computador e, por fim, lá fiz o primeiro ano do tal mestrado a que me propus.

Lisboa é, para mim, o caos da vida adulta. A tentativa de me descobrir enquanto jovem perdida, a embriaguez das noites quentes mas sem estrelas, a vivacidade da amizade de quem está como nós, a solidão que tanto prezo e, fundamentalmente, a vontade de voltar para o Norte.

Mas como sempre, calhou-me conhecer alguém que me fez gostar de cá estar, calhou-me ir a sítios que me fazem querer voltar, calhou-me que me está a custar-me muito mais do que contava empacotar tudo mais uma vez e pôr-me a andar.

Eu sei que coisas fantásticas se avizinham, mas às vezes parece uma maldição isto de começar a amar quando está na hora de me ir embora.

Lá na loja, há duas semanas, atendi mais um dos muitos telefonemas do costume.

A senhora quis saber como eu tinha passado, se lhe guardei o que havia reservado enquanto não esteve por cá. Eu nunca tinha falado com a tal senhora, sabia que era uma encomenda pesada que estava ali guardada, mas tinha que confirmar. A senhora falava com doçura, num tom sério mas leve, avisava-me que estava para chegar e para não me assustar, já que não se havia esquecido do que tinha reservado.

Achei de imensa gentileza, o acto de me querer prevenir da sua chegada, mas continuava sem saber com quem é que estava a falar:

-Agradeço a amabilidade, mas será que me pode relembrar o seu nome?

A resposta da senhora nunca mais me saiu da cabeça, o nome dela soou-me a profecia, a uma chamada de atenção de um universo que nunca está desatento.

– Claro menina, aponte aí por favor minha querida: ligou a Dona Saudade.

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