De pingo no nariz

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       Abril de 2016, Lisboa

Eu moro numa cave. Quando abro as janelas do meu quarto tenho as pernas das pessoas que esperam pelo autocarro a um palmo.

Ouço as conversas de toda gente, desde os namorados a discutirem, às mães afrontadas pelos filhos adolescentes, ouço os idosos a mandar vir com os mais novos, os empresários a tratar de negócios, ouço tudo enquanto preparo o meu dia, enquanto tento dormir, enquanto escrevo no computador ou leio um livro. Já vivi em 15 casas e nunca gostei tanto de um quarto como gosto deste. É a minha fortaleza, faz todo o sentido que eu viva aqui, o melhor desta cidade é o meu canto.

Algumas pessoas ficam muito admiradas quando digo que não gosto de viver em Lisboa. Não é a cidade que tem culpa, eu é que sempre estive mal habituada. Eu sou e hei de ser sempre uma criatura de gentes, no meio da minha solidão e do meu dia-à-dia só comigo, hei de dar sempre valor às conversas aleatórias com o senhor que trabalha no café, com a senhora que espera há quarenta minutos pelo mesmo autocarro que eu, com a senhora que me sorri depois de limpar o suor de um dia de trabalho com a manga da camisola enquanto olha para o céu com ar de desabafo, o meu dia vive desses momentos. E esses momentos numa cidade como esta não são impossíveis, mas são escassos.

Ontem um condutor dizia-me que não entendia como é que as pessoas do norte eram tão simpáticas, até mesmo se lhe fossem servir uma meia de leite, conseguiam fazê-lo de bom grado. É claro que as generalizações são perigosas, mas eu percebi logo do que é que ele estava a falar. Lisboa é uma cidade luminosa, é uma menina bonita, inteligente, grande. Mas é confusa, está sempre com pressa, sem tempo para grandes amizades, sem se entregar a grandes paixões. Gosta de curtir a vida, de se vestir bem, acha que tudo é o máximo e é vaidosa, mas falta-lhe a alegria genuína de viver.

Falta-lhe ser mulher. Eu prefiro as mulheres decididas, que arregaçam as mangas e têm a resposta na ponta da língua.
Se parece bem, ninguém quer saber, faz-se, está feito e bem feito. Até podem ter menos, mas fazem com que o pouco se multiplique, agarram-no, amassam-no, dão-lhe as voltas que é preciso.“Mas Lisboa tem sol, tem luz” e eu adoro. É verdade. E é a prova do equilíbrio natural das coisas, caso contrário seria gélida e sombria sem qualquer volta a dar e é aqui que um povo faz a diferença.

Lá em cima até pode chover, os dias até podem ser escuros grande parte do ano, mas há um calor e uma vivacidade contagiante. E é isso que quem é cá de baixo nunca vai entender, querem resumir tudo aos palavrões que dizemos, aos petiscos que comemos, mas quando se lhes tenta explicar o que é fazer das tripas coração, trocam os olhos.
Uma vez, num dia péssimo a subir os Clérigos, um senhor já com muita, muita idade vinha na minha direcção e parou.

– Eu conheço-a.
– Não estou a ver…Não me estará a confundir?
– Não menina, tenho a certeza que a conheço.
-Pois realmente não estou mesmo a ver…
-Não costuma ir no comboio para a Régua?
-Costumo sim
-É de lá menina. Vejo-a sempre com as malitas. É de lá!
A seguir agarrou-me nos ombros, deu-me um abraço enorme e desejou-me feliz natal. Fez-me o dia. E é destes dias que eu sinto falta. Falta-me o Natal. Mas isto sou eu, que sou das sensações, das relações e das pessoas. As pessoas até podem cá estar mas soa tudo a longe e ocupado. Nos outros sítios em que morei, até mesmo em Roma, eu podia não ter os meus, mas tive sempre calor humano. Desde que cheguei em Outubro, ando sempre com o pingo no nariz, ranhosa, resfriada. O que tem piada, já que o clima é tão mais ameno por estes lados.
É o que é.
E hoje é terça.
Não trabalho na loja este fim-de-semana.
Faço anos sexta.
“Pai vou hoje para o Porto, amanhã para Resende.”
E o meu pai diz “vem agasalhada filha, olha que está frio”
e eu rio-me.
“Oh papá, já devias saber que em casa nunca faz frio”.

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