Querido avô,

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Desculpa que te escreva, não te queria roubar paz, tão pouco o silêncio destes anos, mas tenho mesmo que te falar.

Há tanta gente que não acredita em coincidências, outras que acham a vida um resultado do acaso puro e seco e depois há quem veja esta balbúrdia como obra de um Deus que, ao que dizem, bem sabe o que faz. Eu não sei em que acredito avô, talvez na ironia, é avô, se não houver mesmo ponta de magia em que eu possa pegar, então é na ironia que eu acredito.
Não era suposto fazer esta intromissão ao teu sossego desta forma. Mas preciso que saibas que já não sou a mesma menina a quem disseste adeus enquanto sorrias.

Já não tenho aquela inocência nos olhos que choraram a tua ida. Desculpa-me avô.

Quem me dera que fosse verdade, que estivesses aí em cima com os teus olhos azuis vidrados em mim e me visses crescer, ainda que me doa tanto crescer. Tinhas tanta razão, os heróis das tuas histórias estavam tão certos, andamos todos para aqui perdidos avô. Porque é que nos abandonaram aqui?

Lembro-me todos os dias da promessa que te fazia desde pequena. Nunca perdoei que o teu tom de voz fosse de angústia quando dizias que quando um dia partisses ninguém ia querer saber das terras que nos ias deixar. “Ninguém vai querer saber disto minha filha” dizias-me triste, de queixo pousado à enxada que trazias de apoio enquanto passeávamos nas tuas terras. O teu olhar ia para longe, perdido nas folhas dos teus milhares de castanheiros e ficavas tão bonito mesmo quando estavas triste que eu, numa tentativa de alcançar essa solidão, pousava também o meu queixo no cabo do sachinho que tinhas feito só para mim, para que me sentisse da terra como tu, quando te acompanhava lá em cima. “Eu quero avô, prometo que quando for grande vou tomar conta delas”.

É tão perigoso fazer promessas a quem amamos, avô.

Quando foste embora, eu deixei que te fosses sem massacres. Abracei-me às árvores que nos deixaste, vesti camisolas tuas e até o teu rádio levei comigo quando viajei. Andei a enganar-me este tempo todo avô, brinquei aos covardes, mas a vida não perdoa.
Tenho andado a fingir este tempo todo uma viagem tua, sem qualquer tipo de referência à eternidade ou à saudade amarga. “O avô foi ali e já volta” e por isso não visito aos Domingos aquele pedaço de mármore com a tua fotografia cravada. Dizem que a nossa cabeça arranja as suas próprias manhas para nos proteger do sofrimento, mas a vida não perdoa avô, juro-te que não.
Ela fica tonta e moribunda de tanta volta que dá, tanto encontro, tanto desencontro. Se alguém nos vir de cima, olha para nós como nós olhamos para as baratas, ali tontos desvairados, sem sabermos se corremos para um lado ou se tropeçamos para o outro.
E eu não sou diferente, pois não.

O teu mais velho já é engenheiro, como te imagino feliz ao vê-lo de fato vestido. O Zé já é quase médico e os mais pequenos também já estão encaminhados, até já namoram e são todos bons alunos como lhes pedias que fossem.
Eu tenho trabalhado no que aparece, desde que cheguei mais cedo do que era previsto lá de Cabo Verde. Viajei avô, tal como tu viajaste, e ainda vou viajar mais. Veio o verão e dei por mim a fazer de tudo: dei umas horinhas num restaurante, depois em trabalho de bar, distribui publicidade para uma óptica e escrevi para ganhar uns trocos. Mas escrevo-te esta carta porque o fado não nos perdoa e mais tarde ou mais cedo não nos deixa fugir aos nossos medos, ou não viessem sempre as abelhas direitinhas a mim e nunca se aproximassem de ti naqueles dias de primavera no teu jardim.
Estou a trabalhar em Resende, até que me mude para Lisboa e nem imaginas onde trabalho avô. Estou a ajudar os teus colegas, numa associação como a que fazias parte. Ai quem me dera que estivesses aqui, para te ajudar com as papeladas, para te organizar os subsídios, para te dar todas as novidades em primeira mão sobre a tua agricultura.
Já viste como é incrível? Em pequena dizia-te que ia ser engenheira agrónoma e mesmo tendo seguido o sonho das letras, já é o segundo trabalho em que me cruzo com essas profecias de quem venerava a tua obra. Fiquei tão feliz por ir ali parar, ainda que seja por pouco tempo.

Mas eu acredito na ironia da vida avô, gosto de pensar que não há coincidências, quero acreditar que há algum sentido no meio da desorientação em que nos metemos.
Entre processos e papéis, dou sempre de caras com as declarações da tua ida. São papéis que declaram o legado que nos deixaste, são inscrições em teu nome. É a obrigação de engolir a eternidade que nunca aceitei. É isto tudo, todos os dias. É vir para casa com a azia da verdade que nunca quis aceitar.

Enquanto penso em ti todos os dias, agarrada à saudade que me deixaste, os senhores que lá vão não me conhecem, mas tudo muda quando lhes digo de quem sou neta. Falam-me de ti com admiração “grande homem, grandes terras” e é tão bom que dói.
Hoje tinha acabado de ler o teu nome quando um senhor entrou no escritório para algumas informações. A agricultura leva sempre à conversa de quão difícil é a vida e a vida teima em puxar a morte à baila. Contava-me que serviu na guerra de Moçambique enquanto falava dos companheiros que viu morrer.
“Nunca se esquece, não é?”
“É menina, mas não há maior prova de amor aos nossos do que os deixar ir.”
“ E como é que se consegue deixa-los ir?”
“Escreve-se-lhes uma carta, menina”

Amo-te muito avô.
B.

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