Encontrei os teus chinelos

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Tenho um primo mais novo do que eu seis meses. Fomos sempre inseparáveis e mantivemos uma ligação extremamente forte até à nossa juventude. Ainda nos adoramos, mas talvez porque a idade tira o tempo às pessoas, já não estou com ele com a frequência que era costume. Éramos tão próximos em crianças que escolhemos , sem combinar, a mesma manhã para, aos cinco anos, perguntarmos às nossas mães como é que se faziam os bebés. Quando via o Papuça e Dentuça chorava desesperadamente porque queria o meu primo comigo e nunca comi um Bolicao sem ter a certeza que ele também comia um.

Foi uma infância, e depois adolescência, de companheirismo, onde se iam construindo um role de interpretações fantásticas para as dúvidas que tínhamos em relação ao que nos rodeava. Sempre ansiámos por muitas respostas, na catequese, nas aulas e nos grupos de que fazíamos parte, e éramos cansativos, chatos vá, porque nenhuma resposta nos enchia a alma. Então voltávamos para casa e falávamos do mundo como se percebêssemos alguma coisa do assunto, até porque aqueles adultos não percebiam ponta sobre nada.

Uma vez, estávamos juntos numa feira de artesanato, porque a minha tia, entre muitas coisas, domina na arte dos licores e das compotas, quando ele ouviu as pessoas falarem de um casal que pelos vistos estava na feira e era estranhíssimo.

As pessoas diziam que eles tinham um aspecto duvidoso, aquelas roupas cheias de cores, nada combinadas, aqueles cabelos compridíssimos, um escândalo e a mulher nem rapava os pêlos das pernas. Aquelas barbas, que desleixo, que horror. Um desaforo à moral.

O meu primo já os tinha visto e quando me contou aquilo eu esbocei um sorriso incrédulo : São hippies? E ele, como quem já tinha encontrado a pólvora há muito mais tempo, respondeu-me: Pois claro que são.
Não há dúvidas de que fomos a correr procurar esses dois seres misteriosos, de quem os vizinhos da minha tia falavam horrores, e a verdade é que os adultos cada vez faziam menos sentido. A tenda de artesanato daquele casal era extraordinária, as cores deles davam vontade de cantar e os pêlos das pernas da rapariga não se viam, ou pelo menos não nos interessavam para nada. Não me lembro dos nomes deles, mas lembro-me que foram os primeiros adultos, além dos nossos pais, a terem paciência para as nossas perguntas sobre o universo e sobre a vida, algumas, como se pode imaginar, completamente absurdas. Estivemos imenso tempo a ouvi-los, eles queriam saber a nossa opinião sobre as coisas (!!!), e lembro-me particularmente de nos explicarem com cuidado que o amor teria várias dimensões, e que o amor à natureza deveria ser uma das estruturas da vida do ser humano.

Saímos dali iluminados, felizes, se ser assim era estranho, então fossemos todos estranhíssimos. Até o cheiro do incenso era novo, como é que eles sabiam tanto sobre tudo? Aquelas duas caixas de óculos saíram dali triunfantes, os adultos não percebiam mesmo nada, afinal os marcianos eram mais da Terra do que qualquer um de nós.
Este tipo de experiências, baseadas numa curiosidade insuportável em conhecer novas perspectivas, em pôr à prova aquilo que se dava como certo ou horrível sem motivo nenhum, forçaram-me, desde miúda, a querer falar com estranhos, a querer conhecer lugares e histórias de todo o tipo de gente, a quebrar os preconceitos a que estamos expostos desde que vimos ao mundo.

O meu pai às vezes ralha-me com carinho a falta de ambição e a minha mãe, às vezes, também não entende à primeira o que me passa pela cabeça, mas sempre apoiaram e respeitaram as minhas escolhas, o que me dá mais um motivo para ter a certeza que tenho os melhores pais do mundo.

Cheguei de Cabo Verde no dia 26 e fiz-me à estrada para o novo projecto a que me candidatei e que já tinha ido conhecer, entretanto, no dia 7. Tentei explicar aos meus pais que o importante é estar a fazer aquilo que gosto, sem ir contra os meus princípios e, acima de tudo, por acreditar no que estou a fazer. Havia outras opções mais convencionais, que talvez agradassem mais aos padrões dos que me querem bem, mas eram opções menos felizes para mim.

Estávamos na viagem para a Ecoaldeia de Janas, onde eu passaria a integrar o gabinete de administração, e eu tentava explicar aos meus pacientes e amorosos progenitores que este é um projecto sério, de pessoas formadas e conscientes, que iria viver em comunidade e partilhar uma camarata numa casa antiga espectacular e que era importante perceberem que não era um acampamento de levianos que querem fumar charros e dançar à volta de fogueiras.

É que se um grupo de jovens tem um projecto na cidade as pessoas têm-nos como um grupo de empreendedores, ai que lindos, ai que orgulho. Mas se um grupo de jovens tem um projecto no campo, se acredita na agricultura como forma de economia e a transforma num projecto sustentável, ai que cambada de hippies, que desaforo às normas sociais, que sem-noção do que é a vida. Se são jovens dá-se um desconto, não sabem nada da vida, se são velhos e estão na agricultura, é o lugar deles porque não puderam aprender mais nada. A menos que sejam agricultores ricos. Aí, são uns senhores. E assim vai o país, sobrelotado de prédios de gente que não se conhece, em cidades cada vez mais solitárias, onde o que se vai partilhando é o ar poluído pelo stress do capital.

Mas eu cresci em Resende, onde se diz bom dia a quem passa na rua, onde se partilha com o vizinho da frente a dose de sobremesa que se fez a mais para o jantar, onde se comem ovos caseiros e as batatas do quintal do avô. Cada vez me identifico menos com a cidade, e por isso mesmo faz sentido ao meu bem estar viver num sítio onde me sinta útil e onde possa levar uma vida simples, rodeada de árvores, de flores e de energia positiva.

Os meus pais têm uma mente muito aberta, sempre alimentaram a nossa liberdade, mas a verdade é que temos padrões de conforto diferentes. O choque da minha mãe ao ver a Ecoaldeia foi muito maior do que a que eu previ.
Na verdade, ela ficou de tal maneira petrificada que pela primeira vez nas nossas vidas eu ri-me em vez de chorar numa despedida nossa. Não queria acreditar que estávamos a ver o mesmo.

Estava eu a mostrar-lhes os animais, as hortas, os jardins, os telhados verdes, as oficinas enquanto discursava contra o preconceito que há sobre este tipo de comunidades e projectos, sobre o quanto é bonito viver experiências novas, estava eu a tentar aliviar os meus pais ao explicar que ali ninguém era hippie nem usava rastas, que era um projecto de pessoas que tinham estudado, que não, não me ia desleixar com a roupa e que não, não ia perder a noção do tempo e do futuro nem alimentar o meu lado despassarado , quando, num só instante, a feição menos contraída da minha mãe e toda a estrutura credível do meu discurso desabaram por terra. Toda aquela conversa, todo o esforço por acalmar o ar de “alguém me acuda” da minha mãe, tudo foi completamente soterrado pela aparição do Gui, de barbas compridas, óculos rectangulares e cabelo comprido atado num rabo de cavalo que, com o ar mais tranquilo e natural do mundo, se vira para nós e muito baixinho e delicadamente pergunta no meio da terra húmida:
– Por acaso não viram os meus chinelos?
Nisto, olhámos os três para os pés dele, magrinhos, outrora branquinhos, supusemos, seguidos de umas calças de fato de treino sujas de terra, uma t-shirt larga manchada e um sorriso meiguinho e meio perdido. Eu, meia frustrada, meia perdida de riso, disse-lhe que não, não os tínhamos visto e ele seguiu as buscas.

Chegou a altura de me despedir dos meus pais e a minha mãe estava gelada, sem falar muito, a absorver tudo e certamente já a sofrer por mil situações hipotéticas. Disse-lhes, porque nunca é demais, o quanto lhes sou agradecida e quanto os amo. O meu pai deu-me um abraço quente com um conselho de quem nos é tudo e a seguir veio o abraço àquela que mais admiro neste mundo e, no momento de dizermos ao ouvido alguma declaração de amor eterno e profundo entre mãe e filha, meia a rir, meia a chorar, um tanto ou quanto incrédula e assustada pergunta-me de forma sincera e carinhosa:
– Oh minha filha…tu não viste por aí os meus chinelos?
– Estão em Portugal mãe, pelo menos estão em Portugal.

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