Estou na lista

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Mete-se à boca mais uma garfada do polvo que me vieram dar a casa.

Andou-se a evitar o assunto, com sorrisos banhados em esperança e aquele olhar de quem não sabe o que vai ser de nós.
Quando saí de casa a última coisa que queria era um amor. As cicatrizes deixam traumas e os traumas deixam-nos fracos e amargos. Saí de casa porque queria um rumo, segui agarrada à paixão pelo que faço mas não sonhava perder-me de amores. Queria a vida, queria acção, queria perigo e adrenalina, queria o mundo e batimentos cardíacos explosivos e foi assim que me perdi.

Antes de vir, estava no meu jardim preferido e alguém me disse “fomos condenados pela saudade”. A verdade é que eu sou irremediavelmente sensível. Quer dizer, é um bocado estúpido quando me apercebo que sinto saudades de coisas que ainda nem vivi ou que estou a sofrer por cenas que além de não serem minhas, não têm qualquer hipótese de serem resolvidas por mim. Mas o condenado pode ser também o abençoado, pelo menos neste caso. Se por um lado é um autoflagelo viver tudo tão intensamente, por outro é um privilégio. O problema é que nestas alturas torna-se insuportável viver com a alma à flor da pele.
São incontáveis os casos de amigos meus que se amam à distância. Parece que a nossa geração é à prova de bala, estão a criar pessoas altamente resistentes, ou, se calhar, estão só a criar pessoas que sofrem mais do que vivem, não sei bem. Não gosto de imaginar uma geração que embora acredite no amor não o possa viver. Basicamente “temos de comer e para comer é preciso trabalho”, “não podemos desperdiçar oportunidades de carreira”, “vivemos nesta geração temos de a suportar”, é o que nos dizemos uns aos outros cá fora enquanto lembramos a saudade dos que mais queremos. No outro dia, uma amiga minha por quem tenho uma enorme admiração tirava-me a curiosidade sobre a sobrevivência da relação dela com o pai do filho. Ela está num país que não é o dela com o bebé e o marido noutro, “estamos sempre um ao lado do outro, só que pelo Skype”. Também se apaixonou numa das suas expedições de quem não tem emprego em Portugal, dali nasceu uma criança incrível e agora os três são uma equipa forte, ainda que à distância. E dói-me só de os imaginar, a eles e à saudade que os une.

Eu nunca fui de mais ou menos. Ainda no outro dia a minha melhor amiga me dizia que um dos meus defeitos é que ou vejo alguma coisa de uma forma super incrível ou então simplesmente não presta. Ela tem razão, porque detesto coisas mais ou menos quer para o bem, quer para o mal.

Andou-se a evitar o assunto, com as tripas apertadas e o coração desfeito. “A saudade mata, sabias?” disse ele, “à distância não há o teu cheiro”. Ele estava longe do meu programa de vida, mas eu sou trapalhona e enquanto gesticulava numa esplanada durante uma conversa super interessante, dei um passo em falso para trás e tropecei nele. Não foi amor à primeira vista, mas a conversa antiga deixou de ser tão interessante e já não lhe consegui virar costas.

Ele é diferente de todas as pessoas que conheço e tem nos olhos uma vida que só de nos olhar nos refresca. Apaixonarmo-nos por alguém assim não é difícil e todas as minhas certezas foram abaladas. “Um homem para me conquistar tem de me atrair intelectualmente”, dizia eu antigamente de copo de vinho tinto na mão nos jantares de amigas em que se diz tudo o que vai na cabeça, “tem que entender a minha visão do mundo”. Agora olho para trás e penso: que tonta.
Estudar não é prioridade quando se tem de ajudar o pai a levar peixe para a mesa. Os cinemas e livros são tão escassos como a água doce numa ilha em que pouco chove e nem todos têm as mesmas oportunidades. Com o tempo mostrou-me um mundo novo e que as letras nos dizem pouco quando o espírito é que tem voz.

O nosso amor estava à partida condenado por nunca termos ouvido a mesma canção, mas o ritmo com que sentíamos a vida era o mesmo e, no final de contas, é só isso que importa. Apresentou-me a pessoa que eu nunca tinha sido até então. Ali, embora não haja uma centésima parte dos programas de namorados a que estamos todos habituados, o tédio nunca nos assombrou. Pelo contrário. Fomos nós e a pracinha de mãos dadas, nós e o mar, nós e a terra nos pés, nós e os peixes, nós e os jogos de futebol no polivalente, nós a dançarmos ao fim da tarde pela areia molhada, nós e o que a natureza nos dava. Apesar de nem sempre ser fácil viver com pouco quando fomos habituados a viver com o demais, experimentei um nível de felicidade que até hoje não conhecia.

Mas agora as garfadas de polvo fresco já não tinham sabor, os dias passavam depressa demais e o regresso à pátria impunha-se ao nosso sono. “Amor, estás com círculos pretos à volta dos olhos”, dizia-me ele enquanto me perdia em cafunés naquela imensidão de caracóis enroladinhos e lhe decorava as pestanas enroladas.

É possível que pessoas se contentem com um “foi bom enquanto durou”, mas isso não me chega e é por isso que não termina aqui.

No aeroporto, depois de passar a porta de embarque, encontrámo-nos numa vitrina sem combinar. Ele do lado em que é difícil sair, eu do lado em que já só há saída. Ficámos ali parados, de olhos molhados e barriga torcida, a relembrar pela última vez os detalhes já mais que decorados.
Para o avião iam só turistas felizes e bronzeados. Estava na sala de espera sentada numa espécie de buraco negro, a absorver um milhão de recordações por segundo, quando um senhor que já nos tinha visto a passear na rua me piscou o olho com ar de quem me percebia. E é engraçado como às vezes um carinho de um desconhecido sabe a um abraço apertado de um grande amigo.
Cheguei atordoada, voltei a ver carros e luzes e de repente o ar já não é salgado e tudo me baralha de uma forma estranha, como se em quatro horas tivesse viajado cem anos para o futuro.

Numa das vezes que me ligou com aquele jeito meiguinho, estava a contar-me sobre a reunião de preparação do habitual acampamento de amigos do 1 de Maio, quando de uma vez só me lembrou de todas as certezas que nos fazem continuar isto tudo que vale tão a pena.

-Estás na lista, amor.

-Estou na lista de quê, Tock?
-Das mulheres.

-Que mulheres?
-Estávamos a fazer a lista de pessoas que vão ao acampamento. Eu disse “põe aí o meu amor”. Eles riram, mas estás aqui amor. Estás na lista.

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