Rabo virado para a Lua

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No outro dia recebi um telefonema que me deixou desarmada: “tenho saudades de falar com você”, disse-me um amigo guineense que conheci cá. A verdade é que já não o via há algum tempo.

Por acaso, encontrei-o dias mais tarde e aproveitei para lhe dizer que estou de partida para Portugal.

“Eu hei-de ir para o Brasil”, disse ele, “vou estudar”.
Este meu amigo não tem nome próprio, só sobrenome, e quando eu trabalhava na rádio apareceu-me lá com um monte de certificados a dizer que gostava de poder voluntariar-se. 
“Ser jornalista é meu sonho mas na Guiné é difícil sem dinheiro. Por isso tudo que aparecer e for formação eu faço.” Admito que já nem me lembro ao certo, mas ele tinha carta de ligeiros, de pesados, certificados das mais variadas profissões técnicas… “nunca é demais formação”. Ele já tinha trabalhado numa rádio comunitária, sabia bem como tudo funcionava e só não queria perder a prática. Passou a ter o programa de música de toda a África e contou-me que agora o objectivo era juntar dinheiro para um curso de inglês. “Ana, se me mandam para uma reportagem na Inglaterra e eu não falar inglês é vergonha para jornalista, jornalista tem de falar muitas línguas”, dizia-me numa das vezes em que conversar era bem mais engraçado do que gravar. 
Ele veio cheio de energia e de vontade, andou uma série de tempo à procura de emprego. Foi morar para a barraca (Bairro da Boa Esperança), e emprego zero. Quando nos vimos desta vez disse-me: “Boa Vista está lotada . Tenho de ir para outro lado, tenho de ir estudar. Vim aqui parar porque do meu país para Portugal é muito difícil. Lisboa e bolsas são destino só para filhos de ministros e eu sou filho de agricultores. Vou tentar Brasil, não sei”. 
Enquanto a conversa rolava e ele me explicava que Portugal é um sonho para ele e para muitos dos amigos que queriam estudar, eu ia ficando sem saber o que lhe dizer. O meu pai é professor e eu cresci rodeada de professores cuja maior dor de cabeça é tentar conquistar a atenção e interesse dos alunos. Tentava pôr-me no lugar dele, porque no fundo somos parecidos e andamos os dois a lutar pelo mesmo sonho, que angústia. Lembrei-me daquele frio na barriga de quando pedia autorização aos meus pais para ir a algum lugar e tudo dependia daquela resposta, imaginei-a um milhão de vezes pior . “Estou de pés atados”, disse ele, “visto na Europa para filho de agricultor é quase impossível”.

O meu pai às vezes chama-me de sonhadora com um tom meio bem humorado meio não-fazes-ideia-do-que-estás-para-aí-a-dizer e eu respondo-lhe normalmente com os braços na cintura e ar de quem ouviu desaforo embora o tome como um elogio. Mas a verdade é que eu já tive esta discussão várias vezes ao ver que tanta gente não consegue sair daqui, às vezes nem para férias. A revolta é sempre a mesma. Eu nasci no planeta Terra e não me deixam conhecer o meu planeta porque nasci na ponta do globo errada? Foi a pergunta à qual ninguém soube responder durante um jantar de peixe grelhado em casa de uns amigos nossos. “O ser humano sempre teve o costume de delimitar território, tanta coisa evoluiu no nosso mundo menos a cabeça do homem”, disse-me um senhor mais velho de São Vicente.

A questão é que qualquer turista pode entrar em Cabo Verde desde que tenha passaporte e pague 25 euros no aeroporto. Chega , paga e fica um mês. Se depois fica ilegal, paga uma multa e está tudo bem – amigos na mesma – e assim se montam negócios, se escondem fugitivos , tudo sem problema. Mas para um cabo-verdiano sair daqui é preciso um santo cair do altar ou, neste caso, levar alguém ao altar. E pelos vistos na Guiné Bissau não é muito diferente.
             “Aqui não dá mais, agora quero ir para o Brasil estudar mas também é muito difícil”, dizia. Estava com ar de quem sabe bem o que quer e não faz ideia do que aí vem.

Então e ficas aqui sem emprego ,vais para Bissau? Afinal que conclusão tiras disto tudo?
Deu uma gargalhada, bateu com a mão na mesa e a mostrar os dentes fortes muito brancos respondeu-me : “Ana mas você não sabe? Conclusão é só uma: até para nascer é preciso ter sorte!!”

É o que eu costumo pensar sempre, até porque não pedimos a ninguém para vir cá parar. É a sorte resumida ao exacto momento de prazer que a nossa natureza se recusa a imaginar e tau: cá estamos nós a contrariar a imensa probabilidade de não existirmos.

O eco daquela gargalhada de quem não sabe quem lhe acuda ficou-me preso na garganta. O nó passou depois para o peito quando me lembrei que quem tinha razão era o meu avô quando me fazia uma festa no cabelo para me dar os parabéns por algum motivo e acrescentava : “a verdade é que nasceste de rabo virado para a lua, minha querida”.

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