Pretas no meio das pernas

Quem me conhece sabe que viajo muito, o que não significa que o faça de uma forma física. Às vezes apago simplesmente porque me distraio, outras vezes é porque estou demasiado interessada nas histórias que ouço nesse momento. Isto provoca o surgimento de um milhão de ilustrações com personagens específicas e detalhes que nem sequer estão no guião e que, por norma, me provocam feições parvas, como uma idiota boca aberta e um incrédulo sobrolho franzido.

Uma vez estava eu sentada no Alísios, um dos meus sítios preferidos da ilha da Boa Vista, quando parei no tempo enquanto uma amiga minha portuguesa, a viver cá já há uns tempos, ganhou a vez da palavra. Ela fala bem, sem papas na língua e quanto mais ela falava mais papas me entupiam a garganta.

Estávamos a falar da infância e se seria melhor educar um filho cá em Cabo Verde ou em Portugal. Todos os que estavam à volta da mesa estavam de acordo , quer nos prós quer nos contras até que alguém disse que isto tudo era muito relativo . A sério, tudo é sempre super relativo já sabemos, mas o que antes da minha vinda para Cabo Verde não fazia parte da conversa era a frase: isto também depende da cor da criança.

Foi aí que entrei em turbilhão. A cor. É impressionante como a cor passou a ser matéria em cima da mesa nestes últimos meses em que cá vivi. Embora sempre tenha estado ciente da existência de racismo, tudo muda de figura quando o sentimos na pele ou na pele dos nossos. É que eu sempre cresci no meio de pessoas tolerantes e inteligentes que me ensinaram não só a teoria como também a prática da coisa. Nunca me esqueci dos valentes pares de estalos que levei aos seis anos por ter dito que uma colega lá da escola tinha piolhos. Eu não disse por mal, simplesmente comentei com os meus colegas o que tinha ouvido da conversa dos adultos lá da escola . Só sei que um deles fez queixinhas à mãe da miúda, que por sua vez me foi procurar à porta da escola aos berros e ainda falou com os meus pais. Ai aprendi e aprendi bem, “ai de ti que voltes a envergonhar alguém” ainda me soa na memória e é que nunca mais me atrevi a dizer o que fosse… e a sério que apanhei piolhos várias vezes durante a primária, o que na altura pensei ser um castigo da natureza bem merecido.

É uma maravilha ver os miúdos que cá vivem a brincar na praia : portugueses, cabo-verdianos, senegaleses, italianos, chineses… tudo para ali num reboliço que só visto…Mas nem todos os miúdos turistas podem ir lá brincar com eles, alguns ficam a ver ao longe enquanto os pais preocupados com o bicho papão apanham escaldões que dão dó.

A minha amiga que tinha a palavra tem aquela cor que tantos brancos invejam e que eu adoro. Essa mesma cor que faz tanta gente incomodada com a cor dos outros passar horas ali alapada ao sol. Ela é portuguesa nascida em Portugal, filha de mãe branca e pai preto. Em Portugal a cor importa muito, diz ela, e o pior é que estes meses já não deixaram que essa frase me chocasse. Enquanto na minha família as pessoas amam pessoas, desde que vivo cá já vi de perto o drama familiar em que várias “brancas” apaixonadas por “pretos” são desconsideradas pelos que mais lhes eram. Em pleno século XXI, em que a globalização está na boca do mundo, cá estou eu a assistir a pessoas que à partida seriam de famílias bem formadas a sofrerem a divisão familiar porque se apaixonaram por alguém que uepá…não é da mesma cor. Extraordinário. E essa minha amiga continuava e contava que em Portugal os pais dos namorados não a queriam por perto porque era preta. E aí lembrei-me que já um amigo meu português mulato nascido e criado em Portugal filho de pais de países diferentes me tinha dito que passou a infância toda sem que nenhuma menina gostasse dele lá na escola porque era preto.
Oh Balolas, disse-me ela, eu ouvia constantemente “Oh preta do caralho vai para a tua terra” desde miúda. E eu corria para a minha mãe quando chegava a casa e dizia “mas mãe a minha terra é esta”.

Portugal…o país colonizador, o país tão religioso e moralista, o país de emigrantes, o país da saudade e dos avós e dos netos a trabalharem lá fora, o país das tantas casas cheias só em Agosto, o país em que tantos como eu estão em terras que não lhes pertencem… a mandar gente nascida e criada em Portugal ir para a terra deles .

Ela continuava a contar cenas inimagináveis que para ela eram infelizmente comuns e que a mim me soavam a ficção quando lhe perguntei: O que é que uma mãe nessa situação responde?
Ela abanou o cabelo, encolheu os ombros e a sorrir disse:
Olha Balolas, depende de mãe para mãe, a minha nunca valorizou a ignorância dessas pessoas. Mas quando a pressão apertou e eu muito pequena estava realmente incomodada ela disse-me uma coisa que na altura não percebi e que hoje me faz rir: olha filha, quando for assim diz aos teus colegas : “É bom que saibas que a tua mãe também é preta no meio das pernas”.

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